Por: Marcos L Susskind
Para responder a estas perguntas faz-se necessário recordar que o Irã e Israel, até 1979, tinham excelente relação. Embora jamais revelado, acredita-se que Irã e Israel cooperavam militarmente. O Irã foi o segundo país de maioria muçulmana a reconhecer Israel. Israel teve uma delegação permanente em Teerã, o petróleo iraniano era enviado aos mercados europeus através do oleoduto Israelense Eilat-Ashkelon e empresas de construção israelenses eram ativas no Irã. Engenheiros agrícolas Israelenses remodelaram e avançaram a agricultura Iraniana.
Tudo muda radicalmente em 1979, com a chegada de Khomeini ao poder através de uma revolução - e a consequente transformação do país numa teocracia islâmica radical, anti-ocidental, inimiga frontal dos Estados Unidos e radicalmente oposta a Israel, a quem jura destruir.
As atuais revoltas no Irã se originam numa série de fatores interligados: uma inflação galopante, a fabulosa perda do poder de compra - enquanto escrevo um dólar vale 1.500.000 Rials, corrupção desenfreada, esgotamento hídrico, alto desemprego. Conjugado a tudo isso, a população não aceita o imenso desvio de verbas públicas para custear operações de grupos terroristas no Líbano, Iraque, Faixa de Gaza e Yemen. Embora as Forças Armadas sigam fiéis aos Aiatolás, isto pode mudar - e então o regime realmente passaria a correr grande risco.
Se o regime mudar, o grande beneficiário será o cidadão iraniano. O país sofre isolamento financeiro, as sanções internacionais praticamente impedem o comércio de seu mais precioso bem - o petróleo - que é vendido “às escondidas” e as sanções por inúmeros países impedem um maior desenvolvimento do país.
Cabe-nos agora analisar as vantagens de uma reaproximação do Irã com Israel e os Estados Unidos. Iniciemos pelo Irã.
O Irã ocupa uma posição estratégica no Golfo Pérsico e tem uma colossal reserva de petróleo e gás natural . Há no Irã uma população jovem e instruída, porém, em função das restrições internacionais e da coerção religiosa, o Irã sofre com a fuga de cérebros. Israel tem uma das áreas de alta tecnologia mais desenvolvidas do mundo e uma reaproximação teria grande influência na utilização desta população jovem, trazendo benefícios significativos para ambos. Esta aliança colaboraria ainda para um retorno de parte dos cérebros que abandonaram o Irã, o que contribuiria para um crescimento mais rápido.
O sistema hídrico do Irã está praticamente esgotado, os lençóis freáticos praticamente desapareceram. Já há planos para evacuar a população de Teerã por falta d'água: são cerca de 16.000.000 de pessoas. Israel é a maior detentora de conhecimentos em tecnologia para sistemas áridos, em dessalinização de água do mar e em manejo de recursos hídricos, algo desesperadamente necessário no Irã, imediatamente.
Por outro lado, uma reaproximação com os Estados Unidos poderia levar ao fim das sanções e atrair investimentos tanto para o setor petrolífero como para áreas como infraestrutura e empresas de tecnologia - o Irã já é um exportador de armas e drones em larga escala para a Rússia . O fim das sanções recolocaria o Irã no sistema bancário internacional, o que pode ajudar a estabilizar o Rial e a inflação. Capitais Americanos e tecnologia Israelense podem trazer técnicas como irrigação por gotejamento e reaproveitamento de águas servidas, em que Israel é líder mundial.
Israel também teria benefícios nesta aproximação. O primeiro e principal benefício, sem sombra de dúvida, é a redução da tensão frente aos ataques de mísseis e a ameaça de guerras, presentes desde 1979. Mais do que isso, uma reaproximação seria também um golpe significativo em dois importantes grupos terroristas, o Hezbollah no Líbano e o Hamas na Faixa de Gaza, aumentando a segurança em Israel e exigindo menos recursos para o setor de defesa, recursos estes que podem ser investidos em infraestrutura, em alta tecnologia e na excepcional medicina de Israel.
Até mesmo o Exército poderia liberar jovens, que hoje servem compulsoriamente por três longos anos na defesa da nação.
O fim dos confrontos com os Estados Unidos ajudaria ainda para uma maior segurança no mercado energético mundial. Se o Irã receber ajuda Norte Americana para sua segurança, a Europa teria maior segurança no abastecimento de petróleo e os preços se tornariam mais estáveis e a energia garantida - algo que o mundo vê com preocupação no momento em função da guerra Russo-Ucraniana e da ameaça Russa de suspender entrega de gás natural. A chamada “Rota da Seda”, uma rota comercial que leva da China e Índia para a Europa passando pelo Irã e por Israel seria reativada, causando significativa redução de frete e consequentemente, diminuição de preços tanto na Ásia como na Europa e, consequentemente, no restante do mundo.
Inúmeras empresas Norte Americanas têm seus principais centros de desenvolvimento tecnológico em Israel: Google, Microsoft, Nvidia, Amazon, Apple, Broadcom, Cisco Intel e mais outras quase 400. A livre circulação de engenheiros e programadores entre Israel e Irã pode ter aproveitamento imediato nestes centros de Pesquisa e Desenvolvimento pois o Irã dispõe de jovens altamente qualificados.
Israel e Estados Unidos têm grandes empresas de capital de risco (Venture Capital) e o Irã tem bons pesquisadores farmacêuticos. A junção destas capacidades pode levar tanto à redução de custos de produção de medicamentos como - mais importante - levar à descoberta de novos e importantes tratamentos.
Num ambiente de paz, os Estados Unidos podem fazer uso de instituições como o Eximbank para financiar e garantir capitais privados que invistam no Irã - e ainda, conseguir apoio do IDFC, onde é um parceiro importante, a fazer o mesmo.
A somatória do que relato acima permitiria um uso maior da juventude Iraniana que hoje enfrenta desemprego que é um dos combustíveis da revolta; diminuiria sensivelmente os gastos de defesa de Israel, praticamente eliminaria o terrorismo nas fronteiras Israelenses e daria aos Americanos uma presença econômica, tecnológica e de segurança que são de seu profundo interesse e transformaria a área do Oriente Médio, chamada de Levante, numa potência tecnológica e econômica e num mundo menos violento.