Bolsonaro
Marcello Camargo/Arquivo/Agência Brasil
Estudo foi divulgado nesta quarta-feira (14).

Nos últimos nove meses, casos de ataques a jornalistas e veículos de comunicação cometidos pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) chegaram a 299, revela o relatório ‘Monitoramento de discursos, entrevistas e postagens em redes sociais” realizado pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) entre janeiro e setembro deste ano, divulgado nesta quarta-feira.

Segundo a pesquisa, as agressões correspondem a 33 casos por mês neste período, em média um por dia. De acordo com a Fenaj, a maioria, 259, é classificada como descredibilização da imprensa. Trinta e oito casos foram registrados como “ataque ao profissional jornalista”. E outros dois casos são classificados como ataque à organização sindical.

O relatório cita a ameaça feita por Bolsonaro a um jornalista do O GLOBO enquanto o profissional questionava sobre cheques no valor total de R$ 89 mil que teriam sido depositados entre 2011 e 2016 pelo ex-assessor Fabrício Queiroz e pela esposa dele, Márcia Aguiar, na conta da primeira-dama, Michelle Bolsonaro: ]’Vontade de encher sua boca na porrada… seu safado”, disse o presidente.

A pesquisa cita também a descredibilização feita por Bolsonaro a imprensa durante seu discurso na abertura da 75ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU): “Como aconteceu em grande parte do mundo, parcela da imprensa brasileira também politizou o vírus, disseminando o pânico entre a população. Sob o lema “fique em casa” e “a economia a gente vê depois”, quase trouxeram o caos social ao país”, completou.

Em entrevista realizada pelo GLOBO, a presidente da Fenaj e participante do monitoramento, Maria José Braga, destaca a conivência por parte de instituições ao ataque realizado pelo presidente, que segundo ela utiliza os insultos como parte da agenda política:

"Bolsonaro não possui respeito pelo trabalho da imprensa, como uma das instituições necessárias à democracia. A elite política do país, inclusive as instituições como os poderes Legislativo e Judiciário, aceitam a prática autoritária do presidente, seu desrespeito às liberdades de expressão, de imprensa e sua violência contra os jornalistas" afirma, complementando: "O presidente busca a descredibilização da imprensa com o objetivo de manter fiel seus apoiadores e assim garantir seu capital político, mas acredito que grande parte da sociedade brasileira acredita no jornalismo e em seus profissionais".

Questionada pela reportagem do GLOBO, a assessoria do Palácio do Planalto ainda não retornou os questionamentos sobre a pesquisa.

Veja alguns ataques do presidente contra jornalistas:

  • 16 DE JANEIRO

Em entrevista na saída do Alvorada, Bolsonaro atacou diretamente um repórter da "Folha da S.Paulo":

"Você é da Folha de São Paulo? Eu quero ver quando a Folha de S. Paulo vai desfazer acovardia que vocês fizeram com a Wal do açai, de Angra dos Reis (RJ). Quando vocêsfalaram que ela tava trabalhando no açaí, ela tava de férias, conforme boletim efeito daCâmara. Então A Folha de São Paulo não tem crédito pra acusar ninguém, não temcredibilidade. Lamentavelmente, uma péssima imprensa que faz a Folha de São Paulo (...)Você acabou. A Folha de São Paulo acabou. Sai fora, Folha de São Paulo, você não temmoral de perguntar nada".

[...]“Você é da Folha, Folha fora, não quero conversa com a Folha de S. Paulo. Quando vocêsvão desfazer a covardia que fizeram com uma mulher pobre lá em Angra dos Reis? Com aFolha de S. Paulo não quero conversa, outra pergunta”.

[...]“A gente lamenta que a Globo não faça um trabalho contra o prefeito, faz contra o povobrasileiro, igual a Folha, não faz um trabalho contra mim, faz contra o Brasil”.

  • 16 DE JANEIRO

Na saída do Alvorada, no fim da tarde, Bolsonaro foi questionado sobre as denúncias de que o chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência, Fabio Wajngarten, recebeu, por meio de uma empresa da qual é sócio, dinheiro de emissoras de TV e de agências de publicidade contratadas pela própria secretaria, ministérios e estatais do governo Jair Bolsonaro, responde a repórter da Folha:

“Você táfalando da tua mãe?”

  • 16 DE JANEIRO

Em discurso oficial durante Solenidade dePassagem de Comando da Operação Acolhida no Palácio do Planalto, Bolsonaro atacou os jornalistas presentes:

“E como a história bem diz, a nossa imprensa tem medo da verdade, deturpam o tempotodo, e quando não conseguem deturpar, mentem descaradamente. Esse é o livro dessajaponesa que não sei o que faz no Brasil, o que faz agora contra o governo. São aquelesque o tempo todo trabalham contra a democracia, contra a liberdade, estão a soldo do quenão presta em nosso Brasil.”

[...]“Essa imprensa que está aqui agora, me olhando, estou sob suas lentes, comecem aproduzir verdade, porque só a verdade pode nos libertar. A essa imprensa: não tomareinenhuma medida para censurá-los, mas tomem vergonha na cara, deixem o nosso governoem paz para poder levar paz, tranquilidade e harmonia ao nosso povo.“Se tenho coragem de falar isso agora é porque eu tenho consciência do que acontece nogoverno. Nos encontros que tenho, nas minhas viagens internacionais, as conversas, o quenós podemos fazer para o bem do Brasil. Há pouco a imprensa falou barbaridades sobre apossível taxação do aço e do alumínio. Resolveu-se o problema. Nenhuma linha, por partedeles, sobre esse feito. Há pouco a grande imprensa também nos atacou por ter aArgentina, há poucas semanas, ter prioridade para a OCDE. Não temos uma briga contra aArgentina. O comércio mundial não tem amizades. Conseguimos mudar a situação. Essanossa imprensa também não diz nada

  • 05 DE FEVEREIRO

Em entrevista na saída do Palácio do Alvorada, Bolsonaro voltou a ser questionado sobre as denúncias envolvendo Wajngarten e atacou, de novo, o repórter da "Folha".

“Você deve ser da Folha de São Paulo né. Muda o disco, tá há um mês batendo noWajngarten. Muda o disco, pô! Tá ok? O Wajngarten continua mais firme do que nunca”

“O objetivo é botar você pra raciocinar! Outra pergunta aí”.

  • 13 DE FEVEREIRO

Na saída do Alvorada, Bolsonaro criticou o jornal "Valor Econômico" e os repórteres:

“Se tivesse conversado com vocês nos últimos dias, é tudo complicado, rebuliço, porquetudo é deturpado, inventado, lamentavelmente vocês sabem como é. Não são vocês, sãoos editores.”

[...]“Cara chato pra caramba. Qual tua imprensa? Qual tua imprensa?Jornalista: Valor EconômicoVocês fizeram duas matérias da minha campanha me esculhambando, dizendo que aminha política econômica é igual da Dilma. Tô aguardando vocês falarem que seequivocaram, tô aguardando.”

  • 18 DE FEVEREIRO

Bolsonaro ataca jornalistas do jornal Folha de S.Paulo":

“Interpretação de vocês, tá certo? Vocês estudaram pra isso, pra interpretar texto. Quemnão interpretar texto, tem que voltar pra faculdade. Tem que voltar de novo pra faculdade,quem não sabe interpretar texto”

[...]“E olha a jornalista da Folha de S. Paulo, tem mais um vídeo dela aí. Não vou falar aqui quetem senhora aqui do lado, ela fala ‘Eu sou tototo-tatata do PT’. E o depoimento do River,Hans River, final de 2018 para o Ministério Público, ele diz do assédio da jornalista em cimadele. Ela queria um furo, ela queria dar o furo a qualquer preço contra mim. Lá em 2018 elejá dizia, que ele chegava perguntando, ‘O Bolsonaro pagou pra você, divulgar né, pelowhatsapp informações’”.

  • 20 DE FEVEREIRO

Em uma das lives de quinta-feira, Bolsonaro atacou a jornalista da Globonews Eliane Catanhêde:

“Globonews! Eliane Catanhêde, descobriu também que um dos responsáveis pelo tirono Cid Gomes foi um tal de Jair Bolsonaro. Você conhece esse cara? Tá vendo o risco quevocê tá correndo do meu lado? Ô imprensa brasileira! (...) Eliane Catanhêde, dizendo quesou um dos responsáveis pelo tiro naquele cidadão que tava na retroescavadeira, é o fim dapicada! Então olha só: o que o presidente da Caixa falou? Que a Caixa não financiou clubede futebol no passado. E eu não financiei a imprensa. Então se justifica né, se ver porque aimprensa ataca tanto a gente.

Pegar a semana pra Cristo o negócio do furo de reportagem! Quem falou foi o River.E agora, que ele falou? Agora outra polêmica. Ele falou que ela se insinuou pra ele em trocade um furo de reportagem. Agora tá a Folha dizendo que ele mentiu. Que moral tem a Folhapra acusar alguém de mentiroso? Que moral tem a Folha? Pelo amor de Deus!”

[...] “Acabei de falar aqui, pra Eliane Cantanhêde aqui dizer que sou um dosresponsáveis pelo tiro lá no cidadão do, lá em Fortaleza, pelo amor de Deus, que negócio éesse? O tempo todo isso, só besteira, besteira besteira o tempo todo, só fofoca, fofoca.Empresário, faço um apelo a você, humildemente eu peço. Faça seu balancete em jornaismenores que esses jornalões que têm por aí. Você vai gastar menos, e vai ajudar a chegaruma informação verdadeira no cidadão brasileiro, que é atacado o tempo todo, é uma cargade mentira o tempo todo.”

“Não vou entrar em detalhe, dar espaço pra essa mídia aí, grande parte dessa mídiaaí que não aprendeu ainda que o Brasil mudou, apesar de vocês! Apesar de vocês, o Brasilmudou!”

  • 26 DE FEVEREIRO

No Twitter, Bolsonaro atacou a jornalista Vera Magalhães após ela noticiar que o presidente havia divulgado, para seus contatos no WhatsApp, dois vídeos convocando para atos a favor do governo, e contra o Congresso e o Judiciário, que ocorreram no dia 14 de março.

"Tenho 35Mi de seguidores em minhas mídias sociais, c/ notícias não divulgadas por parteda imprensa tradicional. No Whatsapp, algumas dezenas de amigos onde trocamosmensagens de cunho pessoal. Qualquer ilação fora desse contexto são tentativas rasteirasde tumultuar a República".

  • 27 DE FEVEREIRO

Durante live ataca o colunista Guilherme Amado, da revista ÉPOCA, e Vera Magalhães.

"Primeira coisa aqui, a imprensa, não tô reclamando não, é uma afirmação, comoregra, tem como combustível a mentira. Temos aqui, Guilherme Amado, ‘mesa de café damanhã de Jair Bolsonaro na eleição eram fakes’. E a matéria diz: ‘Segundo uma fonte comlivre acesso ao seio da família militar’. Não vou baixar aqui o nível aqui pra dizer quem éessa fonte… essa fonte, com toda a certeza, conheço o Guilherme Amado desde que elenasceu. (...) Não tem o que falar de verdade contra a minha pessoa, o cidadão fica o tempotodo pregando mentiras, dizendo que minha mesa era fake, pra chamar atenção, que eu erauma pessoa simples.

“Tô apanhando da mídia, jornal Nacional, Folha, Estado, Globo, praticamente toda amídia brasileira… eu disparei trilhões de zap pedindo aí o apoio de todos à manifestaçãopro dia 15 de março. (...) e a Vera Magalhães, teria, olha só, Vera, como fui legal contigo,você teria recebido o vídeo com eu pedindo apoio para manifestação de 15 de março de2015. (...) E daí, pelo que parece né, Vera Magalhães, você pegou esse vídeo, não possoafirmar que seja essa história, realmente, que eu não sou da tua laia, certo? Não sou da tualaia, então em cima disso, você fez uma matéria que eu estaria disparando WhatsApppedindo apoio para o movimento, no dia 15 de março, agora. E depois que ela viu que tinhafeito besteira, porque o vídeo é de 5 anos atrás, começou a ligar pra algumas pessoas, prasaber se eu tinha mandado zap ou não, e uma pessoa teria confirmado que eu mandei umzap. Agora, esse vídeo ela não mostra. Mostra o vídeo, vê se lá eu tô atacando oParlamento brasileiro, atacando o poder Judiciário, atacando quem quer que seja. Veja lá.Ela não divulga isso daí, ela não mostra isso aí. Ela printou o vídeo, essa pessoa quepassou pra ela, que eu passei o vídeo pra essa pessoa, ela printou, e mostrou o print. Nãomostrou o vídeo em si. Até o vídeo que tá no print dela não tem nada a ver. Nada a ver. Ovídeo fala um pouco da minha vida, da facada, da campanha, nada mais além disso. Agora,com toda a certeza, repito, não posso afirmar, não posso afirmar com toda a certeza, ela feza, ela queria dar um furo, dar um furo de reportagem."

  • 06 DE MARÇO

Pelo Twitter, Bolsonaro publicou uma coluna da jornalista Patrícia Campos Melllo e criticou a repórter da "Folha de S.Paulo"

"Você sabe quem é essa jornalista, tão defendida por seus pares?"

  • 17 DE MARÇO

Bolsonaro retuíta post da jornalista Vera Magalhães sobre a organização de um ato antidemocrático:

"Vá procurar o que fazer, senhora!"

  • 18 DE MARÇO

Em entrevista coletiva sobre o coronavírus, o presidente volta a criticar Vera:

“Após isso, grande parte da mídia potencializou em cima desse evento. Como se fosse oúnico que tivesse sido programado por mim. Não convoquei ninguém, não existe nenhumáudio, nenhuma imagem minha, convocando pro dia 15 de março de 2020. Existe sim, umvídeo eu convocando para 15 de março de 2015. Uma manifestação contra a presidentenaquele momento. Vídeo esse que foi largamente explorado por parte de uma jornalistainconsequente, como se fosse 15 março de 2020, coincidente também em ser numdomingo.”

  • 23 DE MARÇO

Em entrevista coletiva na saída do Alvorada, Bolsonaro ataca jornalsta que perguntou sobre a alta popularidade do então ministro da Saúde, Henrique Mandetta.

“A imprensa é importantíssima para divulgar a verdade, mas não é com pergunta comoessa, feita por essa senhora aqui do meu lado. Uma pergunta impatriótica, uma perguntaque vai na contramão do interesse do Brasil, uma pergunta que leva ao descrédito daimprensa brasileira. Uma pergunta, me desculpem, infame até. Vão dizer que estouacusando a imprensa e agredindo a imprensa. Se estou agredindo, saiam da frente doAlvorada. (...) Aí vem uma pergunta que a popularidade do Mandetta está melhor do que aminha. Vá às favas, pô! Será que não tem mais inteligência no meio da imprensa brasileirapara fazer uma pergunta à altura do Brasil, à altura das vidas que estão em risco dado essevírus agora?”

  • 26 DE MARÇO

Na saída do Alvorada, Bolsonaro critica perguntas de jornalistas:

“Nós temos 38 milhões de autônomos, essas foram as primeiras vítimas! O cara não temreserva, não tem poupança, tá a geladeira sempre com 10% de carga lá dentro. Essepessoal tá aí, já tá passando fome. Dado exatamente ao pânico, histeria, que foi levado praeles por parte dos órgãos de informações, políticos, deputados, senadores, chefes deexecutivo, isso que foi levado.”

(...)“Quando vocês acabarem com a palavra ‘recuou’ pra mim, eu começo a falar com vocês.”

(...)“Para quê você quer saber? Você dorme comigo? Você dorme comigo?! Pelo amor deDeus, pô! Eu estou bem, tranquilo cara. Nunca tive problema não. Olha só que bonito hein!Que prato feito pra imprensa hein! Se eu tivesse infectado. Não tô! A minha palavra valemais que um papel.”

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