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Apesar de improvável, a saída do atual presidente norte-americano poderia afetar relações comerciais e gerar 'realinhamento' na aproximação recente

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Presidência da República/ Alan Santos
Donald Trump e Jair Bolsonaro



Na última quarta-feira (18), a Câmara dos Representantes dos Estados Unidos aprovou o impeachment do presidente Donald Trump. Ele foi considerado culpado de abuso de poder e obstrução do Congresso.  O líder norte-americano ainda vai passar por votação no Senado para saber se continua na Casa Branca. Uma queda, neste momento, gera discussões não só nos EUa, mas em todos os cantos do mundo, incluindo Brasil.

"Os EUA têm relações comerciais bastante estáveis com o Brasil em diversas área. Caso fosse aprovado, existiria a possibilidade do fluxo de comércio exterior sofrer um abalo. Outra questão, de caráter ideológico, é que temos visto a nossa política externa acenando mais para essas relações desde que Bolsonaro assumiu como presidente, tornando os dois países mais próximos. Se de fato o impeachment acontece, seria preciso realinhar as coisas", afirma o professor Rodrigo Gallo, especialista em relações internacionais.

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Segundo ele, é necessário questionar se o novo presidente repetiria a mesma política externa de Trump e se atenderia as expectativas ideológicas do Brasil neste momento. Além disso, é preciso lembrar que a votação no Senado acontecerá no próximo mês de janeiro, quando os norte-americanos já estarão em ano eleitoral. Ou seja: mudaria, inclusive, o modo como a campanha seria desenhada.

"O impacto não seria apenas para esse fim de governo Trump, atingiria a eleição e o modo como esse novo presidente eleito iria estabelecer suas relações  e de como se articularia com o Brasil . Independente de quem seja, um processo de impeachment tem a tendência de gerar instabilidade. O investidor estrangeiro não sabe o que vai acontecer e isso causa uma série de problemas econômicos, como fuga de capital. É um processo que não se encerra nele, pois os efeitos continuam", afirma Gallo.

Ele explica ainda que a saída de Trump poderia ocasionar um movimento pouco usual na história da política norte-americana , acostumada a ter dois governos seguidos de cada partido: "é normal que republicanos façam dois mandatos e os democratas façam dois. O impeachment poderia levar a um desgaste do republicanismo nos EUA e existiria a possibilidade da não continuidade, mas sim a quebra para um governo democrata".

Impeachment no Senado

Apesar de ter sistema presidencialista como o Brasil, a situação do processo é diferente nos EUA . Lá, a aprovação na Câmara não garante o afastamento do presidente, faltando ainda a ratificação da decisão no Senado , algo que não deve acontecer, uma vez que a maioria é da base republicana e favorável a Trump.

“Vale lembrar que das 100 cadeiras do senado, 53 são republicanas. A oposição precisa de 67 cadeiras para aprovar o impedimento de Trump, o que torna praticamente impossível a aprovação”, afirma Jefferson Laatus, Estrategista-Chefe do Grupo Laatus.

Segundo Jefferson, mesmo a ida ao Senado, que deveria ser considerada um revés, pode ser encarada como um 'ponto positivo' para Trump: "Por incrível que pareça, esse processo tem sido positivo para ele. A popularidade dele aumentou, e a rejeição do impeachment também aumentou bastante".

A análise é confirmada por Gallo: "a votação deve resultar em uma derrota do grupo 'pró-impeachment'. É maioria qualificada também. Você precisa de 2/3 para aprovar e os Democratas estão muito longe de ter esses 2/3. Isso mostra que, muito provavelmente, Trump vai terminar o mandato".

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Já André Alírio, economista da Nova Futura Investimentos, ressalta que os senadores estão "totalmente engajados no governo" e o impeachment pode ser uma "estratégia para as eleições".

“A grande questão é que vai servir como antecipação das eleições. Embora os EUA já tenham as primárias partidárias, o impeachment vai servir para desgastar ao máximo o presidente Trump , para desgastar o candidato adversário”, finaliza.

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