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Motoristas têm criado alternativas para evitar crimes

Márcio Hideo, de 34 anos, sabe exatamente quantos tiros atingiram o irmão Osmar Prado, de 36, morto ao tentar fugir de um assalto na cidade de Suzano, na Grande São Paulo. O rapaz, que trabalhava há menos de um ano como motorista de aplicativo, fechou uma corrida com duas mulheres por fora da plataforma, foi abordado por um carro, tentou fugir, mas foi alvejado quatro vezes.

“Meu irmão trocou o trabalho dele pelo de motorista . Eu acho que ele deveria ter parado [na hora da abordagem], mas acho que pelo susto que teve tentou fugir e acabou sendo atingido”, lamenta Márcio. Segundo ele, Osmar era controlador de acesso em prédios, mas viu na plataforma uma oportunidade de ter uma vida financeira melhor.

Assim como Márcio, outros parentes de cinco motoristas de aplicativos passaram pela dor da perda com os latrocínios cometidos em um curto período de 20 dias no mês de setembro de 2019. 

Elencando as estatísticas policiais do estado, Osmar tem a média da idade das vítimas de setembro. Não há uma forma “padrão” de abordagem criminal no caso: alguns foram cercados por grupos durante a corrida, outros, assaltados por terceiros no momento em que passageiros entram no carro ou indo até os clientes.

O medo de quem fica

Após sofrer com a morte do irmão, Márcio, que também é motorista, ainda não conseguiu voltar a trabalhar. “Como eu não tenho opção no momento, agora é só trabalhar de dia. Eles não estão dando segurança alguma para quem está trabalhando no aplicativo ”, garante. 

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Enquanto apontam que as plataformas não têm boa estrutura de segurança, os próprios motoristas criam técnicas improvisadas para evitar entrar nas estatísticas da violência. Nem isso é suficiente. 

No caso da morte do motorista Valter Prado, a esposa dele chegou a acompanhar a corrida e ver o momento em que a viagem foi encerrada abruptamente fora da rota. Familiares conseguiram encontrar o carro com as marcas da violência, mas o corpo dele só foi achado mais de 12 horas depois.

Quem não pode pedir para familiares acompanharem o trajeto precisa recorrer a grupos com outros motoristas e até mesmo a rádios para melhorar a segurança. Rogério Isaias da Silva, de 37 anos, criou um chat no WhatsApp para conversar com os amigos motoristas assim que entrou na profissão, há três anos. Hoje, a função do espaço é diferente.

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“Devido aos assaltos, começamos a usar o grupo como ferramenta de trabalho. Compartilhamos nossa localização em tempo real e ficamos um vigiando o outro e auxiliando na medida do possível”, explica. Sem a certeza de se voltará para casa quando sai para trabalhar, o motorista garante que já viu colegas desistirem da profissão por conta dos riscos.

Diálogo com a periferia

O presidente do Sindicato Sindicato dos Trabalhadores com Aplicativos de Transporte Terrestres Intermunicipal do Estado de São Paulo (STATTESP), Leandro da Cruz, conta que uma das maiores dificuldades identificadas pela categoria são relacionadas à comunicação com as plataformas.

Segundo ele, os motoristas que têm reivindicações ou que buscam ajuda após crimes graves encontram obstáculos . “Eles não querem nenhuma relação com o trabalhador. Tratam a gente com um distanciamento muito grande. Não respondem e-mail, não recebem documentos em mãos”, diz. 

Enquanto defendem que haja uma comissão para conversar diretamente com a empresa, os profissionais também pensam na realização de reuniões com motoristas de áreas específicas da cidade, principalmente nas regiões periféricas. 

“Quando a gente vê um morador nosso perder a vida, não é um cara que veio da elite, é um cara que é seu vizinho. Vizinho da periferia, que joga bola com você. É um motorista que vem lutando pelo seu pão de cada dia”, explica. Leandro e muitos outros motoristas garantem que, diante dos meios de transportes oferecidos à população hoje, eles são os que abrangem as maiores áreas, “seja levando senhoras para ir ao médico ou pegando os jovens nos bailes”. 

Crimes elucidados

No caso de Osmar, três jovens responsáveis pelo crime tinham assaltado outro motorista de aplicativo, cujo carro utilizaram para trancar a vítima antes de alvejá-la. Ana Karoline Martins, de 21 anos; Isaías da Silva Santos, de 18 anos e Jonatas Alves Rodrigues, também de 18, foram presos e indiciados por latrocínio, roubo de veículo e associação criminosa. A pena pode chegar a 40 anos de prisão.

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As investigações da morte de Valter Prado Filho terminaram com quatro pessoas presas: um menor de 15 anos, duas jovens, uma de 18 e outra de 19, e um jovem de 19 anos. Os três maiores de idade devem responder por latrocínio consumado, associação criminosa e corrupção de menores. O adolescente responderá por ato infracional nos crimes de latrocínio consumado e associação criminosa. 

Um menor de idade também estava envolvido na morte de Elvis Souza Leite. Com 17 anos, o rapaz assumiu o volante enquanto dois comparsas, um de 22 anos e outro de idade desconhecida, torturavam o motorista no banco de trás do carro com uma arma de choque utilizada por Elvis como proteção. Até o momento, um dos suspeitos, identificado apenas como “costela”, está foragido. O maior de idade teve prisão temporária decretada.

O suspeito de matar Márcia teve o retrato falado divulgado pela polícia. De acordo com investigações, ele aparenta ter entre 20 e 25 anos de idade e medir cerca de 1,70. Até o momento, o homem não foi encontrado. 

A polícia não divulgou informações sobre os dois suspeitos que estavam em uma moto e foram responsáveis pelo tiro que matou o motorista Marco Aurélio Roncoli no bairro de Pedreira, em São Paulo. 

Respostas

Por meio de nota, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo afirmou que reforçou policiamento nas áreas com maior incidência de casos. O órgão disse, também, que desenvolve "operações específicas em diferentes regiões para fiscalizar veículos com passageiros e aqueles que utilizam adesivos de aplicativos”.

A 99 afirmou que "tem a segurança como prioridade em sua estratégia" e que trabalha na prevenção de ocorrências, proteção de motoristas e atendimento humanizado quando necessário. Segundo a plataforma, uma série de opções são oferecidas aos motoristas, como indicar corridas em "zonas de risco" e usar inteligência artificial para vasculhar padrões de pessoas mal-intencionadas.

No caso de incidentes, a 99 garante que oferece um número de uma central de segurança disponível a qualquer momento do dia, podendo enviar um carro em ocorrências em que o veículo tenha sido levado ou bloquear perfil de motoristas se o celular for tomado em assalto.

A Uber , por sua vez, disse que tem segurança como prioridade e por causa disso “segue investindo constantemente em novas tecnologias”, apontando um recurso chamado machine learning para bloquear viagens consideradas potencialmente mais arriscadas para os funcionários.

O botão para motoristas ligarem para polícia em situações de risco também foi apontado como um ponto de segurança pela empresa. Segundo a marca, um Seguro para Acidentes Pessoais, que cobrem as viagens, pode ser acionado se necessário e um 0800 é disponibilizado aos trabalhadores para que eles entrem em contato “depois que tiverem comunicado incidentes às autoridades e estiverem em segurança”.

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