Protestos tomaram as ruas do Equador por crise iniciada há 12 dias
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Protestos tomaram as ruas do Equador por crise iniciada há 12 dias

O movimento indígena e o governo de  Lenín Moreno  iniciaram negociações neste domingo no Equador para tentar resolver a violenta crise iniciada há 12 dias a partir de ajustes econômicos acordados com o FMI . O encontro foi facilitado pelas Nações Unidas e pela Igreja e estava marcado para começar às 15h locais (17h de Brasília), mas acabou atrasado por “dificuldades operacionais”, segundo a ONU .

No sábado, os protestos contra as medidas na capital foram os mais violentos e caóticos até aqui, o que levou o governo a decretar toque de recolher e a convocar as Forças Armadas para conter os os manifestantes. 

O prédio da Controladoria foi incendiado por homens encapuzados e dezenas de ruas foram tomadas por barricadas em chamas. Um policial foi atingido por um coquetel molotov e teve o corpo tomado por fogo, sendo rapidamente socorrido por colegas. Há manifestantes que usam escudos de ferro e outros que empregam artefatos explosivos caseiros, incluindo formas precárias de artilharia.

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Manifestantes e organizações internacionais de direitos humanos, enquanto isso, denunciam ações brutais por parte da polícia, e circulam em redes sociais fotos de manifestantes, incluindo mulheres adultas, cegos por balas de borracha. Grandes quantidades de gás lacrimogêneo também foram lançadas.

Na manhã deste domingo, enquanto ainda vigorava o toque de recolher, manifestantes voltaram às ruas e acenderam fogueiras, cobrindo muitas ruas de Quito com fumaça. À fumaça das fogueiras e aos escombros se somou o gás lacrimogêneo lançado pela polícia para dispersar os manifestantes. Mais de 60 ruas foram fechadas, informou a prefeitura, sem dar mais detalhes.

O transporte público em Quito manteve-se suspenso durante todo o domingo e o aeroporto abriu apenas para pousos. Escombros começaram a ser retirados pela empresa municipal de limpeza pública, com a ajuda dos militares.

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Ainda assim, os confrontos não foram tão violentos quanto na véspera e, no final da manhã, autoridades suspenderam a proibição para circular até as 20h.

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A Confederação das Nacionalidades Indígenas do Equador (Conaie), que lidera as mobilizações contra ajustes do governo, tem mantido distância dos protestos violentos e se mostrou disposta a conversar com o presidente Moreno no sábado, embora tenha alertado que continuará na rua até chegar a um acordo. Em um comunicado, o grupo afirmou que o seu objetivo é "evitar um banho de sangue" e "redirecionar a política econômica do país".

Moreno governa o Equador desde 2017. O país enfrenta um sério déficit público e, para combatê-lo, o presidente firmou um empréstimo de US$ 4,2 bilhões com o FMI. O governo anunciou uma série de reformas trabalhistas e fiscais há 12 dias, incluindo o fim de subsídios estatais aos combustíveis que estavam em vigor há 40 anos. A gasolina e o diesel aumentaram imediatamente em razão disso, chegando a subir 123%.

Em comunicado na televisão no sábado, Moreno  atribuiu a responsabilidade dos protestos a "forças das trevas ligadas ao crime político organizado e dirigidas por [Rafael] Correa e [Nicolás] Maduro, em cumplicidade com narcoterrorismo, gangues e violentos cidadãos estrangeiros".

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"Hoje eles queimaram o prédio da Controladoria para destruir evidências da  corrupção do governo anterior", disse ele, sem apresentar evidências.

O ex-presidente Rafael Correa negou repetidamente estar por trás das mobilizações, mas, mesmo assim, os apoiou abertamente e pediu novas eleições. Hoje ele é acusado em diversos processos judiciais no Equador, com várias ordens de prisão contra si, e mora na Bélgica.

Muitas comunidades indígenas tiveram confrontos com ex-presidente por anos e, na sexta-feira, a Conaie passou a chamá-lo de "infeliz" e acusá-lo de "oportunismo descarado", por querer obter vantagens políticas a partir dos protestos. "O correísmo nos criminalizou e matou colegas por 10 anos", denunciou a organização em um comunicado.

A confederação indígena diz que permanecerá em Quito até conseguir um acordo relacionado aos combustíveis, e mostrou-se aberta a uma ajuda que inclua um percentual menor. Os indígenas, que representam 25% dos 17,3 milhões de equatorianos, são o setor mais castigado pela pobreza e trabalham sobretudo no campo.

Desde que as manifestações começaram, foram registrados sete mortos, 1.340 feridos e 1.152 detidos, segundo o balanço mais recente da Defensoria do Povo. O protesto, que começou em 2 de outubro, também mantém interrompido o transporte de petróleo,  maior fonte de divisas equatoriana,  pelo principal oleoduto do país, devido à ocupação de poços na Amazônia.

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