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Procuradores afirmaram que era "impossível extrair algo" do depoimento do ex-ministro; ex-juiz da Lava Jato divulgou trechos seis dias antes da eleição

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Pedro França/Agência Senado - 19.6.19
Sergio Moro na CCJ do Senado

Mensagens de procuradores da força-tarefa da Lava Jato mostram que o ex-juiz Sergio Moro achava fraca a delação do ex-ministro Antônio Palocci , uma parte importante das acusações contra o ex-presidente Lula. As informações foram divulgadas pela Folha de S.Paulo nesta segunda-feira (29) e são parte de mais uma série de diálogos obtidos pelo site The Intercept Brasil. 

Palocci negociou a delação premiada por quase oito meses com a Procuradoria Geral da República e a força-tarefa da Lava Jato. No entanto, não conseguiu e acabou fechando o acordo com a Polícia Federal, em março do ano passado. Parte de seu depoimento foi divulgado por Moro seis dias antes do primeiro-turno das eleições presidenciais. 

Nos diálogos divulgados pelo jornal, o procurador Paulo Roberto Galvão diz a um grupo de colegas no Telegram: "Russo comentou que embora seja difícil provar ele [Palocci] é o único que quebrou a omerta petista". Russo era o apelido dado a Moro pelos procuradores. O ex-juiz também associou os petistas à omertà, que é o código de honra de mafiosos italianos. 

"Não só é difícil provar, como é impossível extrair algo da delação dele", respondeu a procuradora Laura Tessler. "O melhor é que Palocci fala até daquilo que ele acha que pode ser que talvez seja", completou Antônio Carlos Welter, principal interlocutor da força-tarefa com os advogados do ex-ministro. 

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Os vazamentos sugerem que os procuradores também tinham dúvidas sobre a validade da delação de Palocci . Em setembro, Welter informou à PGR que havia interesse na delação de Palocci, mas que as provas apresentadas por ele não eram suficientes."A colaboração dele pode ser muito útil, sobretudo porque ele esteve ou no governo ou muito próximo por cerca de 14 anos", afirmou.

"Traz aspectos interessantes, como anexos relativos a fundos de pensões, CARF [Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, do Ministério da Economia] e outros conselhos, além de BACEN [Banco Central], instituições financeiras e outros órgãos em relação aos quais temos (em Curitiba) pouca ou nenhuma informação. Os anexos ainda precisam ser melhorados, seja no que diz respeito a conteúdo, seja aos elementos de corroboração, que em alguns casos são poucos", completou Welter. 

Quatro meses depois, o procurador informou José Alfredo de Paula, da PGR , de que as negociações seriam rompidas pois não tinham "elementos de corroboração suficientes". De acordo com o The Intercept, em 18 dos 53 anexos analisados não há nenhuma referência a provas.

Após Moro divulgar parte da delação, os procuradores voltaram a criticar o acordo em um grupo do Telegram. "O que Palocci trouxe parece que está no Google", afirmou Januário Paludo. "Feito o acordo, creio que temos que tentar extrair o melhor dele e lutar para ele não receber benefícios diante da improbabilidade de que haja resultados úteis. Contudo, não me parece em uma primeira reflexão boa a estratégia de negar valor sem diligências", defendeu Deltan Dallagnol. 

Em outro momento, Deltan ironiza "deve ter muita notícia do goolge (google) lá rs". "Muitas mensagens... li rapidamente algumas...questão do acordo do Palocci: nossa ideia era não usar por enquanto, para não dar força para o acordo. O acordo é um lixo, não fala nada de bom (pior que anexos Google)", respondeu Laura Tessler. 

 A resposta de Moro e da Lava Jato

Informados sobre o conteúdo dos vazamentos, a assessoria de Moro e da força-tarefa da Lava Jato enviaram nota a Folha. "O Ministério da Justiça e Segurança Pública não comenta supostas mensagens de terceiros obtidas por meios criminosos, nas quais, em tese, haveria referência à suposta afirmação efetuada pelo então juiz", afirmou a assessoria. 

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"Muito antes das supostas mensagens, o acordo já era reconhecido como válido por instância superior do Poder Judiciário, perante a qual não atua a força-tarefa", acrescentou a força-tarefa, que disse ainda que "o material é oriundo de crime cibernético e não pode ter seu contexto e veracidade confirmados". 

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