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Brasil teria pressionado por cumprimento da ata assinada em maio

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Alan Santos/PR - 12.3.19
Presidente do Paraguai, Mario Abdo Benítez,

Uma série de mensagens trocadas entre o presidente Mario Abdo Benítez e Pedro Ferreira, então presidente da Ande, a empresa energética do Paraguai, publicadas na manhã desta terça-feira (6) pelo jornal ABC Color revelam que Abdo tinha conhecimento da ata diplomática assinada em maio que iria contra os interesses de Assunção na venda de energia da hidrelétrica binacional de Itaipu. Abdo Benítez não só teria pressionado o títular da Ande para assinar o contrato, como pedido segredo, de acordo com reproduções das mensagens.

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Segundo os relatos, o governo brasileiro teria exercido pressão para que os termos fossem cumpridos, convocando o embaixador paraguaio ao Itamaraty para entregá-lo um "aide-mémoire", que mostrava o “mal-estar do governo brasileiro” com o fato de o Paraguai "não cumprir os compromissos assumidos na ata de 24 de maio".

As mensagens, que vão de março a junho, mostram como o presidente paraguaio teria pressa para fechar um acordo, fundamental para "movimentar a economia" de seu país e ignorando as preocupações de Ferreira de que os termos fossem prejudiciais a Assunção. Um dos recados, datado de 23 de junho, dá a entender que Abdo estaria ciente das negociações com a empresa brasileira Léros, supostamente realizadas sob a tutela do vice-presidente Hugo Velázquez .

Nesta terça-feira, a oposição paraguaia deverá apresentar os pedidos deimpeachment do presidente Abdo Benítez, de  Velázquez e do ministro da Fazenda, Benigno López, por suposta traição à pátria. Pedro Ferreira, interlocutor de Abdo nas mensagens, pediu demissão há cerca de duas semanas por divergências sobre a ata diplomática assinada em maio, e mais tarde cancelada, que levaria o Paraguai a pagar mais pela energia de Itaipu.

Mal estar do governo brasileiro

No dia 20 de junho, Abdo encaminhou para Pedro Ferreira uma mensagem que o jornal paraguaio especula ter sido enviada por Hugo Saguier Caballero,  então embaixador em Brasília e que tratava diretamente das negociações. Saguier renunciou na semana passada, após o escândalo vir à tona.

No recado, que teria como destinatário José Alberto Alderete, diretor paraguaio de Itaipu, Caballero diz que teria sido chamado para um encontro com o secretário-geral do Itamaraty, Otávio Brandelli, mas acabou reunindo-se com a embaixadora Eugenia Barthelmess, diretora do Departamento de América do Sul.

Segundo Caballero, a Chancelaria brasileira lhe entregou um “aide-memoire” — no jargão diplomático, uma mensagem informal —  que expressava o “mal-estar do governo brasileiro” com o fato de o Paraguai "não cumprir os compromissos assumidos na ata de 24 de maio".

"Como é minha obrigação relatar imediatamente ao chanceler, meu chefe imediato, a seriedade da situação me preocupa profundamente. Como sabe, não posso quebrar a linha de comando, mas não consegui não comentar com o senhor, porque isso afetará não apenas Itaipu, mas todo o nosso relacionamento", diz a mensagem.

Alertas de Ferreira

Uma troca de mensagens três dias depois dá a entender que Abdo estaria ciente da negociação com a empresa brasileira Léros, que supostamente passaria a comprar energia da Ande. Ferreira diz ao presidente que ele deveria receber dois grupos brasileiros que comprariam a energia paraguaia e Abdo Benítez responde: "Aquele que conversamos com o vice-presidente e outro que Ullón está ciente?" Possivelmente ele se referia Julio Ullón, chefe do Gabinete Civil da Presidência do Paraguai.

Na semana passada, o advogado José Rodríguez González, que se apresentou como assessor de Velázquez, afirmou ter pedido a retirada de um ponto das negociações que daria ao Paraguai o direito de vender parte de sua energia de Itaipu no mercado brasileiro, o que hoje é vetado. Com isso, segundo Rodríguez González, não haveria concorrência para o grupo brasileiro. Ao GLOBO, a Leros negou qualquer envolvimento.

No início de julho, Ferreira continua a reclamar das negociações, que, segundo ele, poderiam representar um prejuízo de US$ 341 milhões para a economia paraguaia, afirmando "não gostar de como algumas pessoas querem que a Ande assuma o que os outros assinaram, sem sequer participar".

O presidente respondeu: "Temos que passar por essa crise e fazer com que a Itaipu financie o que a Ande precisa. Isso deve acontecer. E então nós vemos. Faça com sabedoria. Estamos em tempos difíceis. O Brasil congelou as relações conosco por não cumprir o que assinamos. Temos a construção das duas linhas em andamento. Há muito a fazer."

Em seguida, Ferreira volta a reclamar sobre o acordo, afirmando que gostaria de mostrar ao presidente a análise da Ande, afirmando que "a prova de que o acordo é claramente inconveniente é que eles querem que sigamos em segredo", questionando: "Por que aqueles que assinaram e viram as minutas não saem para defendê-lo publicamente? Quando isso explodir você, o chanceler e eu vamos ter que mostrar nossas caras. Ninguém mais vai explicar."

Após Ferreira continuar a afirmar que não conseguiria explicar o aumento das taxas, Abdo teria dito que o relacionamento entre Brasília e Assunção não se resumia a Itaipu, o que levou o ex-presidente da Ande a responder que, apesar disso, a questão era muito sensível no Paraguai. O presidente, então, teria respondido: "Sim, mas o negociador é o chanceler, então a República trabalha, com o apoio de todos, não colocando pedras".

'Negocie minha cabeça'

Na madrugada de sexta-feira, 5 de julho, o presidente advertiu Ferreira que "o Paraguai não pode ter duas posições contra os brasileiros", afirmando que irá receber uma instrução escrita sobre a aprovação da ata e as instruções para a Ande e diz:

"Espero que tudo corra bem e seja cumprido, ou o chanceler não terá autoridade alguma com o Brasil. É muito claro."

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Às 6:57 daquele dia, Ferreira vai mais longe do que em todos os dias anteriores e escreve: "Presidente, se for de alguma utilidade, negocie minha cabeça não ao Ande. Eu vou entender e até mesmo apoiar essa posição. Eu sei o quão difícil é a posição do Presidente, mas não posso assinar algo contrário ao meu país, não conscientemente, e além de algo que acho que vai te machucar muito". Na semana passada, Ferreira pediu demissão.