A inflação anual se aproxima dos 50%, os alimentos acumulam aumentos que chegam a 70% e, mais uma vez, os iranianos atingem o limite de sua paciência e vão às ruas. Os primeiros a fechar as portas e marchar pelas ruas, em 28 de dezembro, foram os comerciantes de Teerã. Logo depois, juntaram-se a eles outros setores da sociedade — especialmente os jovens, que com frequência assumem para si a tarefa de tentar mudar o mundo.
É evidente que a deterioração econômica não foi o único fator a empurrar a população às ruas nas últimas semanas. O que se vê é uma onda de protestos que cresce a cada dia e já se consolida como a mais ampla desde a instauração do regime islâmico, superando em alcance territorial movimentos anteriores, como os de 2019 e 2022.
O Irã enfrenta escassez de água.
Sofre com crises energéticas recorrentes. Vive sob sanções econômicas severas, impostas com o objetivo de conter a obstinação do regime em desenvolver armas nucleares capazes de destruir, em sua própria retórica, primeiro o “pequeno satã” e depois o “grande satã”.
Ao aplicar esses rótulos a duas democracias consolidadas — Israel e os Estados Unidos —, a liderança iraniana deixa claro o grau de alienação ideológica em que opera cotidianamente.
Um regime que não combina
Ao longo de 47 anos, essa autocracia jamais combinou com a maioria da sociedade iraniana. As mulheres persas, reconhecidas por sua educação e vitalidade cultural, não foram moldadas para ocultar suas cabeleiras sob um hijab imposto à força. A repressão sistemática — que todos os anos resulta em milhares de prisões arbitrárias e condenações à morte — contrasta frontalmente com o legado do antigo Império Persa, cuja contribuição histórica mais celebrada foi o respeito à diversidade religiosa e cultural. A corrupção endêmica, por sua vez, corroeu instituições e empobreceu a população não apenas materialmente, mas também em termos de perspectivas e dignidade.
Essa lógica persecutória tampouco se limita aos opositores mais visíveis do regime; ela alcança até mesmo minorias históricas que sobreviveram à Revolução Islâmica. Existe, ainda hoje, uma diminuta comunidade judaica no Irã — remanescente de uma das mais expressivas comunidades judaicas do Oriente Médio. Seu tamanho, no entanto, tende a diminuir, ainda mais nas últimas semanas, diante do número desproporcional de judeus enviados à prisão sob acusações de natureza “política”. O regime, que atribui artificialmente as manifestações aos Estados Unidos e a Israel, “confirma” dessa forma sua alegação.
Essa comunidade não permanece no país por identificação ideológica ou concordância com o regime. Judeus iranianos não têm autorização formal para visitar Israel e, quando conseguem fazê-lo, familiares e pessoas próximas costumam ser interrogados, investigados e, não raro, detidos sob a acusação de colaboração com o “sionismo”.
Em Israel, é difícil encontrar quem não conheça ao menos um iraniano que “bateu e voltou”, forçado a retornar ao país pela pressão psicológica exercida sobre sua família. O custo humano dessa chantagem é devastador.
As maiores manifestações desde 1979
Nos últimos dias, dezenas — e depois centenas — de milhares de iranianos tomaram as ruas. O desespero é tamanho que muitos já não temem incendiar delegacias, confrontar forças de segurança ou atear fogo a símbolos do regime ou mesquitas
. Os protestos se espalharam por todo o vasto território iraniano.
A repressão nos primeiros dias foi relativamente contida, em parte em função da declaração feita na semana passada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, alertando para possíveis consequências em caso de violência excessiva contra manifestantes. Em resposta, o regime recorreu a expedientes conhecidos: trouxe ao país oito centenas de combatentes ligados a milícias iraquianas, empregados para reprimir protestos. Paralelamente, interrompeu o acesso à internet e às comunicações telefônicas — uma estratégia já utilizada em levantes anteriores. Ainda assim, imagens e relatos continuam a alcançar o exterior por meios alternativos. Neste fim de semana, o cenário tornou-se mais brutal, com relatos de que o número de mortos passa de 2 mil.
Meu coração está com os iranianos — e o seu deveria estar também. No entanto, os veículos de informação ocidentais, em sua maior parte dominados pelos ideais progressistas, decidiram que os iranianos não têm direito de libertar-se de uma ditadura sanguinária e violenta. Assim, você nem tem como apoiá-los.
Sinal dos tempos
Com quanta angústia todos nós acompanhamos o sofrimento, o isolamento e a solidão de um menino no filme O Rapaz da Bolha de Plástico,
de 1976. Assistimos o jovem John Travolta crescendo, pobrezinho, em um espaço protegido em que, sem contato possível com o mundo externo, ele observava tudo à distância. Sem participar, sem interferir.
Talvez pela humanidade estar então vivendo a explosão de liberdade dos anos 1970 — o auge do movimento hippie, as manifestações contra as tantas guerras da época, quentes e frias —, a sensação de isolamento parecia insuportável. Daí, pulamos 50 anos pra frente, e eis que nos vemos justamente procurando a proteção das bolhas: dessa vez, não as físicas, mas as ideológicas. Somente dentro delas a maioria de nós se sente seguro e protegido de todo o mal.
As redes sociais, com sua superficialidade ruidosa e sua pretensão de definir o que merece ser conhecido, empurraram milhões de pessoas para compartimentos fechados. Mas, ao contrário do que gostamos de imaginar, ninguém foi trancado ali à força. Permanecer isolado, preso às próprias certezas, é uma escolha diária.
Portanto, escolha, por si mesmo, se acredita ou não no anseio iraniano.