
A agropecuária cresceu 561% entre 1985 e 2025 no entorno das áreas protegidas da Amazônia e passou a ocupar 13,7 milhões de hectares da faixa de até 5 km desses territórios. A área equivale a 30,5% do entorno, que soma 44,9 milhões de hectares. Os dados são da Coleção 11 do MapBiomas, que reúne informações sobre a cobertura e o uso da terra no Brasil ao longo de 40 anos.
As áreas protegidas da Amazônia , que incluem territórios indígenas, terras quilombolas e unidades de conservação , mantêm 98% de sua extensão coberta por vegetação nativa. No entanto, a paisagem ao redor desses territórios passou por mudanças expressivas nas últimas quatro décadas. Entre 1985 e 2025, a área ocupada pela agropecuária no entorno cresceu 561%, ampliando a pressão sobre essas regiões.
“As áreas protegidas desempenham um papel fundamental na conservação do bioma, funcionando como uma espécie de barreira à transformação da paisagem e mantendo grandes extensões de vegetação nativa. À medida que estradas, outras atividades e novas formas de ocupação se aproximam de seus limites, essas áreas também passam a sofrer pressões crescentes”, explica Ives Brandão, pesquisadora do MapBiomas.
A pressão das estradas sobre a floresta
A presença da agropecuária diminui à medida que aumenta a distância das estradas na Amazônia. Nas áreas localizadas a até 5 km das vias, a atividade ocupa 40,2% do território. Em um raio de 20 km, a proporção cai para 26,7%.
A vegetação nativa apresenta o movimento inverso, passando de 56,7% da área próxima às estradas para 69,3% no raio mais amplo. Entre as principais rodovias do bioma, a agropecuária ocupa 39% do entorno de 20 quilômetros da BR-163 e 43,5% da área próxima à BR-364. Já na BR-319, a vegetação nativa corresponde a 86% desse território. Ao todo, a Amazônia possui 618 mil quilômetros de estradas mapeadas, dos quais 41,5 mil quilômetros estão dentro de áreas protegidas.
O pesquisador do MapBiomas Bruno Ferreira explica que a abertura de estradas e acessos secundários pode facilitar a exploração madeireira, o desmatamento e a ocupação irregular.
“A expansão das estradas não representa apenas a abertura de novos caminhos de circulação. Ela também amplia o acesso a áreas antes mais isoladas e pode facilitar a chegada de diferentes atividades e formas de ocupação do território. O avanço da infraestrutura, especialmente quando acompanhado pela abertura de ramais e acessos secundários, requer atenção a curto e a longo prazo, pois pode conectar fronteiras de desmatamento, exploração de madeira, ocupação irregular em extensas áreas de vegetação nativa e áreas protegidas”, afirma.
Perda de vegetação nativa
Entre 1985 e 2025, a Amazônia perdeu 54,7 milhões de hectares de vegetação nativa, uma redução de 13,8%. As áreas de floresta, incluindo formações florestais e florestas alagáveis, responderam por 96% dessa perda. Apenas a formação florestal perdeu 49,7 milhões de hectares no período, segundo o MapBiomas.
A pastagem foi o uso da terra que mais avançou no bioma, com crescimento de 556% e acréscimo de 43,1 milhões de hectares. Em média, 77% dos casos de desmatamento tiveram a pastagem como primeiro uso identificado após a remoção da vegetação nativa. Já a agricultura passou de 161 mil hectares, em 1985, para 8,6 milhões de hectares, em 2025. Desse total, 7 milhões de hectares eram destinados ao cultivo de soja, que concentrava 80,9% da área agrícola do bioma.
No entanto, essa avanço não ocorreu de maneira uniforme. Na região conhecida como Amacro, que reúne municípios do Amazonas, Acre e Rondônia, a vegetação nativa diminuiu cerca de 7 milhões de hectares desde 1985, enquanto a área de pastagem ficou aproximadamente 15 vezes maior. Em contrapartida, as Terras Indígenas mantinham 98,9% de sua extensão coberta por vegetação nativa em 2025. Nos imóveis rurais, a agropecuária ocupava 38,8% da área.
O menor desmatamento em 2025
Apesar da perda acumulada de vegetação nativa, a Amazônia registrou, em 2025, 693 mil hectares de desmatamento, o menor valor da série histórica do MapBiomas . Desse total, 639 mil hectares (92%) ocorreram em áreas de vegetação primária, enquanto 54 mil hectares atingiram a vegetação secundária.
A vegetação secundária ocupa atualmente 7,3 milhões de hectares na Amazônia, o equivalente a cerca de 2% da cobertura nativa do bioma. Essa área vem crescendo, em média, 180 mil hectares por ano, como aponta o levantamento do MapBiomas.