O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) durante atos antidemocráticos em 7 de setembro
Fepesil/TheNews2/Agência O Globo
O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) durante atos antidemocráticos em 7 de setembro

Um dia após o  recuo de Jair Bolsonaro nos ataques ao Supremo Tribunal Federal (STF), que deixou desnorteada parte da militância bolsonarista, o presidente foi duas vezes a público nesta sexta-feira (10) justificar porque publicou a nota de tom ameno. O presidente buscava uma explicação aos apoiadores mais radicais, que formam seu núcleo mais fiel e estavam descontentes com o que consideraram uma rendição — "não dá para ir para o tudo ou nada", chegou a dizer o presidente.

Nas redes sociais, entrou em cena a construção de uma narrativa para defender o presidente. Bolsonaristas que, na quinta-feira, criticavam o mandatário ou se diziam decepcionados com ele adotaram um tom de apoio. A hashtag #EuConfioNoPresidente foi uma das mais comentadas e segue em alta neste sábado (11).

Líderes da artilharia nas redes, os filhos Carlos e Eduardo Bolsonaro tiveram reação tímida sobre o tema nas primeiras 24 horas após a divulgação do texto.

Bolsonaro disse que as pessoas criticaram a nota, escrita com apoio do ex-presidente Michel Temer, sem ler o documento inteiro. No texto, publicado dois dias após chamar o ministro Alexandre de Moraes de “canalha” e dizer que não cumpriria mais suas decisões, o presidente afirma que as ameaças ao Supremo foram feitas no “calor do momento”, que nunca teve “intenção de agredir” outros Poderes e que Moraes tem qualidades como “jurista e professor”.

O presidente lembrou que os indicadores da Bolsa melhoraram após o documento e que a cotação do dólar influencia o preço da gasolina:

"Alguns querem que degole todo mundo. Mas hoje em dia não existe mais país isolado", afirmou. "Alguns querem imediatismo. Você namora e casa em uma semana, vai dar errado seu casamento."

Após as declarações do presidente, parte de sua base montou uma operação para demonstrar apoio. O discurso escolhido foi de que não é a primeira vez que uma decisão de Bolsonaro desagrada num primeiro momento e se mostra acertada depois. Como exemplo, bolsonaristas citaram a demissão do ex-juiz Sergio Moro, que após saída do governo virou inimigo.

A deputada Carla Zambelli (PSL-SP), que chegou a se dizer “frustrada” com o comunicado, anteontem, foi à tribuna da Câmara defender a ação de Bolsonaro.

"Vocês podem não ter entendido o propósito dessa nota, assim como muitos não entenderam o pedido de demissão do Moro lá atrás, mas hoje a história conta quem é Moro e quem é Bolsonaro. Deem um tempo para o presidente", declarou a parlamentar.

Carlos Jordy (PSL-RJ) reconhece que o tom da nota destoa do modo com que Bolsonaro vinha tratando o Judiciário, mas diz que o movimento foi necessário para apaziguar os ânimos.

"Fazer uma nota em tom apaziguador, que muitos julgaram que fosse um pedido de desculpa, não é do feitio do presidente e causou um impacto. Mas ele entende que esse tensionamento, que não é provocado exclusivamente por ele, não é bom para o Brasil", disse.

As respostas são destinadas principalmente a apoiadores mais radicais, os primeiros a discordar do tom da nota ainda na quinta-feira, como o deputado Otoni de Paula (PSC-RJ), que fixou as críticas nos conselheiros do mandatário, e o bloqueiro Allan dos Santos, do canal Terça Livre, que chegou a fazer publicações com as expressões “game over” (fim de jogo) e “inacreditável” anteontem. Um dia depois, já estava dizendo, que o presidente “tem feito de tudo” para cessar o que ele considera uma “inconstitucionalidade”, o tratamento dado por Moraes a apoiadores de Bolsonaro em ações do STF.

O ministro do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno, gravou ontem vídeo na linha adotada pelos demais apoiadores:

"Alguns fatos deixaram alguns de nós desanimados", afirmou o general da reserva. "Nosso presidente possui formidável senso político. Discordei dele algumas vezes e depois descobri que ele tinha razão."

Nas redes sociais, depois que a oposição dominou debates sobre a nota anteontem, a hashtag #EuConfioNoPresidente somou mais de 85 mil tweets até o fim da manhã. Análise feita pela consultoria Arquimedes, a pedido do GLOBO, a partir de 95 mil publicações de quinta-feira no Twitter mostrou que a oposição fez 85% do total de publicações sobre a nota. Termos como “covarde”, “Bolsonaro arregou” e "Bolsonaro acabou” foram os assuntos mais comentados.

Filhos reagem

Os filhos do presidente trataram o recuo de Bolsonaro de forma diferente nas redes. O senador Flávio Bolsonaro foi o único que havia seguido, até o fim da tarde, o mote da campanha dos aliados, ao pedir para que “confiem no capitão”, pois ele “sabe o que está fazendo”.

O vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ) não escreveu nada sobre a nota. O deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) mencionou o caso indiretamente ao publicou uma lista de fatos que geraram críticas a Bolsonaro, mas que ele não considera erros, como a demissão de Moro, indicação de Kassio Nunes Marques ao STF e a gestão dos incêndios na Amazônia, além de atacar o adversário João Doria, que ironizou o presidente.

No fim do dia, o vide-presidente Hamiltom Mourão elogiou a nota, que classificou de “mea-culpa” de Boslonaro e disse que vê caminhos para a retomada de diálogo entre os Poderes.

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