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Eugenia Gonzaga, que presidia comissão até manhã desta quinta-feira, disse que esperava alteração na estrutura do órgão desde a posse de Bolsonaro

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Marcos Corrêa/PR - 31.7.19
Bolsonaro trocou integrantes da Comissão de Mortos e Desaparecidos por militares e filiados ao PSL

Substituída por um advogado filiado ao PSL e assessor da ministra da Mulher e dos Direitos Humanos, Damares Alves , na presidência da Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos , a procuradora regional da República Eugênia Augusta Gonzaga disse que já esperava  alteração na composição do órgão desde a posse do presidente Jair Bolsonaro. Em nota, ela destacou que lamenta a decisão do governo, publicada nesta quinta-feira no Diário Oficial da União (DOU).

Para Eugênia, "ao que tudo indica", a sua exclusão da comissão "foi uma represália por sua postura diante dos últimos acontecimentos". Nesta semana, a procuradora criticou declarações de Bolsonaro que ironizavam a morte de um perseguido político em ataque direto ao atual presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), filho do ex-militante Fernando Santa Cruz, preso por agentes da repressão e desaparecido desde 1974.

"Lamento muito. Não por mim, pois já vinha enfrentando muitas dificuldades  para manter a atuação da CEMDP desde o início do ano, mas pelos familiares. Está nítido que a CEMDP, assim como a Comissão de Anisita, passará por medidas que visam a frustrar os objetivos para os quais foi instituída", ressaltou Eugênia, na nota.

A Comissão de Mortos e Desaparecidos do Ministério dos Direitos Humanos havia emitido, em 24 de julho,  um atestado de óbito  que contrastava com a  versão paralela  do presidente para o desaparecimento de Fernando Santa Cruz . O documento afirma que o estudante "faleceu provavelmente no dia 23 de fevereiro de 1974, no Rio de Janeiro/RJ, em razão de morte não natural, violenta, causada pelo Estado brasileiro, no contexto da perseguição sistemática e generalizada à população identificada como opositora política ao regime ditatorial de 1964 a 1985".

Em entrevista ao jornal O Globo , na segunda-feira, Eugenia Gonzaga classificou como "constrangedora" a declaração de Jair Bolsonaro de que  poderia contar ao presidente da OAB como seu pai morrera  na ditadura. Segundo ela, o que o chefe do Planalto dizia saber "é tudo o que as famílias desejam saber".

"É constrangedora [a declaração]. Não tem outra palavra. No nosso entendimento, revelação do destino dos corpos é dever de todas as autoridades especialmente da Presidência da Repúblia. O Brasil já foi condenado internacionalmente a promover a revelação desses fatos. Nós da comissão, no final do ano passado, enviamos ofício para o presidente eleito, como faríamos com qualquer presidente, reiterando esse direito dos familiares. Pedimos providências. Não houve resposta",  contou Eugenia.

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Leia abaixo a nota na íntegra:

"Desde a posse do novo presidente, imaginávamos que haveria a substituição dos membros, assim como ocorreu na Comissão de Anistia .

Provavelmente pela quantidade de frentes de trabalho decorrentes de condenações judiciais, como os casos do Araguaia e Perus, todos os membros foram mantidos. Portanto, ao que tudo indica, a substituição foi uma represália pela minha postura diante dos últimos acontecimentos.

Lamento muito. Não por mim, pois já vinha enfrentando muitas dificuldades  para manter a atuação da CEMDP desde o início do ano, mas pelos familiares. Está nítido que a CEMDP, assim como a Comissão de Anisita, passará por medidas que visam a frustrar os objetivos para os quais foi instituída"