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Ditadura militar, trabalho infantil, extermínio e até Carnaval foram temas do presidente que chocaram o País e o mundo. Reunimos e tentamos explicar cada uma delas

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Marcos Corrêa/PR
Declarações do presidente marcam governo conturbado


Passados quase oito meses desde o início do seu governo, em janeiro de 2019, o presidente Jair Bolsonaro coleciona momentos de saia-justa e declarações polêmicas. Ditadura militar, questões sociais e direitos humanos estão entre os assuntos preferidos do chefe de Estado, que frequentemente choca os menos acostumados à sua forma de fazer política. Priscila Lapa, doutora em Ciência Política e professora da Faculdade de Ciências Humanas e Aplicadas de Olinda, analisou algumas das frases mais impactantes de Jair Bolsonaro após eleito presidente da República.

“Eu não creio que as polêmicas nas quais o presidente se envolve aconteçam com o objetivo de criar uma cortina de fumaça, como alguns acusam-no de fazer. Não acredito que seja estratégia política, principalmente por não haver uma agenda muito clara de governo”, comenta a profissional. “Acredito que Bolsonaro tem uma convicção de que foi eleito por um sentimento de mudança do povo brasileiro e que, por isso, recebeu um cheque em branco que confirma seu poder de escolher o melhor a ser feito com o país, independente de diálogo com as partes”, pontua. De acordo com Priscila, esse sentimento de mudança - que marcou o processo eleitoral de 2018 - também foi responsável por “uma renovação no congresso que até então o Brasil não tinha visto”.

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"Se o presidente da OAB quiser saber como o pai desapareceu na ditadura militar, eu conto pra ele"

No último dia 29 de julho, Jair Bolsonaro voltou a evocar a memória da ditadura militar numa provocação ao presidente da Ordem dos Advogados do Brasil - OAB, Felipe Santa Cruz. Ao demonstrar insatisfação com a conclusão do caso Adélio Bispo (autor da facada desferida contra o próprio presidente durante a campanha presidencial), Bolsonaro disse saber detalhes sobre a forma como Fernando Santa Cruz, pai de Felipe, morreu. Fernando militou no movimento estudantil e desapareceu em 1974, durante a ditadura militar. Mais tarde, quando questionado sobre o assunto, o presidente da República desacreditou as informações que afirmam que Fernando Santa Cruz teria sido morto pelo regime militar, e indagou: “Você acredita em Comissão da Verdade?”.

Para a cientista Priscila Lapa, “a visão do presidente e dos seus aliados mais próximos sobre a ditadura militar é de que ela foi um fato necessário para combater o comunismo e a esquerda, os mesmos inimigos que ele enxerga até os dias atuais”. Assunto frequente entre as declarações de Bolsonaro, o período foi um momento histórico no qual, de acordo com Priscila “o presidente não acredita que tenham sido cometidos excessos e, alguns casos isolados,  foram respostas a ataques violentos das forças contrárias aos militares. Assim, para ele, comissão da verdade não era necessária, porque não houve crime”, aponta.

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"Desculpem as caneladas. Não nasci para ser presidente. Nasci para ser militar"

Leia mais: Aliado de Bolsonaro, Doria critica fala sobre presidente da OAB

Em abril deste ano, o presidente fez uma espécie de desabafo sobre o próprio envolvimento em polêmicas, em discurso no Palácio do Planalto. A declaração foi recebida de maneira negativa pela maioria da população e pela mídia, que enxergaram uma confissão de despreparo por parte do chefe de Estado.

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"Eu não posso me arrepender de ter feito xixi na cama"

Em outra situação, também questionado sobre suas declarações ao longo da vida pública, o presidente afirmou “eu não posso me arrepender de ter feito xixi na cama [quando era criança, aos 5 anos de idade]. Saiu, pô” , sobre as próprias polêmicas de anos atrás.

Para Priscila Lapa, em momentos como esse “Bolsonaro afirma a visão de que a verdadeira virtude de um homem público é combater o que ele considera como ‘maus costumes’.  Assim, não é necessário ter preparo, e sim estar imbuído dessa intenção de combater os inimigos e defender a família e os valores tradicionais”.

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"Dentre os governadores de 'paraíba' o pior é o do Maranhão"

No dia 19 de julho, durante uma conversa informal com o ministro Onyx Lorenzoni, Bolsonaro criticou os governos estaduais do Nordeste, destacando o governador do Maranhão.  A conversa foi registrada pela TV Brasil e, no mesmo dia, viralizou nas redes sociais. O presidente referiu-se ao governador Flávio Dino (PC do B), que classificou a declaração como “perseguição contra um ente da Federação”. O que gerou a maior revolta em todos os estados nordestinos, porém, foi o termo “paraíba” empregado pejorativamente pelo presidente da República. Nas eleições, Bolsonaro contou com apenas 30% dos votos na região Nordeste.

Para a cientista política Priscila Lapa, a declaração pode ter sido motivada pelo fato de que “o presidente só ocupou cargo eletivo pelo Rio de Janeiro e até então não se conectava as diversidades do país”. Para ela, o atual presidente da República passa uma imagem de quem “não crê que as diversidades devem ser valorizadas e exaltadas, e sim niveladas”. 

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"Passar fome no Brasil é uma grande mentira"

Durante um café da manhã com jornalistas de veículos estrangeiros no Palácio do Planalto, Jair Bolsonaro afirmou não haver fome no país.

Segundo ele, “Passa-se mal, não come bem. Agora passar fome, não. Você não vê gente pobre pelas ruas com o físico esquelético, como a gente vê em alguns países pelo mundo” Mais tarde, no mesmo dia, o presidente voltou a ser questionado sobre o assunto e afirmou que “alguns passam fome”.

Priscila Lapa comenta que a declaração do presidente da República sobre a fome do país está relacionada à sua visão de que “o que deve prevalecer é o mérito e a livre competição”. Por isso, Jair Bolsonaro reforça que sua medida contra a fome envolve “facilitar a vida do empreendedor, de quem quer produzir”. A profissional reforça ainda que a polêmica é embasada pela visão de que, para o presidente, “as desigualdades são frequentemente encaradas como vitimismo, portanto não devem ser prioridade do governo”. 

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"O que é golden shower?"

Em março, durante a festa mais popular do país, o presidente voltou a manifestar-se em sua conta no Twitter com um comentário contra “o que acontece” no carnaval brasileiro. Na ocasião, Bolsonaro publicou um vídeo gravado durante um bloco carnavalesco em São Paulo. O vídeo, com conteúdo considerado pornográfico, envolve uma cena na qual dois homens dançam e, em determinado momento, um urina no outro. Mais tarde, o chefe de estado indagou sobre a prática sexual e causou ainda mais reações na rede social:  “O que é Golden Shower?” . O comportamento causou críticas tanto de opositores quanto de apoiadores do presidente.

A cientista política afirma que, para além do erro grave de publicar um conteúdo proibido para menores em sua rede social oficial - o que motivou a maioria das reações negativas de seus aliados, o presidente manifestou a “tentativa de nivelar os comportamentos dos  que gostam do carnaval como se todos cometessem atos que são considerados inadequados” Para Lapa, Bolsonaro acredita que festa popular transgride os “padrões da família tradicional”, frequentemente exaltados por ele.

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"Se não puder ter filtro, nós extinguiremos a Ancine"

Em outra ocasião, Bolsonaro causou polêmica ao exigir um filtro para a Agência Nacional do Cinema (Ancine), a qual acusou de produzir conteúdos inapropriados. “ Se não puder ter filtro, nós extinguiremos a Ancine. Extinguiremos ou privatizaremos. Não pode é dinheiro público ficar sendo usado para filme pornográfico." por “filme pornográfico”, o presidente citou a produção “Bruna Surfistinha”, que narra a história da prostituta Raquel Pacheco. 

Priscila comenta que a postura do presidente, nesse episódio, mais uma vez “foi motivada pela exaltação aos valores da família, marca frequente de sua campanha e governo” e que “mais uma vez retrata a visão hegemônica do presidente, que o faz acreditar ser condutor do conceito de certo ou errado, ou agente de denúncia desse conceito”, diz.

Leia também: Para Bolsonaro, Ancine deve ser “alinhada com sentimento cristão da maioria"

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"O trabalho dignifica o homem e a mulher, não interessa a idade"

No início do mês de julho, em uma de suas tradicionais lives transmitidas pela internet, Bolsonaro sugeriu ser a favor do trabalho infantil ao afirmar que não existe uma idade correta para a atividade.

O presidente ainda disse que “quando um moleque de 9, 10 anos vai trabalhar em algum lugar, tá cheio de gente aí: 'Trabalho escravo, não sei o que, trabalho infantil'. Agora, quando tá fumando um 'paralelepípedo' de crack, ninguém fala nada. Trabalho não atrapalha a vida de ninguém".

Priscila Lapa destaca a gravidade da declaração do presidente sobre o assunto, um dos mais delicados desde o início do mandato, e afirma que, nesse caso, “predomina uma visão de mundo amparada no desconhecimento da realidade social brasileira, em toda a sua complexidade”.

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"Ela estava indo para a guerrilha do Araguaia quando foi presa"

Na mesma ocasião na qual fez comentários polêmicos sobre a fome no Brasil e sobre governadores nordestinos, Jair Bolsonaro causou reação da imprensa ao afirmar que a jornalista Miriam Leitão “não foi torturada ou atacada na ditadura”. Para o chefe de Estado, “Ela estava indo para a guerrilha do Araguaia quando foi presa. E depois conta um drama todo mentiroso, que teria sido torturada sofreu abuso. Mentira. Mentira". Miriam, que faz análises econômicas e políticas de maneira independente para o grupo O Globo, é conhecida também pelo seu ativismo durante a ditadura militar no Brasil.  

No fundo, eles morrem de saudades do PT

No dia seguinte à declaração, o presidente da República afirmou que "Não adianta a imprensa me pintar como seu inimigo. Nenhum presidente recebeu tanto jornalista no Palácio do Planalto quanto eu, mesmo que só tenham usado dessa boa vontade para distorcer minhas palavras, mudar e agir de má-fé ao invés de reproduzir a realidade dos fatos. [...] No fundo, eles morrem saudades do PT"

Para Lapa, a declaração reflete exatamente o comportamento vendido pelo presidente - e aprovada por grande parte dos seus eleitores - desde a campanha presidencial. “A mídia é tratada desde o primeiro momento como um dos inimigos da visão política que Bolsonaro representa”, comenta. “Assim, membros da imprensa têm frequentemente recebido tratamento não amistoso pelo presidente”, diz. 

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"Pergunta pras vítimas dos que morreram lá o que elas acham. Depois que elas responderem, eu respondo a vocês"

Ao ser questionado sobre o massacre que deixou 58 mortos após uma rebelião no Centro de Recuperação Regional de Altamira, no interior do Pará, Jair Bolsonaro orientou que o repórter perguntasse para "as vítimas dos que morreram lá", destacando o fato de que os envolvidos no massacre eram, em sua maioria, criminosos condenados. A tragédia, ocorrida no dia 29 de julho, foi considerada a maior chacina do ano dentro de presídios do país. 

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"Não tinha ninguém pra dar um tiro?"

Pouco mais tarde, sobre o caso em que um morador de rua esfaqueou três pessoas na Zona Sul do Rio de Janeiro, o presidente sugeriu que, caso os cidadãos andassem armados, apenas o morador de rua estaria morto. 

A professora do curso de Ciência Política afirma que as declarações podem ter sido motivadas pelo “mesmo princípio que rege o seu pensamento sobre as razões causa da violência no Brasil e as soluções para combatê-las: uma visão que privilegia o indivíduo e suas escolhas e não os aspectos contextuais” Para a profissional, o posicionamento evidencia uma  “incompreensão dos fundamentos do Estado democrático de direito”. 

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"Tudo pequenininho por aí?"

Em maio deste ano, a interação do Bolsonaro com um fã asiático mais uma vez causou polêmica por refletir uma postura desrespeitosa do presidente. Na ocasião, gravada em vídeo, um homem com traços asiáticos demonstra admiração pelo chefe de estado e pede uma foto. Ao recebê-lo de maneira brincalhona, Bolsonaro pergunta: “Tudo pequenininho por aí?” , numa referência ao órgão sexual do rapaz. 

Para Priscila, a polêmica reflete o “mesmo princípio do presidente sobre os nordestinos, que absorve clichês” A cientista afirma que essa reprodução pode ser “a raiz de um preconceito”.

Leia também: Presidente da OAB não vê quebra de decoro em declarações de Bolsonaro

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"Eu vou negar um helicóptero e mandar ir de carro?"

Após utilizar o helicóptero da Força Aérea Brasileira (FAB) para levar parentes ao casamento do filho Eduardo Bolsonaro ocorrido no mês passado, o presidente disse não ver nada de errado na atitude, a qual justificou com a necessidade de conforto da família. A minha família ia comigo. Eu vou negar o helicóptero a ir para lá e mandar ir de carro? Não gastei nada além do que já ia gastar." 

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"Pretendo beneficiar meu filho sim. [...] Se eu puder dar o filé mignon pro meu filho eu dou"

Numa situação anterior, também sobre seu contexto familiar e pessoal, o presidente confirmou que pretende beneficiar Eduardo Bolsonaro para a ocupação do cargo de embaixador do Brasil nos Estados Unidos. 

Para Priscila, as declarações também são reflexos de um valor frequentemente atribuído ao presidente, que “revelam a percepção mais tradicional da política no Brasil”. A cientista diz que, desde o início do mandato, “os limites tênues entre o que é público e o que é privado parecem um novo conceito na política do presidente, sendo ultrapassados com naturalidade”. 

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"Questão ambiental só importa aos veganos, que comem só vegetais"

No mês de julho, o presidente deu duas declarações polêmicas sobre questões ambientais, outro ponto sensível do seu governo. Ao ser indagado sobre os problemas que podem surgir com a mudança das regras na Estação Ecológica dos Tamoios, em Angra dos Reis, o presidente disse: "Questão ambiental só importa aos veganos que comem só vegetais."

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"Com toda a devastação que vocês nos acusam, a Amazônia já teria se extinguido"

Poucos dias antes, o presidente criticou o diretor do (Instituto Nacional de Pesquisas Especiais) Inpe por dados sobre o desmatamento que, de acordo com o presidente, prejudicam o nome do Brasil.  

Priscila Lapa avalia a declaração como uma “uma prevalência da liberdade econômica acima das garantias fundamentais e contextuais”, entre as quais se enquadra a necessidade de preservação ambiental.

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"Quando alguém mudar a constituição, eu falo das outras famílias"

Na última quinta-feira (1), o presidente voltou a chamar atenção da imprensa ao dizer que “Estamos com um governo que respeita a família. E para quem tem qualquer dúvida: parágrafo 3º do artigo 226 da Constituição. Vamos ler lá o que é família. Quando alguém mudar a Constituição, eu falo das outras famílias” . Bolsonaro referiu-se ao trecho da constituição que define família como um núcleo duradouro formado por homem e mulher. 

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"Brasil não pode ser o país do mundo gay. Temos famílias"

Numa situação anterior, em abril deste ano, o chefe de Estado já havia afirmado uma visão parecida ao colocar a cultura LGBT no Brasil como um elemento antagônico às famílias brasileiras. 

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"Quem quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher, fique à vontade"

Ainda do mês de abril, Jair Bolsonaro, ao falar mais uma vez sobre a imagem do Brasil no exterior, disse que: Quem quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher, fique à vontade”. A declaração causou uma reação de vários estados brasileiros, que lançaram campanhas contra a exploração sexual.

Para a cientista Priscila Lapa, o comportamento do presidente, tanto em relação às mulheres quanto à população LGBT, é mais uma manifestação dos valores hegemônicos do presidente da República, que “utiliza uma visão religiosa que legitima seu juízo de valor”. Priscila, porém pontua que “enquanto ente particular, ele tem sua liberdade de crença e expressão dessa crença como qualquer outro cidadão. No entanto, ao ocupar a posição de chefe de governo e de Estado, não pode desconsiderar as diversidades sociais na tomada de decisões”.