Sergio Moro
O Antagonista
Sergio Moro

Com presença de lulistas e bolsonaristas em palanques estaduais, o Podemos prepara terreno para a filiação do ex-juiz e ex-ministro Sergio Moro, prevista para novembro , enquanto suas lideranças defendem que a campanha presidencial terá de ir além da defesa da Lava-Jato, principal bandeira da sigla na campanha de 2018. Moro é tratado internamente como pré-candidato à Presidência em 2022, dentro de uma construção de terceira via com partidos como PSDB e União Brasil.

Outra divisão no Podemos veio à tona com a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que busca aumentar a interferência do Congresso no Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) . Na semana passada, antes da votação, Moro divulgou um vídeo pedindo a rejeição da PEC, sob o argumento de que ela reduziria a independência de procuradores. Na bancada de dez deputados federais do Podemos, cinco votaram a favor da proposta, que acabou rejeitada pelo plenário.

Entre os votos que divergiram da posição de Moro, dois foram de parlamentares do Nordeste — Bacelar (BA) e Ricardo Teobaldo (PE) — que articulam em seus estados alianças com o PT, do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenado pelo ex-juiz da Lava-Jato. No início deste ano, Lula voltou a ficar elegível após o Supremo Tribunal Federal (STF) decidir que os processos não deveriam ter sido julgados no Paraná.

Já dos cinco que votaram contra a PEC, convergindo com a posição de Moro, três — Diego Garcia (PR), José Medeiros (MT) e Léo Moraes (RO) — são apoiadores ou buscam manter boa relação com o presidente Jair Bolsonaro, de quem o ex-ministro da Justiça tornou-se adversário após denunciar interferências na Polícia Federal.

"Moro não vai ser o candidato da Lava-Jato, mas sim o candidato do Brasil. É preciso unir o país, e isto passará por conversas com diferentes lideranças políticas do centro", afirma o deputado José Nelto (Podemos-GO), que votou a favor da PEC.

Aliado do governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil), Nelto diz apoiar Moro na chapa presidencial, mas pode deixar o Podemos caso o partido confirme a filiação do prefeito de Aparecida de Goiânia, Gustavo Mendanha, opositor do governo estadual.

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Em nota, a direção nacional do Podemos disse prezar “pela pluralidade e respeito” e compreender as “diferentes realidades locais”, mas que “discorda da existência de apoio ao PT ou a Bolsonaro”. O partido disse ainda que mantém a defesa de pautas como “combate à corrupção e o fim dos privilégios”, e que debates mais prolongados sobre alinhamentos locais esperam a efetivação da vinda de Moro, que aguarda o fim de seu contrato com a consultoria Alvarez & Marsal.

Uma das principais entusiatas da filiação de Moro é a deputada federal Renata Abreu (SP), atual presidente da sigla. Ela é sobrinha de Dorival de Abreu, que fundou em 1995 o Partido Trabalhista Nacional (PTN), rebatizado há quatro anos como Podemos.

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Com sucessivos desempenhos tímidos nas urnas, e depois de ter elegido apenas quatro deputados federais em 2014, o então PTN aproveitou a janela partidária introduzida em 2016, permitindo a troca de sigla sem perda de mandato, e a remodelagem do partido no embalo da Lava-Jato para triplicar a bancada na Câmara à época.

Após as eleições de 2018, quando emplacou 11 deputados federais — um deles, Marco Feliciano (PL-SP), foi expulso da sigla em 2020 —, o Podemos incorporou o PHS de olho em nova ampliação da bancada. Os seis deputados da legenda, contudo, aproveitaram a brecha na legislação e migraram para outros partidos, como PL e PP. Ainda assim, os movimentos levaram o Podemos a ampliar seu fundo eleitoral para R$ 77 milhões em 2020, ano em que triplicou seu número de prefeitos: foram 96 eleitos, sendo um em capital — Eduardo Braide, em São Luís.

O Podemos também ampliou sua presença no Congresso ao filiar senadores com mandato. Dos nove que atualmente integram o partido, apenas um, Oriovisto Guimarães (PR), foi eleito pelo Podemos, que filiou os dois outros senadores do Paraná, Flávio Arns (ex-Rede) e Alvaro Dias (ex-PSDB) — este último, candidato à presidência pelo partido em 2018, com forte defesa à Lava-Jato de Curitiba.

Apesar da preferência por lançar Moro à Presidência em 2022, interlocutores do ex-juiz não descartam uma candidatura ao Senado, a depender do desempenho em pesquisas na pré-campanha. Moro avalia disputar uma vaga de senador por Paraná, estado em que Alvaro Dias pretende concorrer à mesma cadeira, ou por São Paulo.

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