Amazônia
Agência Brasil
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A Amazônia agora emite mais gás carbônico do que absorve, um sinal preocupante para a luta contra as mudanças climáticas, segundo um novo estudo publicado na Nature nesta quarta-feira.

A região amazônica, lar das maiores florestas tropicais do planeta, tem tido importante papel em absorver dióxido de carbono da atmosfera. Mas os dados indicam que sua eficácia como amortecedora para as mudanças climáticas foi reduzida.

De acordo com o estudo, liderado por Luciana Vanni Gatti, cientista do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o desmatamento e a tendência de aceleração do aquecimento contribuíram para a mudança no balanço de carbono — o saldo final entre absorções e emissões — que é mais grave na região sudeste da Amazônia, onde há elevação das temperaturas e redução das chuvas na estação seca.

 A pesquisa inclui medições dos níveis de dióxido de carbono e monóxido de carbono realizadas durante cerca de 600 voos entre 2010 e 2018 em quatro localidades da Amazônia. Os pilotos voaram alguns quilômetros acima da copa das árvores, fazendo medições em diferentes altitudes.

Os resultados mostraram as maiores mudanças no equilíbrio ecológico em áreas que sofreram desmatamento em grande escala e queimadas para eliminar as árvores mortas e limpar terras.

— A Amazônia hoje emite mais carbono do que consegue absorver, principalmente por causa do desmatamento e das queimadas. As emissões das queimadas são três vezes maiores na média da Amazônia do que ela consegue absorver — afirma Gatti. — As áreas do bioma com mais de 30% de desmatamento apresentaram uma emissão de carbono dez vezes maior do que o resto, que tem em média 11%.

Dados do Inpe mostraram que o desmatamento na Amazônia atingiu em junho de 2021 o pior índice para esse mês desde o início da série histórica, em 2016. Também houve recorde de queimadas no bioma: foi o maior número de focos de calor registrado desde 2007, comparado ao mesmo mês nos anos anteriores.

Segundo a pesquisa publicada nesta quarta-feira, considerando a Amazônia como um todo, incluindo áreas em outros países, as queimadas estão emitindo 1,51 bilhão de toneladas de CO2 por ano e a floresta consegue absorver 30% do total das emissões, resultando em um balanço de carbono de 1,06 bilhão de toneladas por ano.

Gatti afirma que, considerando apenas a Amazônia brasileira, a situação é ainda pior: apenas 18% das emissões estão sendo absorvidas pela floresta. A emissão anual para a atmosfera através de queimadas chegou a 1,06 bilhão de toneladas de CO2. O saldo final entre absorções e emissões foi de 0,87 bilhão de toneladas por ano.

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Outros estudos

Um número crescente de estudos nos últimos anos sugere que a capacidade da região amazônica de absorver carbono do ar e armazená-lo de forma que não contribua para o aumento das temperaturas globais está sendo degradada.

Um estudo publicado na Nature em 2015 descobriu que a capacidade da Amazônia de absorver dióxido de carbono está apresentando “uma tendência decrescente de longo prazo de acúmulo de carbono”, em parte por causa da maior variabilidade climática e da morte precoce de árvores.

E um ensaio de 2018, publicado na revista Science Advances, alertou que a combinação de desmatamento, mudanças climáticas e queimadas fizeram com que partes da floresta tropical se transformassem em savanas. “A preciosa Amazônia está à beira da destruição funcional e, com ela, nós também estamos”, escreveram os autores, acrescentando que estamos em um ponto de inflexão.

Thomas Lovejoy, da Universidade George Mason, nos EUA, autor do ensaio publicado na Science, elogiou a nova pesquisa, da qual não participou. Ele avalia que ainda há esperança de restaurar o equilíbrio da floresta, pelo menos até certo ponto:

— A capacidade de reconstruir uma margem de segurança por meio do reflorestamento é muito real — disse ao New York Times, acrescentando que a prática poderia recuperar o papel das árvores na produção de umidade. — Não acho que seja possível voltar a ser como era, mas certamente é possível melhorar.

As florestas são uma parte crítica do ciclo da água na Amazônia. A umidade lançada no ar pelas árvores é responsável por até 35% das chuvas da região, segundo estimativas.

Ao gerenciar as florestas com o sequestro de carbono, a hidrologia e a biodiversidade em mente é possível obter muitos benefícios, afirmou Lovejoy. O pesquisador avalia que as mudanças na Amazônia ocorreram muito mais cedo do que se imaginava há 30 anos:

— Elas ocorrem por causa do uso extensivo de fogo e das mudanças climáticas. Mas coloque um pouco de água lá e isso mudará — disse ao New York Times.

Scott Denning, professor do Departamento de Ciências Atmosféricas da Universidade Estadual de Colorado, elogiou o novo estudo como a primeira medição real em grande escala — de várias altitudes ao longo de milhares de quilômetros e áreas remotas — do fenômeno, um avanço além da medição tradicional em sítios florestais.

— Os resultados mostram que o aquecimento e o desmatamento no leste da Amazônia reverteram o sumidouro de carbono em escala regional e que a mudança está realmente aparecendo no CO2 atmosférico — afirmou ao New York Times, por e-mail.

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