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Membros da inteligência venezuelana estariam perseguindo exilados em Roraima; carros do Serviço Bolivariano de Inteligência foram vistos no país

Nicolás Maduro
Divulgação/Ministério da Defesa da Venezuela
Maduro estaria enviando agentes ao Brasil para identificar os possíveis dissidentes de seu exército

A tensão dentro da Força Armada Nacional Bolivariana (FANB) já levou pelo menos 80 militares venezuelanos a fugirem para o Brasil, confirmou ao Globo uma alta fonte do país que integra a equipe de colaboradores do presidente da Assembleia Nacional (AN), Juan Guaidó, principal adversário político de Nicolás Maduro.

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Alguns destes militares, em sua grande maioria da Guarda Nacional Bolivariana (GNB), continuam sendo perseguidos dentro do território brasileiro pelo serviço de inteligência do governo Nicolás Maduro , asseguraram o ex-prefeito da Grande Sabana Emilio González (que fugiu da Venezuela recentemente) e o ex-prefeito do mesmo município e líder indígena venezuelano Ricardo Delgado.

González e Delgado, acompanhando de perto os conflitos na fronteira entre Brasil e Venezuela , afirmam que agentes do Serviço Bolivariano de Inteligência ( Sebin ) atuam no estado de Roraima , a serviço do governo Maduro. González emigrou com toda sua família para se refugiar na cidade de Boa Vista, deixando a prefeitura venezuelana em mãos de funcionários enviados pelo governo Maduro. O ex-prefeito disse que seu reconhecimento de Guaidó como presidente levou militares da região a ameaçarem-no de morte, não deixando alternativa a não ser o exílio forçado.

"Eu fugi, como também fugiram muitos militares. Tem até um major do Exército que também está ameaçado de morte. Agentes do Sebin o perseguem aqui em Boa Vista", comentou.

Tentativa de sequestro

González não titubeou na hora de afirmar que “o regime de Maduro atua em território brasileiro”.

"São pessoas que andam com roupas normais, não estão uniformizadas. Mas todos sabemos que são agentes do Sebin", enfatizou.

Por isso, acrescentou, “muitos militares estão escondidos”. E não somente em Boa Vista. Alguns militares venezuelanos estão em outros estados brasileiros, entre eles Rio Grande do Sul. Na Colômbia, país que tem a fronteira mais ativa e complicada com a Venezuela, já vivem cerca de 900 militares venezuelanos.

A atuação do Sebin fora do território venezuelano tem sido denunciada insistentemente por dirigentes da oposição. No mês passado, o deputado Luis Florido informou pelas redes sociais que agentes de inteligência de Maduro tentaram sequestrá-lo na cidade colombiana de Medellín. Florido disse ter se salvado “graças ao alerta de policiais colombianos”.

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"Na Colômbia a situação é muito mais complexa, mas o Sebin também opera no Brasil", confirmou uma fonte da oposição venezuelana.

Já fontes do governo brasileiro procuradas pelo Globo disseram desconhecer a informação.

De acordo com Delgado, que acompanhou de perto o massacre dos chamados pemones (indígenas venezuelanos), em fevereiro passado, “no Brasil não operam apenas agentes do Sebin, mas também da inteligência cubana”.

"Semana passada a Polícia Federal brasileira prendeu agentes de inteligência de Maduro armados na fronteira. O que aconteceu com eles depois ainda não sabemos", disse Delgado.

A informação não foi confirmada pela PF brasileira, mas circula entre venezuelanos há vários dias, em Boa Vista e Pacaraima.

"Os primeiros militares que fugiram da Venezuela para o Brasil foram os que não quiseram reprimir os pemones. Depois vieram outros, e muitos são monitorados por agentes de Maduro em território brasileiro", garantiu Delgado.

Refúgio em igrejas

Alguns membros da GNB estão refugiados em igrejas de Pacaraima , onde são protegidos por pastores evangélicos locais. Um desses pastores, que pediu para não ser identificado, disse ao GLOBO que “os militares vivem com medo e são extorquidos de forma permanente por agentes do governo Maduro”.

Segundo González, em Boa Vista já foram detectados carros do Sebin: "Temos fotos das placas".

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O prefeito, que pertence ao partido Vontade Popular (VP), o mesmo de Guaidó , foi eleito em dezembro de 2017 para um mandato de quatro anos. Hoje, sua sala é ocupada por uma pessoa designada pelo Palácio de Miraflores como “protetora”.

"Estamos sob intervenção do regime", apontou González, que disse ter saído de seu país “porque queriam me matar, como a muitos outros”.