Tamanho do texto

Presidente credita onda de crimes a grupos criminosos, e tenta mostrar ação aos demais países africanos; Nigéria retirou representante na África do Sul

Presidente da África do Sul%2C Cyril Ramaphosa arrow-options
Reprodução/Twitter/PresidencyZA
Presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, disse que país vai agir após dez pessoas morrerem em ataques xenofóbicos

O governo da África do Sul prometeu agir para conter uma onda de xenofobia contra estrangeiros que já deixou dez mortos e provoca uma crise diplomática com outros países africanos.

Leia também: Menino sofre acidente em pula-pula e fica com mola cravada nas costas

Os ataques começaram na semana passada, quando multidões atacaram lojas, casas e veículos de estrangeiros em várias cidades. Centenas de pessoas precisaram buscar abrigo em
igrejas, mesquitas e delegacias. Alguns chegaram a fugir da África do Sul , enquanto viam seus negócios serem destruídos. Imigrantes também foram agredidos nas ruas, aos gritos
de "voltem para suas casas".

As autoridades não revelaram as nacionalidades das vítimas. Na origem da violência está um movimento liderado por caminhoneiros que não aceitam a contratação de motoristas de
outros países, alegando que estão “roubando seus empregos”.

O argumento acabou ganhando adeptos em outros setores da economia, com muitos creditando a alta taxa de desemprego, hoje em torno de 29%, e a crise econômica ao que consideram ser um “excesso de estrangeiros”.

Segundo os números oficiais, há 3,6 milhões de imigrantes na África do Sul, cuja população total é de 56 milhões de pessoas.

Ao falar da violência, o presidente Cyril Ramaphosa disse que o país está “traumatizado e perturbado pelos atos de violência contra estrangeiros e nossos próprios cidadãos”. Ele
ainda disse que os ataques são de responsabilidade de “grupos criminosos”, sem mencionar diretamente a palavra “xenofobia”, e anunciou mais de 400 prisões de pessoas acusadas de
vandalismo e agressões.

Contudo, a chanceler Naledi Pandor reconheceu que alguns dos incidentes estão diretamente ligados ao que ela chamou de “ afrofobia ”, um ressentimento em relação a pessoas de
outros países do continente. "Estão focando em africanos de outras regiões do continente, não podemos negar isso", afirmou.

Leia também: "Ditador vestido de democrata", diz presidente do Senado chileno sobre Bolsonaro

Impacto internacional

Os atos de violência coincidem com um encontro do Fórum Econômico Mundial na Cidade do Cabo, um evento que deveria servir para ressaltar as capacidades daquela que é a mais
próspera economia da África subsaariana , mas que enfrenta problemas para retomar o caminho do crescimento. Mas, diante dos ataques, alguns dos convidados cancelaram suas
participações, incluindo os presidentes de Ruanda e Malawi. A maior parte das desistências veio de nigerianos.

Um deles, Jim Ovia, presidente de um dos maiores bancos da Nigéria e da África, o Zenith Bank, foi um dos primeiros a anunciar sua ausência, citando as questões “envolvendo as
vidas e o bem-estar dos nigerianos” no país. O vice-presidente da Nigéria também boicotou o evento, anunciando, em seguida, o retorno de seu alto comissário na África do Sul. Uma empresa aérea, a Air Peace Airlines , chegou a oferecer voos gratuitos para nigerianos interessados em voltar para casa.

Até o momento não há relatos sobre ataques diretos a cidadãos do país, mas a Nigéria é tradicionalmente crítica a atos de xenofobia na África do Sul. Em 2015, durante uma outra
série de ataques, o embaixador em Pretória foi chamado de volta por conta do que o governo chamou de "falta de ação" das autoridades locais.

Além das reações oficiais, houve protestos diante de companhias sul-africanas em várias cidades de outros países, com atos de vandalismo em Lagos, centro financeiro do país.
Algumas dessas empresas, como a telefônica MTN, fecharam temporariamente suas lojas. As representações consulares da África do Sul na Nigéria também foram fechadas como medida
de segurança.

Manifestações ocorreram ainda na República Popular do Congo e em Zâmbia. Duas partidas amistosas da seleção sul-africana, contra Zâmbia e Madagascar, foram canceladas depois que
os outros times se recusaram a jogar. A principal companhia aérea da Tanzânia suspendeu todos seus voos para Joanesburgo. O governo de Zâmbia pediu aos motoristas de caminhão
que evitem viagens para a África do Sul. Já o governo da Etiópia, que denunciou ataques contra cidadãos de seu país, pediu "medidas robustas" para conter a onda de violência.

O secretário-geral da ONU, Antônio Guterres disse, através de seu porta-voz, que "condena os atos de violência vistos em várias províncias da África do Sul" e pediu que os líderes políticos "rejeitem clara e objetivamente o uso da violência".

Leia também: Americana é presa tentando contrabandear bebê de 6 dias dentro de uma pochete

Atos de xenofobia contra imigrantes na África do Sul não são novidade. Em 2008, 60 pessoas, na maioria estrangeiras, foram mortas em mais de 110 ataques. Os dados são da Xenowatch, uma ferramenta criada para monitorar incidentes contra estrangeiros no país. Em média, são registrados entre 50 e 60 ataques por ano — até agora, segundo o Xenowatch, ocorreram 40, especialmente em Joanesburgo e Durban.