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Um ano, seis meses e 15 dias após se demitir do cargo de ministro da Justiça e Segurança Pública do governo Bolsonaro, o  ex-juiz Sergio Moro (Podemos) voltou aos holofotes da política brasileira na última quarta-feira (10) ao anunciar sua filiação ao Podemos e a sua pré-candidatura à presidência da República nas eleições de 2022. Para entender o que muda no cenário eleitoral e como a próxima corrida ao Planalto se desenrolará, o portal iG conversou com Tamara Crantschaninov, doutora em Administração Pública e Governo pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e professora de Ciência Política na Fundação Escola de Sociologia e Política (FESPSP).

De início, a especialista pontua que a postura de Moro - através de seu discurso - assemelha-se ao apresentado pelo  atual presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Sendo assim, é provável que o ex-juiz esteja acenando para o eleitor que depositou um voto de confiança no atual mandatário, mas se arrependeu da escolha.

"Pelo que a gente viu do discurso [de Sergio Moro], é uma fala muito na linha do que o Bolsonaro trouxe no começo da campanha eleitoral. É uma linha que Moro sempre seguiu. Do salvador da pátria, que resolverá todos os problemas", afirma a professora. "Tudo aquilo que ele coloca como prioridade na agenda, realmente é uma linha que seduz a pessoa que foi seduzida na campanha do Bolsonaro. Mas há uma diferença de perfil. Bolsonaro fazia uma linha 'contra tudo e contra todos', 'nada disso está bom' e 'precisamos limpar o sistema para conseguir governar'. Já o Moro, senti que ele não está fazendo tanto essa linha, mas ainda há esse espírito lava-jatista".

Além dos posicionamentos e discursos que se assemelham, as pautas defendidas por  Moro e Bolsonaro também são muito parecidas. Em seu discurso de posse, no dia 1º de janeiro de 2021, no Congresso Nacional, o recém eleito presidente Jair Bolsonaro afirmou que sua meta era "restaurar e e reerguer nossa pátria, libertando-a definitivamente do julgo da corrupção, da criminalidade, da irresponsabilidade econômica". Já o agora pré-candidato Sergio Moro disse que seus objetivos passam pelo "combate a corrupção como meio de viabilizar as reformas, controlar a inflação, preservar a responsabilidade fiscal, fomentar o emprego e o desenvolvimento sustentável e proteger a família".

Outro ponto salientado pela doutora é a apresentação de Sergio Moro como o 'salvador da pátria'. Postura essa que, segundo a acadêmica, não costuma ter um final agradável. "Ele se coloca nesse lugar de pessoa que salvou o Brasil da corrupção. É um discurso muito perigosos e irreal, porque ele não vai se materializar."

Em determinado momento de seu discurso, o ex-juiz afirmou que "ninguém combateu o crime organizado de forma mais vigorosa do que o ministério da Justiça" em sua gestão e que resolveu voltar dos Estados Unidos pois "não poderia e nunca vou abandonar o Brasil. Se necessário, eu lutaria sozinho pelo Brasil e pela Justiça."

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Tamara também alerta para o perfil de Moro, já que o pré-candidato a presidência possui uma longa carreira como juiz e um breve período no governo. A partir de agora, ex-ministro precisará aprender a negociar."Vivemos numa democracia presidencialista, ou seja, o presidente tem muita força, mas ele precisa negociar com a Câmara dos Deputados, com o Senado, com o setor privado e com a sociedade civil. Ele não governa sozinho. Nossa política trabalha com a estabilidade dos atores políticos consolidados, no próprio sistema político - com deputados e afins - e os interesses privados que sempre estarão presentes enquanto não tivermos uma política de compliance muito bem desenhada."

No mesmo dia em que Moro anunciou a sua pré-candidatura à presidência da República, uma pesquisa eleitoral realizada pela Genial/Quaest havia sido divulgada. Nela, além da liderança isolada do ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva (PT nas intenções de voto, havia uma importante movimentação no jogo político: a presença de Sergio Moro na terceira colocação na preferência dos eleitores, atrás apenas do petista e de Jair Bolsonaro.

A especialista pondera que a presença de Moro em terceiro nas pesquisas pode ser caracterizado pelo fator 'novidade'. "Precisamos ver como isso vai ser representado ao longo dos próximos meses, temos um cenário polarizado e consolidado a muito tempo. O que Moro conseguirá é arrebanhar os eleitores arrependidos de Bolsonaro e que sempre viram nele um grande defensor do Brasil, das instituições e da luta anti-corrupção. Ele terá esse público, mas não acho que crescerá tanto. Quem já votou no PT ou no Lula, é difícil desse eleitor votar no Moro. Mesma coisa com o Bolsonaro".


Por fim, a avaliação de Tamara do discurso - e posicionamento - de Moro neste inicio de campanha eleitoral é de que o ex-juiz traçou um caminho semelhante ao percorrido por Bolsonaro antes de se eleger presidente, e que é preciso cuidado com esta narrativa.

"A caminhada do governo Bolsonaro é a prova irrefutável que o presidente que acredita que governará sozinho e que se coloca contra tudo e contra todos, não tem nenhuma chance de conseguir sucesso nas suas medidas. Enquanto acreditarmos que teremos um super herói que irá nos salvar de todas as mazelas, continuaremos a eleger pessoas como o Bolsonaro", finaliza a doutora.

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