Javier Bardem: do cinema para o ativismo político.
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Javier Bardem: do cinema para o ativismo político.

Bastaram poucas horas após  a invasão de Ceuta por mais de 50 mil marroquinos para que Israel fosse arrastado para a narrativa — não por qualquer evidência, mas pelo imaginário obsessivo de mídias e  influenciadores espalhados pelo mundo.

A criação de uma teoria conspiratória, aparentemente lançada pela Al Jazeera — o veículo extraoficial do controverso governo do Catar, abertamente anti-Israel — espalhou-se com mais rapidez do que os marroquinos se espalharam pelo território espanhol. Ela se baseou em um post publicado em 2019 por Yair Netanyahu, filho do primeiro-ministro israelense, no então Twitter (hoje, X).

Na mensagem, Yair, que não ocupa cargo público nem exerce qualquer influência sobre a política externa israelense, afirmava que "o Marrocos deveria libertar Ceuta e Melilla do domínio espanhol". Tratava-se, certamente, de uma resposta malcriada a alguma declaração do governo espanhol sobre a presença de Israel nos territórios palestinos.

Em questão de minutos, a comentarista política americana Candace Owens abraçou a teoria e ajudou a dar repercussão à maluquice. Criadores de conteúdo espanhóis fizeram o mesmo. "Foi um plano para dominar governos progressistas como o de Pedro Sánchez", escreveu Ana Alcalde, conhecida como Barbie de Gaza depois de participar de uma das flotilhas que há anos tentam romper o bloqueio marítimo à Faixa de Gaza.

No Brasil, a mídia anti-Israel também embarcou na tese. O canal Diário do Centro do Mundo encontrou um historiador obscuro que ali fez sua estreia como comentarista para afirmar que "o Marrocos e Israel articularam a pressão migratória sobre a Espanha em meio a tensões com Pedro Sánchez".

O veículo tem influência restrita ao próprio ecossistema ideológico. Ainda assim, cumpre um papel relevante: registrar no Google uma teoria sem qualquer evidência. O mesmo vale para pequenos canais e influenciadores que, em apenas dois dias, geraram quase 60 milhões de visualizações, segundo cálculos do Centro de Pesquisa sobre Antissemitismo (ARC), do Movimento de Combate ao Antissemitismo.

Javier Bardem entra em cena

O ator espanhol Javier Bardem, ativista pró-Hamas que usa o palco da cerimônia do Oscar para divulgar suas ideias políticas, endossou a teoria destrambelhada e lhe garantiu mais visibilidade.

"A Espanha tem sido a voz mais potente contra os crimes de guerra de Israel e dos EUA na Palestina, no Líbano e no Irã", publicou em suas redes sociais. "Não sabemos quem arquitetou essa crise, mas sabemos quem se beneficia de uma Espanha enfraquecida e instável: Israel e a direita radical ocidental, sedentos por transformar a migração em uma arma contra os muçulmanos."

A loucura não surpreende. Já se vão dois anos desde que Bardem deixou para trás sua antiga obsessão com a crise climática, tema ao qual dedicava sua militância antes de descobrir uma causa muito mais eficaz para atrair manchetes e se deixar engolfar pela onda do movimento palestino. Infelizmente, o que começou com alguma elegância transformou-se em declarações cada vez mais distantes de qualquer medida de bom senso.

Dá para apostar que o próximo prêmio do ator — que é, aliás, excelente em sua profissão e deveria dedicar-se apenas a ela — será uma coroa de idiota útil do ano, concedida pelo primeiro-ministro espanhol com a anuência da família real.

Mas há um problema para quem vive dessa obsessão: a realidade costuma ser mais resistente do que as teorias conspiratórias. Enquanto ativistas elaboram suas teorias da conspiração, universidades, empresas e centros de pesquisa continuam aprofundando seus laços com Israel. E este é o tipo de notícia que realmente deveria importar.

Notícia publicada no jornal da Columbia University.
Reprodução
Notícia publicada no jornal da Columbia University.


Columbia University em Tel Aviv

Os leitores certamente se lembram da poderosa campanha anti-Israel ocorrida dentro das universidades americanas e europeias logo depois do 7 de Outubro, antes mesmo do Exército israelense começar sua resposta militar à invasão. Por isso, pode causar espanto saber que a Columbia University, um dos principais palcos das manifestações estudantis, acaba de inaugurar, em Tel Aviv, o seu 11º Global Center.

A iniciativa estava prevista para 2023, mas foi adiada por motivos óbvios. Seu objetivo é ampliar sua colaboração em pesquisas e parcerias com instituições israelenses, com foco inicial em tecnologia e empreendedorismo, ciência, medicina, saúde pública e mudanças climáticas.

Nada mal, né, Javier Bardem?

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