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O primeiro-ministro Li Keqiang é o funcionário mais sênior do governo da China a comentar sobre a crise desde que os protestos começaram

Protesto em Hong Kong arrow-options
Reprodução/Twitter/Ainslie Cruickshank
Cidadãos têm se manifestado há meses em Hong Kong

O primeiro-ministro chinês Li Keqiang disse nesta quarta-feira (4) que Pequim apoia os esforços do governo de Hong Kong "para acabar com a violência e o caos" causados pelos protestos que tomam as ruas do território desde o início de junho. Li, o funcionário mais sênior do Partido Comunista a falar sobre a crise política no território, fez o comentário durante uma entrevista coletiva ao lado da chanceler federal alemã, Angela Merkel , no encontro de um comitê econômico sino-alemão.

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Segundo Li, a China apoia Hong Kong para "acabar com a violência e com o caos de acordo com a lei, em retorno da ordem, que garante, a longo termo, a prosperidade e a estabilidade do ex-território". O premier disse ainda que o mundo "precisa acreditar que o povo chinês tem a habilidade e a sabedoria para lidar bem com suas próprias questões", reforçando a posição oficial de Pequim de que a crise na ex-colônia britânica é um assunto doméstico.

"O governo chinês firmemente salvaguarda o modelo 'um país, dois sistemas' [que garante autonomia política, administrativa e judicial ao território] e 1o povo de Hong Kong governando o povo de Hong Kong'", disse Li, segundo a agência Reuters .

Merkel, por sua vez, disse que ressaltou durante sua visita a Pequim a necessidade de garantir que "os direitos e liberdades dos cidadãos de Hong Kong" sejam respeitados. De acordo com a líder alemã, a violência deve ser evitada e apenas o diálogo funcionará — espaço que o governo local dá sinais de estar disposto a criar, disse a chanceler federal.

Os comentários de Li foram realizados dois dias após Carrie Lam, chefe do Executivo do território, anunciar o cancelamento projeto de lei de extradição que deu início aos protestos há cerca de três meses, uma das demandas dos manifestantes. A medida, que já havia sido suspensa no dia 15 de junho, permitiria a extradição para a China continental, onde a Justiça responde diretamente ao PC chinês — algo que críticos temiam que fosse utilizado para fins políticos.

Temendo que a legislação fosse ressuscitada, os manifestantes afirmaram que abandonariam os protestos apenas quando a medida fosse cancelada. Quando o governo decidiu endereçar o pedido, entretanto, já era tarde demais.

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Novas demandas

Com a escalada dos episódios de violência e dos desafios à soberania chinesa, o movimento ganhou quatro novas demandas que vinculam ao fim dos protestos . Elas são: a realização de um inquérito independente sobre a violência policial, a libertação de todos os detidos durante os atos, que os protestos não fossem caracterizados como "motins" (algo que, segundo a lei local, deixaria os manifestantes sujeitos a 10 anos de prisão) e que sejam realizadas eleições diretas para o cargo de chefe do Executivo, hoje eleito por uma comissão de 1.200 pessoas majoritariamente favoráveis a Pequim.

A declaração de apoio do premier chinês é particularmente relevante em meio a relatos que vieram à tona na semana passada de que o governo de Hong Kong teria enviado a Pequim, em julho, uma proposta para endereçar algumas das demandas dos manifestantes, como o cancelamento da lei, mas que isso teria sido rejeitado por autoridades chinesas. Alguns dias depois, também veio a público uma fala que Lam realizou durante durante uma reunião fechada com empresários, em que disse que se demitiria se pudesse e que se via de mãos atadas ao ter que, constitucionalmente, servir a dois senhores: Pequim e o povo de Hong Kong.

Os comentários feitos hoje por Li, a autoridade chinesa mais alta a falar sobre o assunto, para um esfriamento do discurso de Pequim. Desde que a crise política em Hong Kong tornou-se o maior desafio interno à autoridade de Pequim desde o Massacre da Praça da Paz Celestial, em 1989, o governo chinês vinha endurecendo sua retórica em relação aos manifestantes, chegando a classificar alguns deles como "terroristas" e ameaçando utilizar o Exército Popular da Libertação para contê-los.

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Nesta sexta-feira, Lam disse que o cancelamento da lei de extradição foi apenas "o primeiro passo" e que uma solução não virá rapidamente. Com novos protestos marcados para o final de semana, a crise política, de fato, não parece dar sinais de acabar.