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Jon Chol Jin/Getty Images
Um relatório sobre o sistema de justiça norte-coreano pede ao regime que reconheça as violações dos direitos humanos e acabe com a tortura


Prisioneiros na Coreia do Norte são submetidos a rituais de tortura , humilhação e agressão sexual por um  sistema de justiça criminal que os considera "menos que um animal", de acordo com o primeiro relatório detalhando a brutalidade das condições de detenção pré-julgamento do país.


O Human Rights Watch [HRW], com sede nos Estados Unidos, disse que as pessoas detidas e enviadas para prisão preventiva são colocadas em celas apertadas e anti-higiênicas, forçadas a confessar e não recebem alimentação e roupas adequadas.

"Os presos, literalmente, perdem a vida por falta de comida, a menos que possam subornar os guardas para que suas famílias enviem alimentos", disse Phil Robertson, vice-diretor do HRW para a Ásia, a jornalistas nesra segunda-feira (19).

O relatório é baseado em entrevistas com 15 mulheres e homens detidos no país , bem como ex-funcionários com conhecimento do sistema de justiça criminal. Todos os entrevistados são norte-coreanos que fugiram do país depois de 2011 - ano em que seu atual líder, Kim Jong-un, assumiu o poder.

"As pessoas têm boas razões para temer prisões e detenções pré-julgamento na Coreia do Norte", disse Robertson, acrescentando que apenas suspeitos com ligações políticas ou dinheiro para subornar policiais, funcionários penitenciários e promotores têm chance de poupar a si mesmos e suas famílias.

A maioria pode esperar sofrer abusos, incluindo tortura, confissões forçadas e condições restritas e anti-higiênicas, enquanto as detidas enfrentam assédio sexual e agressão, incluindo estupro.

Os maus-tratos aos detidos foram "especialmente duros" nos estágios iniciais. "Os regulamentos dizem que não deve haver espancamentos, mas precisamos de confissões durante a investigação e nos estágios iniciais do exame preliminar", disse um ex-policial à HRW. "Então, você tem que bater neles para conseguir a confissão ".

Ex-detentos disseram que eram obrigados a ficar sentados no chão de suas celas, ajoelhados ou com as pernas cruzadas, por até 16 horas por dia , com o menor movimento levando a punições que vão desde apanhar - com as mãos, bastões ou cintos de couro - forçando-os a correr em círculos ao redor de um metro de até mil vezes.

"Se eu ou outros nos movêssemos, os guardas ordenariam que eu ou todos os companheiros de cela estendêssemos nossas mãos através das grades da cela e pisássemos neles repetidamente com suas botas", disse Park Ji-cheol, um ex-detento.

Yoon Young-cheol, outro ex-detido, contou que os suspeitos foram tratados como se "valessem menos do que um animal , e é isso que você acaba se tornando".

Yoon, que era um funcionário do governo na casa dos 30 anos quando foi preso pela polícia secreta em 2011, disse que foi espancado antes mesmo de ser interrogado e só foi informado no dia seguinte de que havia sido acusado de espionagem.

"Eles me bateram por 30 minutos , me chutaram com suas botas e me deram socos com os punhos, em todo o meu corpo", afirmou Yoon, que não foi processado pelas acusações de espionagem, mas passou cinco anos em um campo de trabalho por suposto contrabando.

Alguns dos entrevistados relataram violência sexual  em centros de detenção. Kim Sun-young, uma ex-comerciante que fugiu da Coreia do Norte cinco anos atrás, disse que foi estuprada por seu interrogador em um centro de detenção, acrescentando que outro policial a havia agredido sexualmente durante um interrogatório. Kim disse que se sentiu "impotente para resistir".

O relatório apela ao governo norte-coreano para reconhecer publicamente as violações dos direitos humanos e "acabar com a tortura endêmica e o tratamento cruel, desumano e degradante na detenção". Também exorta a Coreia do Sul, os EUA e outros países membros da Organização das Nações Unidas (ONU) a "pressionarem pública e privadamente o governo norte-coreano".

A ONU acusou a Coreia do Norte de violações "sistemáticas, generalizadas e grosseiras" dos direitos humanos, incluindo tortura, execuções extrajudiciais e administração de uma rede de gulags para prisioneiros políticos.

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