Tamanho do texto

Orânia é uma vila da África do Sul onde só vivem brancos. Moradores argumentam que não se trata de racismo, mas de preservação cultural

Placa de Orânia arrow-options
Arquivo pessoal/Laura Moutinho
Placa indica o caminho para Orânia, na África do Sul

Na África do Sul o regime de segregação racial acabou há 28 anos, mas até hoje uma cidade reproduz as bases do apartheid. Criada logo após a libertação de Nelson Mandela da prisão e o fim oficial da segregação, Orânia é um lugar bem no centro da África do Sul que só aceita moradores e trabalhadores brancos sob a justificativa de preservação cultural. 

Leia também: Distrito mais negro de São Paulo é um dos mais carentes em serviços essenciais

A “cidade”, porém, é na verdade uma propriedade privada. A propriedade pertence hoje a uma empresa, a Vluytjeskraal Aandeleblok, e os moradores são acionistas desta companhia. Quem quer se mudar para Orânia precisa comprar ações, mas isso não pode ser feito por qualquer um. Os novos moradores passam por uma análise que considera questões como fidelidade ao idioma e à cultura, comprometimento em empregar apenas brancos e respeito a tradições cristãs conservadoras.

A propriedade foi adquirida por Carel Boshoff III – genro de Hendrik Verwoerd, que foi presidente do país durante parte do apartheid – em 1990 com o objetivo de se tornar um reduto de africâneres, nome dado aos descendentes e holandeses. Com a previsão de que brancos e negros poderiam passar a conviver no país, Boshoff II criou o espaço sob a justificativa de que o fim do apartheid ameaçava a cultura africâner , que precisava ser preservada.

O argumento é o mesmo usado até hoje para defender o espaço. Os atuais moradores insistem que não se trata de uma segregação racista, e sim de uma valorização da própria cultura. A vila, porém, é repleta de bandeiras do apartheid e monumentos em homenagem aos arquitetos da segregação. 

“Muitos moradores vieram para cá por compartilharem a nossa filosofia de preservar a cultura africâner e, especialmente, porque perderam seus empregos com o fim do apartheid”, disse John Strydom, porta-voz da cidade, em entrevista ao Por dentro da África .

Para a antropóloga e pesquisadora da USP Laura Moutinho, tal argumento não se justifica. “Não se trata de preservar a própria cultura. É um argumento absolutamente inaceitável, sobretudo em um país onde foi exatamente em cima desse argumento que por 50 anos eles criaram e viveram esse sistema profundamente desigual, profundamente desumano”, diz.

Como é viver em Orânia

Cerca de 1.700 pessoas vivem atualmente em Orânia e a população vem aumentando. Nos últimos anos, o crescimento foi de cerca de 10% ao mês, segundo apuração do jornal The Guardian . Orânia tem uma área de 8 mil hectares e conta com duas escolas, cada uma de uma linha pedagógica. 

O lugar funciona como algo similar a uma cidade-Estado. Lá há uma moeda própria chamada ORA. Ela circula desde 2004 e tem o mesmo valor do rand, a moeda sul-africana. A economia local se baseia principalmente no cultivo de noz-pecã, que é comprada pela China e na zona industrial com fábricas de alumínio e tijolos. Estes produtos são vendidos na própria África do Sul

Oficialmente a entrada de não-brancos em Orânia não é proibida. Essas pessoas, no entanto, costumam ter medo de entrar no local por temerem possíveis hostilizações.

Leia também: Comunismo matou mais que nazismo? Historiador explica e desestimula comparação

Qual é o peso de Orânica na África do Sul

Laura Moutinho estuda as relações raciais na África do Sul e no Brasil e visita o país africano há mais de 20 anos. Quando conversou com a reportagem do iG , a antropóloga estava lá desenvolvendo sua pesquisa. Ela explica que pouco se fala sobre Orânia no cotidiano e a “cidade” raramente é lembrada no debate público. “Eu não vejo as pessoas falarem sobre eles, não vejo praticamente nada nos jornais, não vejo uma conversa a respeito. São em parte tratados como ‘aqueles malucos ali’, mas com atenção, um certo receio político”, relata.

O receio, ela explica, vem da memória de um passado não tão distante. “Como um grupo assim já governou o país, também acho que, ainda que não explicitamente, há alguma atenção para se haveria ou não algum tipo de crescimento”. 

Em 1995, Nelson Mandela , então presidente da África do Sul, visitou o local. Ele tomou chá com Betsie Verwoerd, viúva do criador da vila, em um gesto que foi visto como um ato de conciliação. 

Existência questionada

Ainda que em geral chame pouca atenção, a existência de Orânia já foi questionada diversas vezes ao longo dos anos. Os argumentos em torno de quem critica a permanência do local giram em torno do fato de que Orânia vai contra os esforços de integração que vem sendo feitos desde o fim do apartheid. 

Por outro lado, quem vive na vila defende que o governo pós-apartheid admite o conceito de “Estado africâner” em sua Constituição. Eles se apoiam na liberdade de autodeterminação com bases culturais e linguísticas. Em 2000, os moradores venceram uma batalha judicial no Tribunal Supremo, que autorizou Orânia a continuar existindo.

Leia também: Brasil tem mais de 300 células nazistas em funcionamento, aponta pesquisa

Laura Moutinho relembra que Orânia não é o principal problema da África do Sul pós-apartheid e apesar de ver com receio a manutenção de um local de segregação, ela não o enxerga como uma grande ameaça. “Há tanta coisa a ser enfrentada, há um legado tão terrível do apartheid que a democracia ainda não conseguiu resolver”, disse. “O país não foca nisso. Ele foca na possibilidade de convivência de grupos distintos. É a nação do arco-íris que hoje tenta viver e criar uma democracia apesar do legado terrível do apartheid”, completa.