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Professor de desenho, universitária 'calejada' e conselho avaliador dão dicas para a prova de habilidade específica exigida em vestibulares para o curso de arquitetura; veja exemplos de desenhos bem avaliados (e outros nem tanto)

Em 2010, Unicamp pediu desenho de um fusca na prova de habilidades específicas para arquitetura
Reprodução/Unicamp
Em 2010, Unicamp pediu desenho de um fusca na prova de habilidades específicas para arquitetura

A preparação para o vestibular atormenta milhões de estudantes Brasil afora, numa maratona que envolve baterias de provas, cálculos, fórmulas e, em alguns casos, exercícios de desenho. Apesar de ser alvo de críticas, tendo inclusive sido abolida no ano passado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), a prova de habilidade específica ainda é exigida para o ingresso em concorridos cursos de arquitetura, como os oferecidos pela Unesp, Unicamp e Mackenzie.

Hoje cursando o oitavo semestre de arquitetura na Universidade Estadual de Campinas, a estudante Mariana Valentim, 24, prestou vestibular por quatro anos seguidos até garantir uma vaga. Ela conseguiu em duas ocasiões avançar para a segunda fase do processo seletivo, etapa em que a temida prova de habilidades específicas (desenho)  é aplicada aos candidatos.

"Em 2011 eu estava terminando o colégio e não tinha noção nenhuma de como seria essa prova. Eu não tinha ido atrás de um curso de linguagem arquitetônica e fui esperando conseguir dar um jeitinho", lembra a estudante.

A falta de preparação acabou culminando na não aprovação de Mariana naquela ocasião. E é justamente na constatação dessa 'exigência' por cursos preparatórios, serviço pouco acessível à população de baixa renda, que mora a polêmica em torno da prova de habilidades específicas , considerada pelos seus críticos um exame excludente e elitista.

Ainda assim, é possível superar a barreira imposta pela desigualdade social por meio do treino, estudo e observação, segundo avalia o professor Hermann Tatsch, do curso de Artes e Desenho de Linguagem Arquitetônica do Anglo.

"O desenho é uma linguagem. Portanto é algo que se aprende, como escrever. O aluno deve observar obras de arte, olhar projetos e desenhar. E se informar também. Procurar saber como os diversos artistas representam o espaço, pois o assunto nunca é inédito. Quantos artistas já pintaram o Cristo crucificado, por exemplo? Um monte. Então quando a gente observa essas diversas representações a gente adquire um vocabulário maior para a prova", explica.

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Três pontos para o sucesso

O professor Hermann destaca três pontos importantes para nortear a preparação dos estudantes que farão a prova de desenho. A primeira dica é exercitar o desenho de observação , que é aquele no qual se tenta registrar no papel algo observado no mundo real.

"Isso não tem nada a ver com dom. Tem a ver com exercitação. Aprenda a não ter um olhar simbólico sobre as coisas, mas sim um olhar capaz de transformar um objeto tridimensional e passar isso para uma folha de papel", explica o professor.

Mariana, aprovada no vestibular em 2014 após "treinar e desenhar muito", conforme ela mesma recorda, garante que o constante exercício foi fundamental para o seu sucesso na prova. "Uma coisa que ajuda é ter um caderninho pra levar consigo em todo lugar e desenhar observando. Desenhar qualquer coisa. Uma paisagem, um objeto, as pessoas andando na rua. O seu olhar muda, sua percepção muda. Você repara em detalhes que antes passavam despercebidos."

Já o segundo 'mandamento' da boa preparação versa sobre o desenho técnico , que o professor Hermann explica citando as palavras do arquiteto Lúcio Costa, autor do Plano Piloto de Brasília: "É o desenho para a inteligência. Quando concebe e deseja construir
— o desenho como meio de fazer". 

O projeto de um apartamento (planta) é um exemplo dessa modalidade de desenho.

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Desenho de expressão

Anualmente, a Unicamp publica comentários sobre o desempenho dos candidatos na prova específica para o curso de Arquitetura e Urbanismo , destacando estudantes que obtiveram resultados acima da média e indicando erros cometidos por aqueles que desempenharam abaixo dos demais.

De 2010 a 2015, a maioria dos desenhos pedidos pela universidade remete à terceira dica de estudo do professor Hermann: o desenho de expressão .

"O candidato precisa ter a capacidade de se comunicar a partir de algum tema. O Mackenzie, por exemplo, apresentou certa vez o texto de um pintor e a partir disso pediu desenho de criação com essa referência. Isso requer um certo vocabulário gráfico. E isso se adquire a partir da observação de obras", explica o professor.

Em 2015, a Unicamp apresentou aos candidatos um texto da arquiteta e ex-secretária de Habitação de São Paulo Ermínia Maricato sobre o contraste social e ocupação do ambiente urbano nas cidades brasileiras. Veja abaixo comentários sobre um exemplo bem executado e outro abaixo do desejado:

Exercício da prova de habilidades específicas do vestibular da Unicamp em 2015 para o curso de arquitetura
Reprodução/Unicamp
Exercício da prova de habilidades específicas do vestibular da Unicamp em 2015 para o curso de arquitetura


" O desenho apresenta dinamismo imagético sobre a dualidade da situação de moradia na cidade e é bastante provocador. A representação gráfica demonstra que o candidato trabalha bem o desenho de memória, é observador e tem domínio da expressão gráfica com o uso de cores e volumes ", escreveu a Comissão Permanente para os Vestibulares da Unicamp (Comvest).

Já para a prova considerada abaixo da média, as observações chamaram atenção para o fato de o candidato não ter aparentado ter compreendindo o texto apresentado e ter executado sua ideia de modo "primário":

Exercício da prova de habilidades específicas do vestibular da Unicamp em 2015 para o curso de arquitetura
Reprodução/Unicamp
Exercício da prova de habilidades específicas do vestibular da Unicamp em 2015 para o curso de arquitetura


" O desenho apresentado como resposta ao enunciado não expressa a compreensão do texto proposto, não mostrando uma reflexão crítica sobre os problemas espaciais contemporâneos das cidades brasileiras. Os elementos não formam um conjunto e a representação gráfica, tanto nas formas como no uso das cores e do campo visual da folha, é muito primária ", apontou a Comvest.

Hermann Tatsch destaca que o "bom desenho" engloba um conjunto de fatores, que passam pela limpeza, organização, composição e equilíbrio da obra. "O critério de avaliação vai desde a ocupação da folha até o domínio de uma determinada técnica. Isso é bastante abrangente", diz o professor, pontuando que "não existe desenho certo ou errado, a não ser no desenho técnico".

Para a estudante Mariana Valentim (que, após ser reprovada na primeira tentativa de ingresso na Unicamp, matriculou-se em aulas de linguagem arquitetônica), a prova da universidade cobra "noções de perspectiva, ponto de fuga e linha do horizonte". "O necessário para ir bem é ter noções de perspectiva, escala, proporção e um traço definido e firme. E ter criatividade e personalidade nos desenhos livres", sugere a universitária, que também alerta para a necessidade de estar atento ao tempo de prova.

Reinterpretações podem ser valoradas positivamente

A insegurança de muitos estudantes passa pela falta do domínio de técnicas de desenhos realistas, mas a criatividade e a capacidade de expressão podem suprir essa lacuna, conforme avalia o professor do curso de Artes e Desenho de Linguagem Arquitetônica do Anglo. 

"É quase um consenso de que reinterpretar a realidade é bastante bem-vindo. Na FAU, por exemplo, uma vez caiu o tema 'O caminhante'. Se eu desenhar maravilhosamente bem uma pessoa dando um passo para frente, talvez eu não transmita tão bem essa ideia quanto um aluno que, por exemplo, não tem a mesma técnica que eu, mas que é capaz de representar pegadas que seguem para o infinito", exemplifica Hermann Tatsch.

A ideia é compartilhada pela estudante de arquitetura Mariana Valentim. "A questão nunca é se você desenha bem ou mal, mas o quanto você consegue representar a sua ideia. Isso importa. Tanto na prova quanto durante o curso de arquitetura. Ninguém precisa ser um artista, ilustrador. Você não vai ser cobrado por isso. Mas precisa conseguir transmitir sua ideia num desenho, porque é a linguagem do arquiteto."

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Veja outros exemplos de notas acima e abaixo da média no vestibular da Unicamp:

Em 2011, universidade pediu desenho à mão livre de uma banca de jornal.

Exemplo de nota acima da média:

Exercício da prova de habilidades específicas do vestibular da Unicamp em 2011 para o curso de arquitetura
Reprodução/Unicamp
Exercício da prova de habilidades específicas do vestibular da Unicamp em 2011 para o curso de arquitetura

Comentário da Comvest: O exemplo acima revela que o candidato é capaz de evocar graficamente a memória espacial e a memória iconográfica. A memória espacial está presente na configuração formal da banca de revistas, suas dimensões, formas, materiais e layout interno. A memória iconográfica está presente nos desenhos e símbolos que representam elementos como “sorvete”, “futebol”, “telefone”, “chaveiro” e outros. O candidato não precisou colocar na imagem nem ao menos uma palavra, e ainda assim sua banca está repleta de significados. Além disso, o candidato foi capaz de criar, com seu desenho, não apenas uma banca, mas sobretudo um lugar, com uma “atmosfera” única. O banco de jardim, ao fundo, sombreado pela árvore, é quase acolhedor. As linhas de perspectivas corretas, junta com o jogo de luz e sobras, num traço firme e irreverente, reforçam a idéia de um espaço concreto, real, ainda que misteriosamente sem seres vivos.

Exemplo de nota abaixo da média:

Exercício da prova de habilidades específicas do vestibular da Unicamp em 2011 para o curso de arquitetura
Reprodução/Unicamp
Exercício da prova de habilidades específicas do vestibular da Unicamp em 2011 para o curso de arquitetura

Comentário da Comvest:  O exemplo acima revela que o candidato tem pouco domínio de perspectiva, forma, proporções, uso do grafite e mesmo do campo do papel. A banca parece “pairar” no espaço e os desenhos, em forma de ângulo, apontando para a esquerda e para direita, parecem sugerir calçadas que não se materializam. 

Ainda em 2011, os elaboradores da prova da Unicamp foram virtuosos ao propor que o aluno se reduzisse ao tamanho de um clipe de papel e precisasse usar o material escolar para escapar da gaveta entreaberta de uma escrivaninha. Veja os resultados:

Exemplo de nota acima da média:

Exercício da prova de habilidades específicas do vestibular da Unicamp em 2011 para o curso de arquitetura
Reprodução/Unicamp
Exercício da prova de habilidades específicas do vestibular da Unicamp em 2011 para o curso de arquitetura

Comentário da Comvest: Embora não tenha respondido completamente ao enunciado da questão, que solicitava que a visão incluísse também parte do ambiente externo, a solução encontrada é simples e engenhosa. Com poucos elementos, o candidato constrói sua saída da gaveta através da rampa formada pela régua. A engenhoca traz mecanismos de travamento, como o lápis encaixado no orifício da régua e a cola em sua base. A visão solicitada era de dentro da gaveta, portanto o ângulo representado pelo candidato está correto. Além disso, é um ângulo que propicia o entendimento claro da disposição dos objetos para a fuga, e que é especialmente feliz ao reforçar o ambiente escuro da gaveta sendo invadido pela luz externa.

Exemplo de nota abaixo da média: 

Exercício da prova de habilidades específicas do vestibular da Unicamp em 2011 para o curso de arquitetura
Reprodução/Unicamp
Exercício da prova de habilidades específicas do vestibular da Unicamp em 2011 para o curso de arquitetura

Comentário da Comvest:  O exemplo acima traz dois erros graves e comuns. O primeiro é o desenho com uso de régua, que é absolutamente proibido na prova de aptidão em Arquitetura, a não ser quando indicado o contrário. O segundo é o enquadramento, ou ângulo de visão, que no caso dessa questão deveria ser do interior da gaveta. Além disso, a estrutura montada com os objetos não demonstra como ela permitiria a fuga da gaveta, mais parecendo
uma montagem escultórica. A cena externa aparece através de janela bastante improvável, na linha do chão. O desenho também denota pouco domínio de perspectiva, luz, sombra e uso das cores.

A prova específica de 2012 requereu do aluno um desenho à mão livre, em cores, de um corte longitudinal imaginado de um navio transatlântico, detalhando seus espaços externos e internos. Veja abaixo os resultados.

Exemplo de nota acima da média:

Exercício da prova de habilidades específicas do vestibular da Unicamp em 2012 para o curso de arquitetura
Reprodução/Unicamp
Exercício da prova de habilidades específicas do vestibular da Unicamp em 2012 para o curso de arquitetura

Exemplo de nota abaixo da média:

Exercício da prova de habilidades específicas do vestibular da Unicamp em 2012 para o curso de arquitetura
Reprodução/Unicamp
Exercício da prova de habilidades específicas do vestibular da Unicamp em 2012 para o curso de arquitetura


Em 2013, a Unicamp apresentou um texto sobre uma casa nos bosques. Confira os resultados:

Exemplo de nota acima da média:

Exercício da prova de habilidades específicas do vestibular da Unicamp em 2013 para o curso de arquitetura
Reprodução/Unicamp
Exercício da prova de habilidades específicas do vestibular da Unicamp em 2013 para o curso de arquitetura

Exemplo de nota abaixo da média:

Exercício da prova de habilidades específicas do vestibular da Unicamp em 2013 para o curso de arquitetura
Reprodução/Unicamp
Exercício da prova de habilidades específicas do vestibular da Unicamp em 2013 para o curso de arquitetura


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