O presidente dos EUA, Donald Trump
Reprodução/CBS
O presidente dos EUA, Donald Trump

“Guerra diversionista” é um termo que ganhou popularidade a partir dos anos 1980 com a publicação dos primeiros estudos que relacionavam o uso da força militar pelos Estados Unidos em momentos de crise interna e baixa popularidade de seus presidentes. Como agora, com Donald Trump nas cordas com o caso Epstein, um shutdown recém-encerrado, não sem deixar traumas, e ameaças de realizar novas operações militares na costa venezuelana. A operação tem até nome: "Lança  do Sul".

A ideia seria desviar a atenção da população de problemas domésticos – crises econômicas, escândalos políticos ou instabilidade interna – com uma receita que, em tese, deveria ser tiro sem queda: plantar inimigos para colher coesão. É o que alguns teóricos chamam de efeito “rally ‘round the flag”. Ou, em tradução livre, “união em torno da bandeira”

Não é necessariamente criar uma guerra, mas intensificar disputas militares ou diplomáticas já existentes e retomar o controle da agenda da opinião pública. A teoria tem seus limites, ainda mais em tempos de redes sociais. A estratégia, também. A longo prazo, guerras podem arranhar de vez a imagem de seus idealizadores. E, em democracias consolidadas, os freios institucionais são o maior repelente para impulsos destrutivos movidos por razões políticas ou pessoais. 

De toda forma, a história está cheia de coincidências estranhas. 

Um caso emblemático, citado até hoje, são as ações militares ordenadas por Bill Clinton em meio ao escândalo sexual envolvendo Mônica Lewinsky nos fim dos anos 1990.

Em 20 de agosto de 1998, logo depois de admitir pela primeira vez em público sua relação “não apropriada” com a estagiária da Casa Branca, Clinton liderou um ataque contra o Sudão e o Afeganistão. Nem o senador Trent Lott, temido líder da oposição, teve coragem de questionar as razões do presidente, a quem pediu apoio nacional para a missão militar.

Em dezembro do mesmo ano, os Estados Unidos bombardearam alvos militares iraquianos sob justificativa de que Saddam Hussein impedia inspeções da ONU. A ação teve início no dia 16, pouco antes de a Câmara iniciar o debate sobre o impeachment do democrata. A cobertura da votação foi ofuscada pelas transmissões da guerra. 

Resultado: o presidente que passou o ano nas cordas celebrou o Réveillon com 73% de aprovação (Gallup). E foi absolvido antes mesmo de liderar os ataques da Otan contra a Sérvia, em resposta à repressão contra a população albanesa do Kosovo.

Clinton se deu bem, mas não inventou a roda. Em 1961, durante a Crise da Baía dos Porcos, em Cuba, John F. Kennedy enfrentava desconfiança. Tinha o capital político limitado ao fim de uma eleição apertada contra Richard Nixon. Ele ganhou a disputa com 49,7% dos votos e precisava convencer o restante do país de que, embora jovem (tinha 43 anos), podia liderar o país. Foi então que ele resolveu mostrar firmeza anticomunista e apoiar a invasão à ilha com ajuda de exilados cubanos. Deu tudo errado – e a desconfiança sobre o pulso firme do chefe da Casa Branca só aumentou.

Outro exemplo é o salto da popularidade de George W.Bush, acuado após vencer uma eleição sob condições suspeitas, ao responder aos ataques de 11 de Setembro de 2001 com uma guerra contra o Afeganistão. Aqui, ao menos, não é possível dizer que ele inventou uma agressão.

No livro “Domestic Discontent and the External Use of Force”, de 1992, Clifton Morgan e Kenneth N. Bickers testaram com dados empíricos a teoria de que presidentes usam força externa para aumentar apoio interno. A análise se baseou em conflitos ocorridos entre 1953 e 1976. 

Segundo eles, embora a “teoria diversionária do conflito internacional” seja intuitivamente plausível – e apoiada pelo que chamam de “evidências anedóticas” – é possível, sim, identificar uma relação entre o uso do porrete e o nível de apoio ao presidente. Ao menos entre os membros de seu partido. 

Mesmo assim é necessário avaliar racionalmente os custos e benefícios do uso da força. É preciso também contar com um apoio interno mínimo e botar na balança dois fatores nem sempre controláveis: a probabilidade de vitória militar (de preferência rápida e incontestável) e a reação da opinião pública. Vietnã e Iraque seriam, assim, exemplos de fracassos militares e atoleiros políticos que não elevariam a popularidade nem da Madonna.

Há também uma questão de “timing”. Alastair Smith, em “Diversionary Foreign Policy in Democratic Systems”, um estudo de 1996, conclui que, com a formação de crises endógenas, as grandes potências têm realmente maior probabilidade de se envolver em guerras no início de seu mandato.

Em outubro de 2025, enquanto move uma guerra comercial contra meio mundo, Donald Trump bateu no peito para dizer que ajudou Israel a sair do atoleiro em Gaza, um massacre militar apoiado por Washington ao longo de dois anos e condenado por potências européias e parte da opinião pública nos Estados Unidos. 

Mal foi anunciado o cessar-fogo e Trump mirou a bazuca para a América do Sul, onde ameaça dar forma a uma guerra às drogas com pitadas de guerra ao terror. Ações localizadas contra embarcações que supostamente transportam drogas pelo mar do Caribe acenderam o alerta sobre a possibilidade de um conflito se espalhar pela região.

O secretário da Guerra, Peter Hegseth, disse que as ações visam neutralizar o que ele chama de “Al Qaeda do Hemisfério Ocidental” – para bom entendedor, meia menção ao grupo terrorista que mobilizou as tropas norte-americanas no Oriente Médio nos anos 2000 basta.

Trump não fez nem esforço para negar uma reportagem do “New York Times” sobre ordens dadas à CIA, a central de inteligência do país, para promover ataques em território venezuelano com o objetivo de destronar Nicolás Maduro.

O republicano aproveitou o embalo e mirou as armas também para a Colômbia, que ele acusa de serem governadas por um líder do tráfico internacional e levou o presidente Gustavo Petro a convocar o embaixador do país em Washington.

A ofensiva acontece em um momento em que milhares de pessoas vão às ruas nos Estados Unidos sob o slogan “No King”. Em tradução livre, o que a multidão está dizendo é que não aceita as explosões autoritárias do republicano contra imprensa, imigrantes e comunidade científica. E agora insiste no uso da Guarda Nacional para supostamente conter ondas de violência em cidades governadas por democratas.

A paralisação dos gastos públicos teve início em 1° de outubro após o fracasso, no Congresso, da tentativa de aprovar um projeto orçamentário para ampliar o financiamento federal. A questão, por ora, está debelada, mas não por muito tempo.

No meio disso tudo, as ameaças e ataques localizados na América do Sul têm jeito, cara e rabo de uma nova “guerra de distração”.

Trump não parece movido pelo desejo de conquistar a simpatia de quem está nas ruas contra ele. Pelo contrário. Em um vídeo produzido com Inteligência Artificial, ele pilota uma aeronave fictícia de onde são lançados excrementos sobre os insatisfeitos. É um jeito de dizer o que pensa sobre os manifestantes.

Mas o republicano precisa agradar a própria base, a que não está na rua e que escolheu, nas urnas, o slogan “America First”. 

Parece, então, contraditório que ele queira fazer a América grande novamente agindo como presidente do planeta e interferindo em questões internas de outros países. Trump faz isso sob um argumento que é música para os ouvidos conservadores: ele busca apenas conter a entrada de drogas em seu país e proteger os conterrâneos.

Não vai conseguir nem uma coisa nem outra, como mostram tanto a guerra às drogas quanto a guerra ao terror. Mas a mensagem de que está ocupado demais consertando o Planeta enquanto um escândalo sexual e as crises e insatisfações internas pipocam em seu quintal está dada.

Morgan e Bickers afirmam que um líder só tratará a erosão do apoio doméstico com mais seriedade quando ela vier de segmentos da sociedade críticos à manutenção de sua coalizão. 

De fato.

Antes do shutdown, uma pesquisa do New York Times e da Universidade de Siena, na Itália, divulgada no início de outubro, mostrou que a aprovação de Trump era de 43% – um número historicamente baixo a essa altura do mandato.

O mesmo levantamento mostrou, porém, que ele mantém o apoio de 9 em cada 10 eleitores republicanos, agora sob risco com as revelações de milhares de e-mails de um predador sexual a quem chamava de amigo. 

*Este texto não reflete necessariamente a opinião do Portal iG

    Comentários
    Clique aqui e deixe seu comentário!
    Mais Recentes