O tom nacionalista e de campanha eleitoral prevaleceu na carta de Milton Ribeiro
Valter Campanato/Agência Brasil - 29/11/2021
O tom nacionalista e de campanha eleitoral prevaleceu na carta de Milton Ribeiro

Exonerado do cargo nesta segunda-feira pelo presidente Jair Bolsonaro, o agora ex-ministro da Educação Milton Ribeiro divulgou nesta segunda-feira uma  carta dirigida aos "cidadãos brasileiros" para explicar o seu afastamento do cargo em meio às denúncias de irregularidades na liberação de verbas da pasta.

Segundo interlocutores do governo, o texto de demissão começou a ser redigido no fim de semana e teve diferentes versões. Em uma delas, o ministro chegou a escrever "um até breve", indicando que poderia voltar ao cargo caso fosse inocentado. Na versão final, publicada em suas redes sociais, esse trecho acabou sendo suprimido.

Alvo de um inquérito da Polícia Federal instaurado na última semana, Ribeiro tentou transparecer no texto tranquilidade em relação às acusações no âmbito jurídico e destacar que se retirava de cena apenas por uma questão de "patriotismo" e conjuntura eleitoral. "Sei de minha responsabiliadde política, que muito se difere da jurídica. Minha decisão decorre exclusivamente de meu senso de responsabilidade política e patriotismo, mais que quaisquer sentimentos pessoais".

O tom nacionalista e de campanha eleitoral prevaleceu na carta na qual o ex-ministro e pastor da Igreja Presbiteriana declarou que era "guiado por quatro pilares: Deus, família, honra e meu país" e, ao fim, repetiu o slogan do governo: "Brasil acima de tudo. Deus acima de todos!"

Apesar de ter recebido um voto de confiança do presidente na última live de quinta-feira, Ribeiro passou a ser pressionado a se afastar por parte de lideranças evangélicas aliadas do governo, como o pastor Silas Malafaia, o deputado Marco Feliciano e o ex-senador Magno Malta, entre outros. Eles alegavam que, além de prejudicar o governo, as acusações manchavam a imagem dos representantes da igreja em um ano eleitoral.

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Na carta, Ribeiro disse ter "plena convicção" de que "jamais praticou qualquer ato de gestão que não fosse pautado pela legalidade, probidade e compromisso com o Erário". E que a sua decisão de deixar a titularidade do MEC "visava, mais do que tudo, deixar claro que quero uma investigação completa e isenta", conforme o texto.

Na versão final da carta, ele não fez menção aos dois pastores, Arilton Moura e Gilmar Santos, da Assembleia de Deus Ministério Cristo para Todos, que foram os pivôs da crise atual no ministério. Os dois religiosos, que participaram de 22 agendas na pasta e quatro encontros com Bolsonaro, foram acusados por prefeitos de pedir propina para a liberação de verbas do MEC. Conforme os relatos, as vantagens indevidas eram pedidas em quilos de ouro e aquisição de Bíblias.

Ribeiro se limitou a dizer que, assim que teve conhecimento das primeiras denúncias, "encaminhou de imediato" as informações para a Controladoria Geral da União, em agosto de 2021. E ressaltou que a liberação de recursos pelo Fundação Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) "não são de competência direta do ministro", dando a entender que ele não deveria responder sozinho pelas denúncias levantada. O presidente do FNDE, Marcelo Ponte, que também participou de eventos com os pastores investigados, é um indicado de líderes do Centrão.

No texto, o ex-ministro também afirmou que estava tomando a decisão de "coração partido". Interlocutores de Bolsonaro disseram que, nos últimos dias, ele estava bastante abalado com as denúncias e que colocara o cargo à disposição do presidente. A partir daí a carta de demissão de Ribeiro passou a ser redigida por um aliado de Bolsonaro e pastores evangélicos e, por fim, foi avalizada pelo ex-ministro.

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