Presidente Jair Bolsonaro (PL)
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Presidente Jair Bolsonaro (PL)

O governo brasileiro decidiu transformar em virtual a próxima cúpula de presidentes do Mercosul, prevista para o próximo dia 17 de dezembro, confirmaram fontes oficiais. O motivo principal que levou ao cancelamento do encontro presencial dos presidentes foi a nova variante Ômicron do coronavírus , mas as mesmas fontes admitiram que a situação atual do bloco é de fortes tensões por motivos políticos e econômicos entre seus membros, entre elas as provocadas pela viagem do  ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Argentina, na próxima sexta-feira.

A visita de Lula a Buenos Aires foi confirmada dias depois de reuniões de alto nível entre funcionários dos dois governos em Brasília, com motivo da comemoração do Dia da Amizade entre Brasil e Argentina, em 1 de dezembro. O governo do presidente Alberto Fernández enviou ao Brasil o secretário de Assuntos Estratégicos da Casa Rosada, Gustavo Beliz, um dos principais assessores do chefe de Estado argentino, que foi recebido pelo presidente Jair Bolsonaro e pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, entre outros. O clima, semana passada, foi de extrema cordialidade.

Para fontes do governo brasileiro, organizar uma visita de Lula em momentos em que os dois países vivem um período ainda frágil de recomposição da relação bilateral mostra uma atitude “quase esquizofrênica” da Casa Rosada. Existe preocupação pelos atos em que Lula participará junto ao presidente Fernández e sua vice, a ex-presidente Cristina Kirchner.

Está prevista a entrega de um prêmio sobre direitos humanos ao ex-presidente, um ato cívico-cultural para celebrar a democracia e reuniões de Lula com sindicatos argentinos. Na visão do governo brasileiro, “fazer esse convite uma semana antes da cúpula do Mercosul, âmbito no qual chegou-se a trabalhar para que Fernández e Bolsonaro tivessem sua primeira reunião bilateral, foi, no mínimo, inconveniente”. O Palácio do Planalto e o Itamaraty observarão com atenção declarações das autoridades argentinas durante a visita do ex-presidente, que viajará acompanhado pelo ex-chanceler Celso Amorim.

A relação entre Lula, Fernández e Cristina é antiga. O presidente argentino visitou o ex-presidente na prisão, em plena campanha eleitoral em seu país, em 2019. Um dos primeiros que telefonou para Lula depois da anulação de seus processos no Supremo Tribunal Federal (STF) foi o chefe de Estado argentino, fato destacado pelo ex-presidente em seu primeiro discurso fora da prisão. A sintonia entre ambos é pública e notória, e a viagem de Lula à Argentina, argumentam fontes do PT, não tem nada a ver com Bolsonaro.

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Mas o mal-estar nos últimos dias foi admitido tanto por fontes do governo brasileiro, como por outras de alas moderadas do governo argentino, que apostam numa recomposição da relação bilateral e entendem que uma visita à Argentina neste momento pode atrapalhar este processo ainda incipiente.

Lula não é o único problema que enfrenta o Mercosul neste momento. Existem, ainda, fortes tensões por divergências econômicas, principalmente entre o Uruguai, por um lado, e Brasil, Argentina e Paraguai, pelo outro. O governo do presidente Luis Lacalle Pou vem pressionando o governo brasileiro para que seja dada uma declaração explícita de apoio à iniciativa do Uruguai de negociar um acordo de livre comércio com a China, por fora do bloco. O Brasil argumenta que já deixou clara sua defesa da flexibilização de regras do Mercosul, e assegura que não considera necessária uma nova declaração sobre o assunto. Mas o Uruguai está firme em sua demanda, e fontes do governo brasileiro temem que na cúpula o presidente Lacalle Pou volte a expressar fortes questionamentos ao Mercosul.

Os mais pessimistas, acreditam que o Uruguai pode estar preparando sua saída do bloco. A realidade é que o diálogo entre os governos Bolsonaro e Lacalle Pou, que num primeiro momento, fluiu com facilidade e permitiu um alinhamento quase automático, passa por seu pior momento.

A cúpula, finalmente, será virtual e deverá confirmar, mais uma vez, as dificuldades que o bloco atravessa há alguns anos. A esperada visita de Fernández a Brasília não acontecerá e as relações bilaterais no âmbito político — no econômico os dois governos têm se entendido melhor — poderiam viver novos sobressaltos.

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