Sala de aula durante a pandemia de Covid-19
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Sala de aula durante a pandemia de Covid-19

Lindsey Santiago, de 10 anos, pisou pela primeira vez em uma escola municipal este ano. Até 2020, ela estudava em um colégio particular de Bangu, na Zona Oeste da cidade. Mas, durante a pandemia, a mãe da menina precisou fechar o comércio que tinha, e arcar com a mensalidade ficou inviável. Nestes tempos de crise e coronavírus, esse não foi um caso isolado. Quase 50 mil alunos não renovaram a matrícula na rede privada do Rio este ano. Eles disputaram vaga com estudantes de escolas municipais e estaduais, num cenário em que o fluxo migratório da rede privada para a pública subiu 30% em relação à média dos últimos cinco anos.

Só no sistema estadual de ensino, foram mais de 27 mil novas matrículas oriundas da rede privada. Já as unidades do município do Rio receberam cerca de 21 mil estudantes do segmento. Uma mudança, associada à recessão econômica, que preocupa educadores. Especialistas ouvidos pelo GLOBO alertam que a resposta educacional à Covid-19 deve ser rápida e eficaz, sob o risco de um recuo ainda maior do progresso duramente conquistado nos últimos anos.

— Esse fluxo é um termômetro do momento econômico e da perda de empregos. Em função da pandemia, muitas famílias, sobretudo na classe média baixa, acabaram se vendo obrigadas a mudar os filhos para a escola pública — diz o educador Mozart Neves Ramos, da Universidade de São Paulo (USP) e membro do Conselho Nacional de Educação.

Foi o caso da família de Lindsey, matriculada na Escola Municipal Ayrton Senna da Silva, em Bangu.

— Não queríamos tirá-la do ensino privado. A mãe dela ainda tentou negociar, mas a escola ofereceu condições que não estavam ao nosso alcance — conta o avô da menina, Mauricio Vieira, de 57 anos, que não se arrependeu da troca. — Minha neta foi bem acolhida na escola municipal.

Rede municipal pronta

Segundo o secretário municipal de Educação, Renan Ferreirinha, a rede se preparou para a chegada de mais alunos oriundos das escolas privadas:

— Sabíamos que receberíamos muitos alunos da rede privada, e os números das matrículas em 2021 confirmaram isso. Nós nos preparamos para receber esses estudantes, assim como todos os outros.

Dados da Secretaria estadual de Educação reiteram o fenômeno. Mostram que 17,09% das novas matrículas deste ano foram feitas por alunos vindos da rede privada. Em 2020, o percentual foi de 13,75%, e, em 2019, de 12,9%. Considerando os últimos cinco anos, a entrada de alunos da rede privada se manteve constante, em uma média de 13,4% ao ano.

Diretora do Centro de Políticas Educacionais da FGV e ex-secretária de Educação do Rio, Claudia Costin avalia que a recuperação de aprendizagem vai se tornar mais complexa com a entrada de mais alunos na rede estadual:

— No caso da rede estadual, foi muito frágil a resposta educacional à pandemia. Demoraram a criar plataformas e, quando elas surgiram, não havia uma gestão centralizada. Cada escola fez o que pôde. Alguns professores participaram, outros não. A entrada de mais alunos vai tornar ainda mais complexa essa recuperação de aprendizagem.

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Após três semestres sem aulas presenciais para a maior parte dos alunos, os colégios estaduais de 59 municípios voltaram a receber alunos na semana passada. Na capital, 259 das 286 unidades foram autorizadas a abrir as salas, mas com um rígido protocolo sanitário que inclui a capacidade reduzida de cada turma. Mesmo com a volta das aulas presenciais, poucos retornaram. Eles têm a opção de atividades virtuais.

— Menos da metade retornou presencialmente. E a dificuldade com o ensino remoto não foi sanada. Nem para professores nem para alunos, que sofrem com falta de aparelhos e conexão precária — conta um diretor de um Ciep na Região Metropolitana, que preferiu não ser identificar.

Pesquisador do Centro de Desenvolvimento da Gestão Pública e Políticas Educacionais da FGV, João Marcelo Borges chama atenção para o fato de que o aumento de alunos na rede pode implicar também readequação de turmas e turnos.

— Em unidades que já trabalhavam no limite da lotação de suas turmas, isso pode significar turmas maiores, mas, considerando o protocolo sanitário, será preciso reorganizar a rede — diz

Inclusão digital falha

Secretário estadual de Educação, Alexandre Valle garante que a pasta tem capacidade para absorver os alunos:

— No primeiro semestre, houve um aumento considerável dos alunos que migraram da rede privada para a nossa. Temos estrutura e capacidade suficientes para absorver esses estudantes.

Presidente da Comissão de Educação da Alerj, o deputado Flavio Serafini (Psol), no entanto, avalia que a rede estadual ainda não conseguiu apresentar uma solução que garanta o direito ao ensino durante a pandemia.

— Mais de um terço dos alunos sequer acessou o aplicativo do estado, e a média de uso diário é inferior a 10% do total de estudantes na maioria dos dias. Isso mostra que o que foi desenvolvido até agora é muito limitado. Faltou uma política de inclusão digital mais estruturante — critica.

Já para Ademar Batista Pereira, presidente da Federação Nacional das Escolas Privadas (Fenep), a migração de alunos da rede privada é temporária e será revertida quando economia reaquecer:

— Por dificuldade econômica, algumas famílias tiraram seus filhos da escola privada, mas o que a rede pública ofereceu não se compara ao que foi oferecido pela rede privada nesse período. Por isso, essa fuga de alunos é só um retrato, não representa a realidade. Assim que as coisas melhorarem, vamos ter os alunos de volta.

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