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Esse enfoque concentrado da imprensa no sistema político federal acabou por criar grupo de analistas supercompetentes, especializados em Brasília, o que é bom. Mas o que parece necessário é ter novas pautas, mais arejadas, mais surpreendentes

Suspeito que as pautas do telejornalismo brasileiro andam meio repetitivas. Dias atrás assisti direto aos programas da Globo News: entre um jornal e outro, quase não houve modificações nas matérias.

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A temática que os jornalistas exploram com enorme nível de detalhes é política, mais especificamente Brasília, dando a impressão de que ali estão concentrados todos os interesses que os brasileiros possam ter. E tudo o que acontece no mundo, com repercussão por aqui, é tratado só como manchete.

O Jornal da Band se destaca pelo Boechat, com suas opiniões sempre presentes, reagindo, com desassombro a tantas iniquidades com que somos afrontados. Uma série de absurdos em política brasileira vão desfilando à nossa frente. Tantos, que corremos o risco de achar natural o que é absurdo.

O que Boechat faz é “jornalismo de autor”, onde o espectador pode entrar em comunhão com ele, ao entender o nível de desfaçatez vigente.

Quando à Reforma da Previdência, martelado por tantos meses, cessou de forma abrupta, numa hora em que nenhum político mais fazia cerimônia ao admitir que o governo estava à cata de mais recursos e cargos para comprar congressistas.

Dentro do tema, nosso primeiro grande susto foi quando Temer levou pela proa as gravações da  JBS, com imagens estranhas até para filme noir.

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O presidente precisou se virar também para rebater  as duas acusações sérias que lhes foram feitas, utilizando as verbas e os cargos à sua disposição. Os mesmos que já haviam sido bem utilizados no  caso da  Previdência.

Esse enfoque concentrado  da imprensa no sistema politico federal acabou por criar um grupo de analistas super-competentes, especializados  em Brasília, o que é bom.

Mas o que parece necessário é ter novas pautas, mais arejadas, mais surpreendentes.

Um sub-produto das pautas pouco criativas é o chamado “povo-fala”, para completar o tempo previsto: ali, qualquer passante recebe o microfone, para confirmar ao repórter  que está mesmo muito frio, ou muito calor, que o material escolar tem preços abusivos…

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Para terminar, o Jornal Nacional acabou por se transformar em jornal policial, direto da delegacia, com direito à banalização da mãe chorosa com a perda do filho, cena triste que já é parte integrante do bloco do crime na TV.