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Mohamed Ahmed Elsayed Ahmed Ibrahim prestou depoimento nesta quinta-feira à PF e disse que 'não vão encontrar nada' porque ele não é terrorista

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Gustavo Schmitt / Agência O GLOBO
Egípcio Mohamed Ahmed Elsayed Ahmed Ibrahim é procurado pelos EUA e desafia FBI de ter provas contra ele

Após cinco horas dedepoimento à Polícia Federal no aeroporto de Guarulhos, o egípcio Mohamed Ahmed Elsayed Ahmed Ibrahim afirmou, nesta quinta-feira (15), que o FBI não tem provas de que ele seria ligado ao grupo terrorista al-Qaeda . O nome de Mohamed aparece entre procurados do serviço americano. Ele disse que a Polícia Federal já está em posse do seus aparelhos eletrônicos, como celular e notebook. E garantiu que nada será encontrado na perícia dos equipamentos.

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"Desafio o FBI a provar que sou um terrorista. Não vão encontrar nada porque não sou. Já estava no Brasil há mais de dois anos levando uma vida como qualquer cidadão, casado e trabalhando. O meu caso é de perseguição política", disse o egípcio . "Tenho muito medo de ser deportado ou extraditado porque no meu país muitos dissidentes do governo foram torturados e mortos", acrescentou, falando em árabe à imprensa com o auxílio de um tradutor.

Ibrahim deve ser ouvido nesta sexta-feira pelos agentes do governo americano. O advogado Muslim Ronaldo Vaz Oliveira, que representa o Ibrahim, disse que o FBI foi à PF e pediu para interrogá-lo sem a presença da defesa, o que teria sido negado.

No depoimento, o egípcio alegou que houve edição de foto divulgada pelo FBI em que ele aparece com um fuzil. A imagem foi usada para embasar as acusações contra ele. Nesta quarta-feira, ele disse ter apresentado a fotografia que seria a original, feita, segundo ele, numa viagem à Malásia, na Ásia, onde participou de uma caça de patos. A arma seria de chumbinho.

Segundo sua defesa, ele ainda apresentou um documento com informações de "nada consta", e que comprovaria que sua ficha criminal está limpa no Egito.

No Brasil, os ministérios das Relações Exteriores e da Justiça informaram que sua situação é regular. Essas informações foram juntadas por seu advogado num adendo a um recurso já feito ao Comitê Nacional de Refugiados (Conare) - cuja primeira instância já havia rejeitado no mês passado um recurso do egípcio. Agora, a decisão sobre o pedido fica a cargo do ministro Sergio Moro .

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Segundo fontes ligadas às investigações, o governo brasileiro ainda aguarda mais elementos do FBI para decidir sobre a situação de Ibrahim.

Aos jornalistas, o egípcio ainda disse que levou um susto ao ver sua foto veiculada como terrorista. Ele reiterou que é um perseguido político, e que escolheu viver no Brasil porque sabia que era um país pacífico. Afirmou que desde que sua foto passou a circular no noticiário perdeu contato com seus familiares em seu país. Teme que eles tenham sido presos. Segundo o egípcio, ele ainda tem os pais, irmãos, uma mulher e uma filha de três anos na terra natal.

No entanto, pouco mais de um ano após chegar a São Paulo, disse que resolveu refazer sua vida e se casou com uma brasileira num cartório do Pari, em junho do ano passado. Agora, afirma ser sócio de uma empresa no ramo moveleiro.

"Já perdi as esperanças de reencontrar a minha primeira mulher. Ela já chegou a ser presa por causa da nossa ligação. Queria que os brasileiros me ajudassem a trazer a minha filha para morar comigo aqui. Eu não a conheço, nunca a tive em meus braços", afirmou o egípcio.

No depoimento, a polícia pediu que ele descrevesse sua biografia no país de origem e contasse como veio parar no Brasil.

O egípcio afirmou que tem formação superior em Letras e que em seu país lecionava àrabe numa universidade, no Cairo. Voltou a dizer que fazia parte do al-Jamma al-Islamiyya, que, segundo ele, após a queda do ex-presidente Mohamed Murai foi criminalizado em 2013.

Depois disso, ele fugiu e passou por alguns países, a exemplo da Turquia, até chegar ao Brasil.

Ao jornal O Globo , ele disse que está adaptado ao Brasil, onde diz que sua cultura é respeitada. Afirmou que é fã do futebol brasileiro e torce para o São Paulo. Se disse bastante reservado, e que nas horas de lazer gosta de se reunir com os amigos para tomar chá e já que não bebe álcool.

O al-Jamma al-Islamiyya, movimento do qual Ibrahim fez parte, é de origem sunita e cometeu uma série de ataques no Egito nos anos 1980 e 1990, quando tentava tirar o governo egípcio do poder. No pior dos ataques, em 1997, 62 pessoas morreram.

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O grupo ao qual o egípcio fez parte ainda é considerado uma organização terrorista pelos EUA e pela Rússia. Apesar disso, anunciou em 2003 o abandono de métodos violentos, e a maioria de seus líderes desde então comprometeu-se com a luta política pacífica.