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Bolsonaro
Isac Nóbrega/PR
Para "evitar problemas", Bolsonaro vai se manter longe das eleições municipais

Antes de tentar conseguir aquilo que o seu próprio nome sugere, o novo partido que está sendo montado por Jair Bolsonaro – Aliança pelo Brasil – precisa buscar a pacificação interna. Por enquanto, o que se vê é um salve-se quem puder na alucinada busca por candidaturas nas eleições municipais desse ano, com verdadeiras hostes usurpando, umas das outras, direitos e prerrogativas. Aliança mesmo, lá dentro, nenhuma.

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A legenda ainda nem nasceu verdadeiramente e já está seguindo o caminho da baderna. Isso era tudo o que Bolsonaro precisava para ajudá-lo nas justificativas de sua omissão quanto ao posicionamento político nas eleições municipais.

Ele está temeroso de ter de arcar com eventuais consequências negativas que venham atrapalhar os seus planos de reeleição em 2022, e por isso não subirá em palanques de candidatos às prefeituras, embora historicamente tais escrutínios sejam de grande importância na formação do cenário político nacional e, consequentemente, na composição de forças para a escolha do próprio presidente da República.

Bolsonaro teme derrotas, põe na roda como bode expiatório o Aliança pelo Brasil e se afasta: “Se meu partido não tiver candidato, não vou me meter em política municipal no corrente ano, e ponto final”. A arrogância do “ponto final” pode parecer que se trata de alguém que entende muito do xadrez político. Ao contrário, o seu afastamento é um equívoco de avaliação. A arrogância mostra que Bolsonaro não entende nada.

O crescimento do PT, por exemplo, começou com o partido ganhando prefeituras — e não é sem motivo, portanto, que Lula deu ordem para que a legenda lance agora candidatos no maior número de cidades possíveis. Bolsonaro, ao contrário, irá se esconder, e isso explica o seu baixo empenho em colocar de pé até mesmo o Aliança pelo Brasil.

Para concorrer, a sigla tem de conseguir, até abril, quatrocentas e noventa e duas assinaturas certificadas em cartório e esperar a aprovação do TSE. Não falta gente correndo atrás de tais assinaturas, mas é justamente nesse falso voluntarismo que está a baderna.

Líderes regionais e parlamentares empenham-se na coleta, mas em troca disso dá-lhes a veneta de já se colocarem como presidentes de diretórios e se lançarem feito candidatos em seus municípios. A deputada Bia Kicis (PSL-DF) explicou que seus pares dissidentes fizeram um acordo entre si: cada um pode se autointitular em seu estado como coordenador do Aliança pelo Brasil.

Discurso superficial

Bolsonaro sentiu a situação e dela se aproveitou: sabe que são poucas as chances de viabilizar a legenda a tempo, e não há pretexto melhor do que esse para manter-se à margem do processo, furtando-se a uma importante missão política. Mas, ainda que a sigla consiga concorrer, ele não pisará palanques, evitando arranhões em sua imagem.

Como sempre, também nessa questão prevalece a superficialidade em suas declarações: “Eu elejo um cara em uma capital, ele faz besteira e eu vou apanhar na campanha de 2022 todinha”. Como se vê, o jogo, para ele, só gira em torno da permanência no cargo.

Nessa caminhada, um dos lados mais complicados é o Rio de Janeiro. Bolsonaro terá de dizer não a Marcelo Crivella, que tentará ser reeleito, e ele é sobrinho do líder da Igreja Universal do Reino de Deus, bispo Edir Macedo — a quem o capitão nem sonha em desgostar.

Por outro ângulo, não apoiar Eduardo Paes é trombar com o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia. Finalmente, se Bolsonaro endossar alguns nomes, com certeza parlamentares que são adversários desses candidatos tentarão inviabilizar a agenda do governo no Congresso.

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Diante de tudo isso, quem conhece Bolsonaro sabe que ele prefere correr e se refugiar em casa. O capitão não é nada corajoso e tampouco é o estrategista político que diz ser. E, não resta dúvida, a melhor aliança, para o presidente, sempre é a aliança consigo próprio.

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