Homens negros e moradores de comunidades pobres são as principais vítimas da violência por armas de fogo nos EUA
Fernando Frazão/Agência Brasil
Homens negros e moradores de comunidades pobres são as principais vítimas da violência por armas de fogo nos EUA

Os EUA registraram em 2020, no primeiro ano da pandemia da Covid-19 e em meio a um tenso processo eleitoral, o maior número de mortes por armas de fogo em 25 anos, um cenário considerado pelo Centro de Prevenção e Controle de Doenças (CDC) como "um problema de saúde pública persistente e significativo".

De acordo com relatório divulgado nesta terça-feira, ocorreram 19.350 homicídios envolvendo armas de fogo no país em 2020, uma alta de quase 35% em relação aos números de 2019. Com isso, a taxa chegou a 6,1 mortes a cada grupo de 100 mil habitantes, o maior em mais de duas décadas.

O aumento ocorreu em todas as faixas etárias e gêneros, mas o estudo destaca que os homens negros não hispânicos foram as principais vítimas: ao todo, 11.904 dos assassinatos com armas de fogo ocorreram nesta parcela da população.

Em cortes sociais, o CDC aponta que os maiores aumentos ocorreram em regiões com índices elevados de pobreza, especialmente em áreas rurais, regiões que foram duramente afetadas pelos impactos econômicos e na saúde mental durante a pandemia.

"Os indicadores de estresse associados à pandemia podem ter desempenhado um papel — afirmou o especialista do programa de prevenção à violência do CDC, Tom Simons, citado pela AFP. "Também estão incluídas aí as mudanças ou problemas relacionados a serviços e à educação, isolamento social, condições econômicas, como a perda de um emprego, instabilidade dentro de casa e dificuldades para cobrir os gastos relacionados à pandemia."

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Ainda foram divulgados números relativos a suicídios cometidos com o uso de armas de fogo, 24.245, praticamente o mesmo número registrado em 2019 (+1,5%).

'Alguma coisa aconteceu'

No estudo, o CDC recomendou às autoridades de todos os níveis de governo medidas para reduzir as disparidades sociais e, com isso, o risco de violência, ao mesmo tempo em que a proteção ao indivíduo, famílias e comunidades seja fortalecida.

"Algumas ações podem ter um impacto imediato na prevenção da violência, e outros podem ser soluções de longo prazo", diz o CDC, em comunicado à imprensa. "Trabalhar com parceiros, incluindo formuladores de políticas públicas; governos locais estaduais, territoriais e tribais; agências de saúde, educação, justiça e serviço social; além de organizações comunitárias que possam ajudar a garantir que as necessidades locais sejam atendidas."

Especialistas mencionam que, em 2020, o país viu um surpreendente crescimento das vendas de armas de fogo, no momento em que a sensação de insegurança estava elevada, e quando os EUA enfrentavam intenso processo de polarização política, marcado pelos protestos contra o racismo, após a morte de George Floyd, em maio daquele ano, e pela eleição presidencial, que opôs Donald Trump e o então desafiante, Joe Biden.

Naquele ano, foram vendidas cerca de 23 milhões de armas de fogo nos EUA, com crescimento acentuado de vendas para negros e pessoas que jamais tiveram uma arma de fogo.

"Alguma coisa aconteceu com o povo americano nesses dois anos que levou a violência para um nível diferente", disse ao New York Times Chuck Wexler, diretor executivo de uma organização que estuda políticas de segurança pública, o Police Executive Research Forum. "Não sabemos o que é, mas se você falar com chefes de polícia eles vão te dizer que o que costumava ser uma pequena discussão agora passou a ser um tiroteio e um homicídio."

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