Bolsonaro
Alan Santos/Agência O Globo
Bolsonaro em visita à Serra da Capivara, no Piauí, em julho

Obras e política social. A receita tão conhecida na política brasileira foi adotada por  Jair Bolsonaro nas viagens que têm feito pelo país. Para surfar a onda da popularidade trazida pelo auxílio emergencial, cujo efeito rendeu sua maior aprovação em um ano e meio de governo, segundo o Datafolha, o presidente intensificou visitas em cidades do Norte e do Nordeste numa agenda que incluiu inauguração de obras feitas por antecessores.

Desde abril, Bolsonaro tem priorizado locais onde o benefício de R$ 600 tem mais peso. Dos 23 municípios visitados desde abril, dez estão no Norte e no Nordeste — sete viagens foram feitas de junho até agora.

No Nordeste, especialmente, pesquisas apontam que o presidente tem avançado sobre a base lulista. No roteiro presidencial, pelo menos um em cada três habitantes está recebendo o auxílio. Em alguns casos, chega à metade da população.

Além do benefício, Bolsonaro vem aproveitando a conclusão de obras iniciadas em gestões anteriores. A estratégia é fazer do pacote assistencial e da entrega de empreendimentos uma marca do governo.

Uma das obras inauguradas foi o Eixo Norte do projeto de Transposição do Rio São Francisco, iniciado em 2007. Depois de Lula, Dilma e Temer, foi a vez de Bolsonaro deixar seu nome na placa, mesmo tendo avançado apenas 1% na execução do projeto, hoje em 97,49%, e pago R$ 675 milhões dos mais de R$ 10 bilhões investidos.

A obra no “Velho Chico” não é exceção. Das 12 entregues desde abril, apenas cinco foram iniciadas na atual gestão, sendo duas delas a transformação de escolas já existentes em cívico-militares.

O governo dá sinais de que não pretende abandonar essa agenda tão cedo. Somente na semana que passou, além da visita, ontem, a Caldas Novas (GO), Ipatinga (MG) e Foz do Iguaçu (PR) entraram no roteiro. Até mesmo obras da iniciativa privada são alvos da presença massiva do presidente, com direito a aglomerações.

O foco, no entanto, está no Nordeste . O “olhar especial” para a região é um pedido de Bolsonaro, como revelou o ministro Rogério Marinho, do Desenvolvimento Regional, ao lançar o Casa Verde e Amarela, substituto do “ Minha casa, minha vida ”.

Especialistas afirmam que Bolsonaro antecipou o movimento de campanha e se orienta de olho nos dividendos eleitorais em 2022, principalmente entre os mais pobres, com renda inferior a dois salários mínimos, beneficiados pelo auxílio emergencial e por obras de infraestrutura.

"Ele percebeu que não dá para fazer política só com ideologia . E isso reforça o bolsonarismo com argumentos tangíveis, não apenas ideológicos. É a prestação de contas que todo governante faz que sustenta ele hoje", ressalta Jairo Pimentel, pesquisador do Centro de Estudos em Política e Economia do Setor Público (Cepesp/FGV).

A limitação é, no entanto, orçamentária. Economistas afirmam que não há espaço fiscal para manter o auxílio de R$ 600 e ainda realizar grandes obras até 2022. Caso mantenha o rigor defendido por Paulo Guedes, o presidente precisará se contentar com inaugurações como a de São Vicente (SP): uma ponte cujo aporte da União foi de apenas R$ 5 milhões.

"Sem isso (marcas sociais), é difícil para Bolsonaro manter essa aprovação . Vai enfrentar uma crise econômica seríssima e está na berlinda de investigações", ressalta Carolina Botelho, cientista política do Laboratório de Estudos Eleitorais, de Comunicação Política e Opinião Pública da Uerj. "Mas, se isso vingar, ele está feito. Está com a faca e o queijo na mão".

A estratégia de avanço sobre o lulismo , no entanto, não é garantia de sucesso, na avaliação de Jairo Pimentel. Ao crescer sobre o PT no Nordeste, Bolsonaro pode tirar seu antagonista da disputa.

"Ter um eleitorado mais parecido com PT em 2022 do que o de com 2018, realinhando o eleitorado em termos de classe social, perdendo a classe média e ganhando os mais pobres, pode ser perigoso para o Bolsonaro. Ele não pode ir com muita sede ao pote, pois pode perder o antagonismo (antipetismo) e conta com grande rejeição para um possível segundo turno", afirma.

Centrão articula a agenda

Sem partido, Bolsonaro tem confiado a articulação de sua agenda no Nordeste ao ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, e a aliados e líderes de partidos do centrão. Com aprovação em alta na região após a implementação do auxílio emergencial, o presidente passou a mirar em estados que haviam sido relegados em seu primeiro ano de mandato. Em 2018, ele teve apenas cerca de 30% dos votos do Nordeste no segundo turno.

Natural do Rio Grande do Norte, Marinho é apontado como o principal responsável pela coordenação da agenda do presidente na região. Ele, segundo aliados, convenceu Bolsonaro a focar suas visitas na inauguração de obras na região, principalmente as que envolvem distribuição de água.

Desde então, o presidente visitou obras de transposição do Rio São Francisco, no Ceará, além de intervenções de perfurações de poços no Rio Grande do Norte e uma usina de dessalinização de água. Interlocutores de Rogério Marinho afirmam que seu ministério é a “principal interface” do governo no Nordeste.

Durante a campanha eleitoral , Bolsonaro costumava fazer críticas ao centrão. Mas, desde que selou a aliança com o bloco, líderes desses partidos — como o deputado Artur Lira (PP-AL) e o senador Ciro Nogueira (PP-PI) — tornaram-se aliados de primeira hora do presidente e passaram a abrir espaço em suas bases no Nordeste para as agendas do governo .

Os dois políticos são velhos conhecidos pela Lava Jato . Lira foi denunciado sob acusação de corrupção passiva por propina de R$ 1,6 milhão da empreiteira Queiroz Galvão. Já Nogueira foi denunciado em fevereiro por corrupção passiva e lavagem de dinheiro por suposta propina de R$ 7,3 milhões da Odebrecht .

"Marinho tem levado o presidente em inaugurações de obras importantes no Nordeste nas áreas de saneamento, água e construção de moradias, áreas cujas distorções e desigualdades ficaram evidentes na pandemia", afirma Nogueira.

Lira, hoje um dos principais articuladores do governo Bolsonaro no Congresso, recepcionou Marinho no mês passado em Alagoas, seu reduto eleitoral, para a entrega de uma adutora de abastecimento de água e uma vistoria nas obras do canal do sertão. Bolsonaro não viajou porque estava com Covid-19 .

    Leia tudo sobre: Lula

    Veja Também

      Mostrar mais