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Partido Democrático e Movimento Cinco Estrelas mantêm diálogo e impõem condições para formar coalizão de centro-esquerda

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Reprodução/Instagram
Sergio Mattarella, presidente da Itália


ROMA - Os partidos políticos daItália, onde a coalizão do governo foi desfeita após um rompimento da ultradireitista Liga, de MatteoSalvini, com o movimento populista moderado Movimento 5 Estrelas (M5S), ganharam pelo menos até terça-feira para chegar a um acordo no Parlamento e formar um novo governo, evitando que opresidente do país, Sergio Mattarella,convoque novas eleições.

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Falando a repórteres, Mattarella disse que estenderia o prazo inicial de dois dias, que se esgotaria nesta quinta-feira, para a formação de um novo governo, com a justificativa de que a dissolução do Parlamento, cujos mandatos devem durar até 2021, “não deve ser tomada de forma irrefletida”.

"Houve uma ruptura controversa entre os dois partidos que compunham a velha maioria. A crise deve ser resolvida rapidamente. Sem uma maioria sólida, o caminho é o da votação, mas este é um caminho que não pode ser percorrido de forma irrefletida. Alguns partidos políticos iniciaram negociações para um acordo. Farei novas reuniões para tirar conclusões na próxima terça-feira", disse. 

Salvini, até então vice-premier e ministro do Interior, desfez o governo com o objetivo de provocar novas eleições, nas quais tiraria vantagens de sua crescente popularidade e retornaria ao poder como primeiro-ministro, com um mandato para lançar uma grande onda de gastos e desafiar as rígidas regras fiscais da União Europeia. Nesta quinta-feira, Salvini disse que o "voto é a única via, mas se o M5S quiser se repensar, estamos aqui".

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Sua aposta de novas eleições pode sair pela culatra, porque os partidos que negociam para compor um novo governo são o populista M5S e oPartido Democrático (PD), oriundo do Partido Comunista Italiano, do ex-premier Matteo Renzi, que governou de 2014 a 2016.

O M5S é o partido mais forte nas duas casas, com 222 dos 630 assentos na Câmara baixa e 106 dos 315 assentos no Senado. Apesar disso, o seu apoio caiu ao longo do ano passado, substituído no gosto popular pela Liga, e a sigla não quer um retorno às urnas. Caso o Parlamento não seja dissolvido antes disso, as próximas eleições na Itália são em 2023.

Novas exigências

Nesta quinta-feira, o PD impôs novas condições para a formação da coalizão, definida pela imprensa italiana como “amarelo e vermelha”, em referência às cores de, respectivamente, M5S e PD. O partido afirmou que o M5S deve concordar em revogar leis de segurança e imigraçãoaprovadas durante sua coalizão com a Liga, revisar um plano para reduzir o número de parlamentares de 945, divididos em duas câmaras, para 600, e imediatamente se comprometer a um acordo com o PD sobre oorçamento para 2020.

Estas três condições se somam a outros cinco pontos exigidos pelos democratas na véspera: lealdade à União Europeia, reconhecimento da democracia representativa e da centralidade do Parlamento, desenvolvimento baseado na sustentabilidade ambiental, mudança na gestão dos fluxos migratórios e políticas econômicas e sociais "em chaves redistributivas".

Além disso, o líder do PD, Nicola Zingaretti , acrescentou que ele também não aceitaria dar um novo mandato a Giuseppe Conte , um tecnocrata que está próximo do M5S e que fora primeiro-ministro até esta terça-feira, quando renunciou.

É incerto se a postura dura de Zingaretti é apenas um blefe de negociaçãoou se ele de fato está disposto a ir às urnas, em parte para acertar as contas com seu partido dividido, no qual muitos parlamentares são leais ao seu antecessor, o ex-primeiro-ministro Renzi.

Falando a repórteres após  encontrar-se com Mattarella no começo da tarde, o líder do 5 Estrelas Luigi Di Maio não fez referência ao PD, mas deixou claro que seu partido trabalhava para evitar eleições.

"Nas últimas horas todos os contatos necessários foram lançados para encontrar uma maioria sólida (parlamentar)", disse ele, acrescentando que entregou a Mattarella uma lista de 10 reformas que precisavam ser concluídas antes que o parlamento fosse dissolvido.

Muitas destas exigências, desde um plano de investimento para os pobres do Sul do país, até leis sobre conflitos de interesses para acelerar osistema de Justiça, sempre estiveram entre as principais políticas da M5S. As exigências incluem ainda medidas para que a Itália obtenha 100% de sua energia de fontes renováveis e que promova uma reforma bancária.

Representantes do M5S também alertaram que o PD não deveria pressionar demais.

"Nós não vamos aceitar os vetos do PD, eles não podem dizer se devemos aceitar ou não aceitar os seus cinco pontos, se Conte deve ou nãopartir", disse Manlio Di Stefano, um ministro de Relações Exteriores e um dos congressistas de maior expressão do M5S.

Uma reconciliação entre a Liga e om5S é considerada improvável após as amargas rusgas entre as partes nas últimas duas semanas, mas continua a ser uma das opções na mesa, assim como a convocação de novas eleições.

Enquanto isso, o líder do Força Itália e ex-premiê Silvio Berlusconi, de centro-direita, pediu por novas eleições, caso não haja a chance de formação de um novo governo condizente com suas preferências ideológicas.

"O puro acaso de que forças políticas que até ontem lutavam entre si hoje tenham interesses comuns não pode fundamentar a construção de um gabinete de credibilidade",  afirmou. "Executivo de centro-direita ou voto."