Crise enfrentada por Erdogan teve impacto direto no número de apoiadores do partido
Anadolu Agency
Crise enfrentada por Erdogan teve impacto direto no número de apoiadores do partido

O partido do presidente da Turquia , Recep Tayyip Erdogan , do Partido da Justiça e Desenvolvimento (AK, “Adalet ve Kalkınma”, em turco), perdeu 840 mil filiados no último ano, em um reflexo da crise e das derrotas políticas enfrentadas pelo líder turco.

Um dos sinais dessa perda de apoio ficou evidente nas eleições locais de março, quando o partido foi derrotado em grandes centros como Izmir e na capital, Ancara . Erdogan também perdeu em Istambul , mas ele contestou o resultado e acabou forçando uma segunda votação em junho, quando foi novamente derrotado.

Depois da derrota, nomes que estiveram no alto escalão dos governos de Erdogan anunciaram que iam formar suas próprias siglas. O primeiro foi o ex-ministro da Economia, Ali Babacan , dizendo que o momento era para uma “nova visão para a Turquia”. Mais recentemente, o ex-premier Ahmet Davutoglu , uma das pessoas mais próximas ao presidente, também anunciou sua própria sigla, alegando que Erdogan havia perdido a capacidade de resolver os problemas do país.

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O maior desses problemas é a economia. Depois de anos de bonança, com crescimento elevado e grandes volumes de investimento estrangeiro, a Turquia se viu, no ano passado, em meio a uma grave crise cambial, que fez a lira perder valor rapidamente. Com isso, a inflação disparou e a dívida das empresas, muitas contratadas em moeda estrangeira, explodiu. No último trimestre de 2018, a economia teve contração de 3% , e a previsão média para 2019 é de recessão de 0,3% .

A política de enfrentamento adotada diante dos EUA, explicitada em casos como o do sistema de defesa aérea russo S-400 e dos caças F-35, também é alvo de críticas.

Partido centralizado

Apesar da próxima eleição geral ser apenas em 2023, analistas e seus ex-partidários veem sinais de que os 16 anos de Erdogan no poder podem estar chegando ao fim. Alguns dizem que ele perdeu contato com a população, e que a sigla, antes conhecida por consultar suas bases, está se tornando cada vez mais centralizada.

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"Ele [Erdogan] está cada vez mais desconectado do conhecimento e competência dentro do partido, se rodeando, cada vez mais, de pessoas que só dizem sim", diz Gareth Jenkins , do Instituto para Políticas de Segurança e Desenvolvimento, na Suécia.

Outro ponto é o apelo aos nacionalistas, uma das bases do AK. Com as novas siglas, algumas delas com ideias parecidas, esse apoio pode se diluir, representando uma ameaça real.

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A popularidade de Erdogan nos últimos sete anos vem em uma tendência de declínio, sendo artificialmente impulsionada por eventos específicos, até o ponto em que essa tendência parece ser irreversível", afirma Jenkins.

Criado em 2001, o AK se apresentou como um partido pautado pela ideia de uma Turquia moderna, aliada à defesa de um islã moderado e uma visão positiva do livre mercado, o que lhe rendeu um grande apoio popular.

Com o tempo, foi se tornando a plataforma para Erdogan continuar no poder, passando por um polêmico referendo, em 2017, que transformou o país em uma república presidencialista , abandonando o modelo parlamentarista e dando amplos poderes ao chefe do Executivo.

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Hoje, o AK possui 9,87 milhões de filiados, além de 291 cadeiras no Parlamento — um número que não foi alterado mesmo com as saídas de antigos nomes da cúpula da sigla. Por sinal, o partido não se mostra preocupado com os números e anúncios. Segundo um representante do alto escalão, o partido “é poderoso e vai superar esse período”.

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