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Ameaçado por processo interno, Luiz Flávio Gomes não vai apresentar defesa caso o partido decida por seu desligamento

Luiz Flávio Gomes arrow-options
Vinicius Loures/Câmara dos Deputados
Luiz Flávio Gomes quer ser expulso do PSB para ter ideias independentes


"Livre para sustentar as próprias ideias, fora de qualquer partido". É dessa maneira que o deputado federal Luiz Flávio Gomes (PSB-SP) descreve suas intenções na Câmara para o atual mandato, que ele pretende completar sem estar filiado a nenhuma legenda. Ameaçado de expulsão por infidelidade ao PSB depois de ter votado à favor da reforma da Previdência no primeiro turno, o deputado não pretende apresentar uma defesa para continuar fazendo parte da sigla. A vontade dele é que aconteça um "divórcio consensual".

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 Ainda que tenha mudado o posicionamento e votado contra a reforma nosegundo turno da votação, na madrugada desta quarta-feira, seguindo a orientação do PSB , Gomes garante que continuará pleiteando a própria expulsão. Para ele, o partido tem razão em desejar que ele fique de fora dos quadros.

— O partido não tem nada a ver com os meus votos. A relação (com os colegas) é ótima, só que eu quero ser expulso por divergências programáticas. Sou independente e não vou seguir. Sei que o partido tem direito de fechar questão sobre os temas, mas considero isso um exagero. E sei que vamos divergir em outros momentos também. Então, prefiro evitar o desgaste — diz o deputado ao GLOBO nesta quarta-feira.

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Ao justificar a mudança de voto, Gomes explicou que discorda de um dos pontos a reforma: a isenção tributária sobre a produção agrícola exportada, incluída na reforma ainda durante a discussão ainda na Comissão Especial, antes do primeiro turno.

 O parlamentar acredita que as empresas do setor deveriam ter as exportações taxadas, o que não irá ocorrer como proposto inicialmente pelo governo. Para agradar ruralistas, houve recuo e fechamento de questão em relação à isenção.

De acordo com Gomes, esse teria sido o fator determinante para que sua opinião mudasse, e não o direcionamento e a ameaça de expulsão do PSB. Ele afirma, inclusive, que se for feita alguma mudança nesse trecho quando o projeto chegar ao Senado, pretende votar favoravelmente à reforma em nova passagem pela Câmara.   

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— Meu voto mudou para corrigir essa injustiça. (A isenção) Foi uma pouca vergonha discutida na calada da madrugada pela Comissão Especial. Tive uma luta inglória para que isso mudasse depois do primeiro turno, mas não aconteceu. Afeta o meu sentido ético. A JBS, maior do setor, deixa de contribuir com mais de R$ 84 bilhões por conta dessa isenção. É uma vergonha — sustenta o deputado.

Bandeiras diferentes

Questionado se a Previdência é o único ponto de discórdia que o faz desejar a própria expulsão do PSB, Gomes sustenta que as divergências com a sigla vão além do projeto e poderiam causar desgastes em outras votações.

—  O PSB prega a defesa de um segmento da sociedade: o pobre e o trabalhador. Correto, estou de acordo. Mas acredito que não podemos defender só esse segmento. Temos empresas, comércios, o agronegócio que está entrando em parafuso. Não concordo com essa setorialização e por isso prefiro sair do partido — conta o parlamentar, que diz ter optado pelo partido graças à afeição por Márcio França, candidato derrotado do PSB para o governo de São Paulo.

A intenção de Gomes é permanecer distanciado de qualquer outra legenda até o fim da legislatura, em 2022. É o caso, no momento, do deputado federal do Rio Luiz Antônio Corrêa (Sem Partido), que era filiado ao Democracia Cristã (DC), partido extinto após não ter atingido requisitos da claúsula de barreira.

Candidato mais rico

O voo planejado pelo dissidente do PSB é continuar legislando sem qualquer influência partidária e nem mesmo financeira. Isso porque Gomes, que é empresário do setor educacional, foi o candidato mais rico a concorrer na eleição de outubro passado (com R$ 119 milhões declarados à Justiça Eleitoral durante a campanha).

Desde fevereiro, ele renunciou ao salário de deputado (R$ 33.763) e tem recebido R$ 4.253 mês, valor relativo aos auxílios pago pela Câmara. As informações estão disponíveis nas folhas de pagamento da Casa.

— Não ganho nada para ser deputado, e quero defender minhas ideias sem divergências com partido. Não tenho paciência para isso. Eu me custeio, com base no patrimônio que construí vendendo cursos para alunos de todo o Brasil. Gasto meu dinheiro e quero sustentar minhas ideias. Minha expulsão do PSB será um divórcio consensual — promete Gomes.