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Exumação, iniciativa mais simbólica do governo de Pedro Sánchez, atrai a atenção de milhões de pessoas pelo mundo e desperta a nostalgia de algumas

Vale dos Caídos arrow-options
Arquivo pessoal/Felipe Barbosa
Múmia do ditador Franco foi retirado do Vale dos Caídos, monumento histórico espanhol

Uma cerimônia que durou cerca de duas horas colocou fim a uma anomalia de mais de 40 anos na Espanha. Único ditador do século XX enterrado num monumento nacional na Europa ocidental, Francisco Franco é exumado na manhã desta quinta-feira (24) no Vale dos Caídos , uma basílica ao Norte de Madri que ele mandou construir para receber as ossadas de milhares de mortos na Guerra Civil e que, desde sua morte, em 1975, também abriga a sua tumba, em pleno altar-mor.

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Diante de 22 parentes e de dois ministros como testemunhas — além dos olhos de boa parte do mundo na transmissão ao vivo pela TV —, o corpo do ditador foi embalsamado e depois transferido de helicóptero para o mausoléu da família Franco num cemitério comum na capital, a 35 quilômetros de distância.

Cumpre-se, assim, a primeira promessa, ainda em junho do ano passado, do premier interino Pedro Sánchez (Partido Socialista), que substituiu Mariano Rajoy após um voto de censura no Parlamento derrubar o ex-primeiro-ministro conservador. A decisão mais simbólica de Sánchez teve de ser várias vezes adiada pela batalha jurídica de 16 meses travada entre o governo e os herdeiros do ditador, que recorreram às mais altas instâncias do poder judiciário alegando profanação de sepultura e exigindo, entre outras coisas, um enterro com honras de Estado e o direito de levar o corpo para a Catedral da Almudena, ao lado do Palácio Real, no Centro de Madri.

Definitivamente derrotados em todas as suas demandas, e sem possibilidade de apelação, no último dia 17 de outubro, os Franco tiveram consolo, ao menos, ao encontrar o inquebrantável apoio do prior beneditino da basílica, Santiago Cantera (ele mesmo parte na ação contra o Estado), do partido Vox ( extrema direita ) e de uma parcela silenciosa da população espanhola que, cada vez mais desenvolta, reivindica o governo autocrático do general. Gente como as cerca de 250 pessoas, segundo a polícia, que atenderam ao chamado da Fundação Francisco Franco e se concentram na porta do cemitério para protestar.

"Venho render homenagem ao Caudilho de Espanha como católica que sou. Isto é uma profanação. Sánchez é um assassino e um traidor. Não se faz isso a um morto, menos ainda a quem salvou a Espanha dos comunistas", disse Carmen Madrigal, que, como diversos outros presentes, porta uma bandeira do país.

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Vestido com o uniforme da legião espanhola franquista, tropa de defesa do leal ao regime ditatorial do general, Ignacio Menéndez criticou duramente o governo e a justiça:

"Todo legionário deveria estar aqui hoje para mostrar que essa covardia não tem o nosso apoio. Ordens se cumprem, mas não uma injusta como essa. Não se fez justiça, fez-se vingança. Os derrotados na Guerra Civil só conseguiram derrubar Franco morto", afirmou.

Bandeiras pré-constitucionais, as mesmas usadas no período franquista, além de símbolos da Falange Espanhola, partido fascista que inspirou o golpe de estado perpetrado por Franco, também são vistos. Manifestantes gritam a todo o momento coisas como “Sánchez maricón” e ”Viva Franco”, entre saudações fascistas com o braço erguido. Apesar da presença de alguns jovens, a maioria dos que protestam são idosos.

"O comunismo e o socialismo só trazem mortes, guerra e miséria. Tenho 73 anos. Vi a Espanha gloriosa sob Franco e me assusto com toda essa decadência de hoje", afirmou Juan Manuel Saenz, aposentado que vive na serra de Madri, a pouco mais de 50 quilômetros de distância do cemitério, e acordou cedo para dar sua “última homenagem ao maior espanhol de todos os tempos”.

De ainda mais longe veio o padre Marius Visovan. Morador de um pequeno vilarejo do norte da Romênia, viajou à Espanha expressamente para “honrar a memória de Franco”.

"Sou do Leste da Europa, conheço em primeira pessoa os horrores do comunismo, um regime que matou milhões de pessoas. Aqui na Espanha foram mais de quatro mil sacerdotes assassinados e mais de mil igrejas queimadas e saqueadas pelos comunistas durante a Guerra Civil. Franco salvou este país", opinou o religioso, que criticou o Vaticano por ter autorizado a exumação no Vale dos Caídos, em cujo altar-mor continuará, ao menos por ora, José Antonio Primo de Rivera, fundador da Falange e ali enterrado por ordem de Franco. "(A exumação) é uma decisão incompreensível. Em seu momento, a igreja o ungiu como um grande católico. Agora lhe vira as costas. Do céu, Franco nos abençoa e se apieda de nós", salientou.

A exemplo dos outros manifestantes, ele só poderá ver de longe como o corpo chegará de helicóptero e será transferido imediatamente ao mausoléu da família. A operação, que custoa € 66 mil aos cofres públicos, tem sido alvo de críticas não só da extrema direita, mas também de algumas formações de esquerda, como o Unidas Podemos. Para seu líder, Pablo Iglesias, “inimigo íntimo” de Sánchez com quem, caso vença a eleição de 10 de novembro, o premier terá que buscar um pacto de governo para ter a maioria no Congresso, a remoção é necessária mas o momento, inadequado. Segundo ele, a iniciativa, a 17 dias do pleito, “cheira a propaganda eleitoral”.

Divisão política

Em meio a uma sangria de votos à esquerda revelada pelas pesquisas e atribuída por analistas políticos tanto à sua inabilidade para formar governo como à resposta quase que exclusivamente policial à eclosão das manifestações independentistas da semana passada na Catalunha, Sánchez estaria, na opinião de Iglesias, jogando para seu público. Nada que incomode ativistas que defendem há muito uma ação mais enérgica do governo para completar a Lei de Memória Histórica, editada em 2007 no governo do também socialista José Luis Rodríguez Zapatero com a finalidade de reparar crimes do regime de quase quatro décadas de Franco.

A Guerra Civil que o ditador iniciou contra a então república espanhola acabou com a vida de mais de 500 mil pessoas e deixou 100 mil desaparecidos no lado republicano, a maioria, segundo historiadores, executada e enterrada em valas comuns ou à beira de estradas. Até hoje, dezenas de milhares de famílias esperam pelo direito de enterrá-los.

"Parece que o que se está fazendo hoje é algo fácil e simples, mas não é. Foi preciso que a democracia espanhola evoluísse muito para chegarmos a este dia. Felicito o governo (Sánchez)", disse Zapatero.

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Pioneiro na localização e na exumação de um parente (um avô) vítima do bando franquista na Guerra Civil, Emilio Silva, presidente da Associação Para a Recuperação da Memória Histórica, também celebrou.

"É um dia muito importante para a sociedade espanhola. Por fim, se faz uma intervenção democrática em um lugar que, quarenta e tantos anos depois da morte de um ditador, continuou a ser um feudo seu, um lugar onde ainda há 33 mil pessoas (dos dois lados da guerra e enterradas anonimamente) invisibilizadas", descreveu em entrevista ao jornal O Globo .

"O poder da família Franco é lamentável. Conseguiram lutar “de tu a tu” com o governo. Se consideram ainda os donos da Espanha. Então, neste sentido, a exumação ajuda a acabar
com esse imaginário. E que eles aceitem, como todos nós, que há um poder que está acima e no qual depositamos a soberania, que é o Estado democrático", salientou Silva.