homem de camisa verde
Seap/Divulgação
Mica foi preso em 2012

O traficante Paulo Rogério de Souza Paz, o Mica, escreveu uma carta para a mãe, em outubro do ano passado, relatando estar enfrentando problemas de saúde na penitenciária federal de Mossoró, no Rio Grande do Norte, onde estava preso. O criminoso foi encontrado morto em sua cela na manhã do último dia 12 e a suspeita é de que ele tenha cometido suicídio.

Na correspondência, à qual o EXTRA teve acesso, Mica relata que não estava tendo tratamento de saúde adequado no presídio, por isso temia não resistir à doença. Alegando ter receio de morrer, o traficante fez alguns pedidos para a mãe, entre eles seu desejo de não ser velado no Complexo da Penha, na Zona Norte do Rio, onde estão localizadas as favelas que era acusado de comandar.

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“Caso eu chegue aí sem vida, não quero ser enterrado. Vocês crema (sic) meu corpo lá no cemitério (São João Batista) em Botafogo e joguem minhas cinzas no mar. Outra coisa: eu não quero ser cremado aí”, afirmou Mica, referindo-se ao Complexo da Penha. O traficante foi enterrado no São João Batista na última quarta-feira, quando seu corpo chegou ao Rio. Um grupo de motoqueiros seguiu o carro da funerária da Penha até o cemitério.

Uma cópia da carta, na qual consta um carimbo de conferência da penitenciária, foi cedida ao jornal Extra pela família de Mica e será usada por seus advogados para entrar com um pedido na Justiça para apurar negliências ocorridas na unidade federal. Na correspondência, Mica pediu para ter um velório apenas com familiares diretos em um espaço restrito do cemitério. Ele apontou algumas pessoas de fora da família que poderiam comparecer, mas disse que não queria a presença de nenhum de seus filhos e nem das mães deles. “Espero ser respeitado com esse último pedido”, escreveu.

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Ainda na correspondência, Mica relatou à mãe que estava há dois meses com tosse seca, febre e dor nos pulmões. Ele também contou que havia perdido peso e estava irreconhecível. O traficante disse ainda que apesar do tempo que vinha se sentindo mal, ainda não tinha conseguido fazer qualquer exame, mesmo informando sobre sua situação para os setores de saúde e segurança do presídio federal, além da direção. “Vivo preocupado, pois estou com sintomas que me estão preocupando. Mas estou há 2 meses assim e não fizeram nenhum exame até agora. Inclusive pararam de me dar atenção no setor da saúde. É importante a senhora saber disso porque estão me negligenciando atendimento”, escreveu.

O advogado de Mica, Marco Aurélio Torres, afirmou ao EXTRA que vai solicitar a apuração da “falta de cuidados médicos e psiquiátricos” oferecidos ao seu cliente no presídio federal. Além disso, ele vai solicitar que seja apurado o motivo para o traficante não ter sido enviado de volta para um presídio do Rio. Como revelado pelo EXTRA na última semana, em fevereiro a Justiça Federal já havia determinado o retorno de Mica para continuar cumprindo pena no Rio, seu estado de origem, o que acabou não ocorrendo:

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“Serão feitos alguns requerimentos ao juiz federal corregedor, ao Ministério Público Federal, dentre outras autoridades, para que apurem as responsabilidades pela desídia no que tange à demora para a efetivação do retorno ao Rio de Janeiro bem como a eventual falta de cuidados médicos e psiquiátricos, circunstâncias que, com certeza, evitariam essa tragédia”, afirma o advogado.

Procurado, o Departamento Penitenciário Nacional (Depen) afirmou que Mica recebia atendimento de saúde dentro das dependências da Penitenciária Federal, realizado pela equipe de saúde daquela unidade (presídio de Mossoró), e alegou que “preza pelo irrestrito cumprimento da Lei de Execução Penal”.

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Mica foi encontrado morto em sua cela por um agente penitenciário no último dia 13, no momento em que o café da manhã seria servido. Ele tinha um lençol enrolado no pescoço e a suspeita é de que tenha cometido suicídio. Nas penitenciárias federais, o presos ficam em celas individuais, por isso Mica estava sozinho, sem a companhia de nenhum outro preso. Todas as cartas enviadas e recebidas nos presídios federais são lidas e só em seguida liberadas.


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