Tamanho do texto

Em recado ao presidente dos EUA, López Obrador afirmou que seu governo está combatendo migração 'na medida do possível e sem violar os direitos'

López Obrador Presidente México
Reprodução/Twitter
Presidente mexicano afirmou que "problemas sociais não se resolvem com impostos ou medidas coercitivas"

Em resposta ao anúncio de que Donald Trump pretende impor uma tarifa de 5% sobre todos os produtos importados no México a partir do dia 10 de junho, o presidente Andrés Manuel López Obrador afirmou que "problemas sociais não se resolvem com impostos ou medidas coercitivas".

Leia também: Líder supremo do Irã diz que Teerã não negociará com EUA

"Como transformar, da noite para o dia, o país da fraternidade com os migrantes do mundo em um gueto, em um espaço fechado, onde se estigmatiza, maltrata, persegue, expulsa e cancela o direito à justiça daqueles que buscam com esforço trabalho para viverem livres da miséria? A Estátua da Liberdade não é um símbolo vazio", disse o líder mexicano, em carta publicada em seu perfil no Twitter endereçada a Trump .

Segundo o presidente norte-americano, a medida anunciada na quinta-feira pressiona o México a "resolver o problema da imigração ilegal". Em sua resposta, López Obrador reforça que seu país, ao contrário das alegações americanas, está cumprindo "na medida do possível e sem violar os Direitos Humanos " com o compromisso de evitar o tráfego de migrantes pelo México.

O presidente mexicano também fez um apelo para que ambos líderes trabalhem em conjunto na busca por soluções pacíficas para a controvérsia e assegura que sua luta contra a corrupção irá criar condições para que os mexicanos fiquem em seu país e não precisem migrar para o norte.

A correspondência indica que o líder mexicano está levando as ameaças a sério. Segundo López Obrador, representantes de seu governo, encabeçados pelo secretário de Relações Exteriores, viajarão para Washington nesta sexta-feira em busca de um acordo e espera que eles sejam recebidos por representantes de Trump.

Um comunicado da Casa Branca divulgado após a mensagem do presidente americano informa que as tarifas sobre os produdos mexicanos serão elevadas para 10% no dia 1º de julho "se a crise persistir", e depois subindo outros 5% a cada mês por três meses, até atingir 25% no dia 1º  de outubro.

"As tarifas permanecerão permanentemente no nível de 25%, a menos e até que o México detenha substancialmente o fluxo ilegal de estrangeiros que chegam ao seu território", disse o comunicado.

O anúncio de Washington disse ainda que "a cooperação passiva do México em permitir essa incursão em massa constitui uma ameaça extraordinária e de emergência para a segurança nacional e a economia dos Estados Unidos".

Leia também: Ministra mexicana renuncia após causar atraso em voo

"O México tem leis de imigração muito fortes e poderia facilmente impedir o fluxo ilegal de migrantes, inclusive devolvendo-os a seus países de origem", alega o comunicado.

México vem combatendo migração

Apesar das acusações americanas, o México tem tomado medidas contundentes de combate aos fluxos migratórios. As deportações de migrantes quase triplicou durante os primeiros cinco meses de mandato de López Obrador , passando de 5.717 em dezembro de 2018 para 14.970 em abril, de acordo com dados preliminares divulgados pelo Instituto Nacional de Migração (INM).

As quase 15.000 expulsões registradas em abril, a maior parte delas de cidadãos de países da América Central, são o maior taxa mensal nos últimos três anos e apontam um endurecimento da política de López Obrador, que no início do ano permitiu a entrada massiva de migrantes na caravana que buscava cruzar o México para chegar na fronteira com os Estados Unidos. Ainda assim, cerca de 100.000 pessoas foram detidas pela polícia americana em abril tentando cruzar a fronteira.

Além disso, anúncio de Trump foi feito no mesmo dia em que seu governo disse ao Congresso que planejava obter aprovação parlamentar para o novo pacto comercial com o México e Canadá, iniciativa que vem sendo chamada de Plano Marshall para a América Central.

Encabeçada por López Obrador e desenvolvida em conjunto com a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), o projeto busca criar um espaço econômico para promover o desenvolvimento da região, atraindo investimentos e criando empregos — uma tentativa de resolver as raízes da crise migratória.

O plano, cujo roteiro foi apresentado pelo líder mexicano na semana passada, trabalha com cinco eixos — migração, economia, comércio, programas sociais e desenvolvimento sustentável — e várias obras de infraestrutura já foram propostas pela Cepal. Sua realização, contudo, depende da materialização dos mais de 10.000.000.000 que Washington se comprometeu em investir.

"Desde o início de meu governo, proponho optar pela cooperação para o desenvolvimento e pela ajuda aos países centro-americanos com investimentos produtivos para criar empregos e resolver a fundo este penoso assunto", afirmou o líder mexicano em sua correspondência.

Ameaça de tarifas não é inédita

Trump já usou a ameaça das tarifas no passado para tentar pressionar líderes estrangeiros a adotarem uma ampla gama de ações, desde a renegociação de acordos comerciais até a limitação da quantidade de metal ou de carros que eles exportam para os Estados Unidos.

Em abril, ele ameaçou impor uma tarifa de 25% sobre carros mexicanos se o país não tomasse medidas para conter o fluxo de imigrantes pela fronteira sul, quebrando a promessa feita no acordo comercial da América do Norte para isentar o México de tal medida.

Leia também: Trump desafia China e afirma que forças militares dos EUA na Ásia são 'temíveis'

O presidente disse a seus consultores que gosta de tarifas porque elas podem ser adotadas imediatamente e de forma unilateral. As taxas, contudo, são normalmente usadas para combater violações relacionadas ao comércio. Não está claro à qual autoridade legal Trump recorreria para impor taxas sobre a imigração mexicana. Se o governo cumprir tal ação, provavelmente enfrentará sérios desafios legais.

    Leia tudo sobre: Donald Trump