
Por cerca de 150 anos, uma lareira escondeu um segredo entre tijolos, madeira e um antigo caixote de chá. Era um livro emprestado de uma biblioteca no século 19 e nunca devolvido. O exemplar só reapareceu quando uma reforma abriu a parede da casa onde permanecera esquecido por gerações.
O volume ainda guardava o carimbo da instituição, o número usado no primeiro acervo e as regras aplicadas aos leitores daquela época. Entre elas, uma multa semanal que, acumulada durante um século e meio, chegaria ao equivalente a cerca de R$ 100 mil.
A cobrança, porém, não será feita. A biblioteca não sabe quem retirou a obra, e os registros capazes de resolver o mistério já não existem.
Uma surpresa atrás da parede
O livro foi encontrado por Ross Simmons, de 77 anos, durante uma reforma na antiga casa da família, em Kiama, cidade litorânea da Austrália. O exemplar estava dentro de um caixote de chá, fechado atrás de uma lareira emparedada.
Em entrevista à Associated Press, Simmons contou que o imóvel pertencia aos antepassados dele. A principal suspeita recai sobre o tataravô, John Simmons, imigrante inglês que vivia no local quando a biblioteca começou a funcionar.
Não há prova.
O exemplar não tem assinatura, anotação ou ficha que identifique quem fez o empréstimo. Simmons considera menos provável que os filhos de John tenham levado a obra, pois ainda eram muito jovens no período estimado.
Também não se sabe por que o livro foi colocado dentro do caixote nem por que a abertura acabou fechada. Pode ter sido uma tentativa de guardar o objeto ou simplesmente um esquecimento que atravessou a família.
Exemplar integrava primeiro acervo
Publicado em 1858, "Antiquities of Athens", ou "Antiguidades de Atenas", em tradução livre, fazia parte da coleção original da Biblioteca de Kiama.

A instituição abriu as portas em 1872, com aproximadamente 1.000 títulos. O exemplar encontrado na lareira carregava o número 506, sinal de que estava entre os primeiros colocados à disposição dos moradores.
A responsável pela biblioteca, Michelle Hudson, acredita que a obra tenha desaparecido poucos anos após a inauguração. Devoluções atrasadas não são raras, principalmente quando famílias organizam casas antigas ou encontram objetos deixados por parentes.
Um atraso de 150 anos, no entanto, surpreendeu até os funcionários.
O tempo deixou marcas. O livro apresenta danos causados pela água, mas conserva elementos que permitiram confirmar a origem, como o carimbo, a numeração e o regulamento impresso.
Regras limitavam empréstimos
As instruções preservadas na parte interna da capa mostram como funcionava uma biblioteca australiana no século 19.
Uma família só poderia retirar três volumes caso tivesse pelo menos seis integrantes considerados capazes de ler. Quem atrasasse uma devolução precisava entregar a obra e pagar a dívida antes de pegar outro título.
A multa prevista era de três pence por semana. Aplicada aos cerca de 150 anos de atraso, a cobrança alcançaria aproximadamente AU$ 28 mil, valor próximo de R$ 100 mil.
Outra norma proibia o empréstimo a pessoas que chegassem embriagadas. Hoje, a biblioteca pode retirar usuários que incomodem os demais, mas o consumo de álcool já não aparece de forma específica nas regras.
Livro ganha aposentadoria definitiva
Depois de voltar para a biblioteca, o exemplar não será colocado novamente à disposição para empréstimos.
A instituição decidiu preservá-lo na coleção dedicada à história local. A obra deverá ficar em exposição, acompanhada da história sobre o desaparecimento e a descoberta atrás da lareira.
Desta vez, ninguém poderá levá-la para casa.