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Premier iraquiano pediu para Washington enviar uma delegação à Bagdá com o objetivo de formular um mecanismo para a saída dos militares

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Reprodução/Senior Airman Jonathan Padish
Norte-americanos não pretendem deixar a região, mesmo após pedido iraquiano

Os EUA rechaçaram o pedido do premier iraquiano, AdelAbdul Mahdi, para que enviassem uma delegação para o Iraque com o objetivo de formular um mecanismo para a saída de cerca de 5.200 soldados americanos do país. Segundo um comunicado emitido pelo Departamento de Estado, qualquer missão enviada à Bagdá discutirá apenas a "parceria estratégica" entre as duas nações no combate ao Estado Islâmico.

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"Os EUA são uma força positiva no Oriente Médio. Nossa presença militar no Iraque é para continuar o combate ao Estado Islâmico", diz a nota assinada pela porta-voz Morgan Ortagus. "É necessário, no entanto, que haja uma conversa entre os governos dos EUA  e do Iraque não só sobre segurança, mas sobre nossa parceria financeira, econômica e diplomática".

A formulação de um plano para a saída dos militares americanos foi solicitada pelo Iraque na manhã desta terça-feira, segundo um comunicado emitido por Bagdá, durante um telefonema entre Mahdi e o secretário de Estado, Mike Pompeo. O pedido condiz com uma decisão não vinculante aprovada pelo Parlamento iraquiano no dia 5, em retaliação ao ataque aéreo ordenado pelo presidente Donald Trump contra o comboio que buscava o general iraniano Qassem Soleimani no aeroporto internacional de Bagdá.

A operação, que o Iraque afirma ter violado sua soberania nacional, também matou Abu Mahdi al-Muhandis, vice-comandante das Forças de Mobilização Popular (FMP) que havia ido receber Soleimani. As FMP são uma coalizão de milícias xiitas iraquianas pró-Irã formadas em 2014 para combater o Estado Islâmico e depois incorporadas às forças de segurança do Iraque. 

A ação americana elevou as tensões entre os EUA e Irã para níveis raramente vistos desde a Revolução Iraniana de 1979 e a crise que a sucedeu, quando 52 americanos foram mantidos reféns na embaixada americana em Teerã por 444 dias, entre 1979 e 1980. Em retaliação, a Guarda Revolucionária do Irã atacou duas bases americanas no Iraque, não causando mortes. Desde então, ambos os lados deram sinais de que não pretendem realizar novas ações militares diretas.

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Ameaça de sanções

Quando o Parlamento iraquiano aprovou a retirada dos militares americanos, o presidente Donald Trump respondeu com raiva, ameaçando sancionar Bagdá e demandando reembolso pelos investimentos feitos no país ao longo das últimas duas décadas caso o Iraque insista na saída das tropas. O secretário de Defesa, Mark Esper, por sua vez, disse acreditar que o povo iraquiano e seus parlamentares ainda querem a presença americana no país, que começou há 17 anos.

Os EUA invadiram o Iraque em 2003 para derrubar Saddam Hussein, sob o falso pretexto de que ele detinha armas de destruição em massa, e oficialmente se retiraram em 2011. Durante o auge do conflito, havia 150 mil soldados americanos no país. Em 2014, no entanto, as tropas americanas retornaram ao Iraque após o Estado Islâmico tomar a cidade de Mossul e avançar em direção a Bagdá. Em outubro de 2019, havia cerca de 6 mil soldados americanos no país.

Hoje, a função dos militares americanos no Iraque é, basicamente, fornecer logística, inteligência e auxiliar na organização de apoio aéreo para os soldados iraquianos e milícias vinculadas ao Irã que encabeçavam o combate ao EI.

Apesar da decisão do governo iraquiano, a continuidade da presença não é alvo de consenso no país. As minorias sunita e curda, por exemplo, boicotaram o voto no Parlamento que aprovou a retirada dos soldados de Trump e teve apoio dos grupos políticos representativos da maioria xiita, entre eles as facções pró-Irã.

Parte dos muçulmanos xiitas, no entanto, procura se manter equidistante entre Washington e Teerã. O grande aiatolá Ali al-Sistani, principal líder religioso dos xiitas iraquianos, condenou o ataque americano e a retaliação iraniana, ambos em solo iraquiano, denunciando “violações repetidas” da soberania do Iraque. Segundo Al-Sistani, nenhuma força externa deveria decidir o futuro do Iraque.

"A utilização de métodos extremos por ambos os lados que possuem poder e influência apenas aumentará a crise e impedirá uma solução", disse um de seus porta-vozes durante a oração desta sexta-feira na cidade sagrada de Kerbala.

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Milhares de pessoas voltaram a tomar as ruas de Bagdá nesta sexta-feira pedindo a saída dos EUA e do Irã do país. As manifestações dão continuidade ao movimento violentamente reprimido que começou no dia 1º de outubro, pedindo reformas políticas e econômicas. A pressão fez com que Mahdi apresentasse sua renúncia, mas até o momento não há acordo sobre quem será seu sucessor.