
Qualquer que venha a ser o resultado do primeiro turno das eleições presidenciais, previsto para ser divulgado por volta das 22 horas de hoje, a verdade é que não se deve esperar mudanças significativas no cenário político depois da apuração dos votos. Isso mesmo! Nem mesmo a eventual vitória de um dos candidatos já no primeiro turno — algo que não acontece desde o pleito de 1998 — teria força para desanuviar o clima político e baixar um pouco a tensão que tem dominado o embate eleitoral no Brasil.
Interferência judicial
Sem entrar no mérito das razões que levaram a emissora a cancelar um evento tão tradicional (que fez parte do calendário eleitoral nas nove eleições realizadas no Brasil desde que a escolha do presidente da República voltou a se dar pela via direta, em 1989), o fato é que a interferência judicial exagerada vem empurrando o processo eleitoral brasileiro para uma situação no mínimo incômoda. O cancelamento do debate expôs uma verdade que só não enxerga quem não quer: a política brasileira vem se desenrolando numa ágora cada vez mais hostil e inacessível à participação popular.
Ou melhor: o eleitor tem sido chamado a participar apenas para validar as teses e os pontos de vista de interesse dos políticos — e não para contribuir com a formulação de propostas que farão diferença na vida da sociedade. O fato é que a polarização exagerada (sem espaço para diálogo e sem a hipótese da construção de consensos) se tornou o principal ingrediente da receita que tem afastado o povo da política.
Qualquer que seja o resultado da disputa, é líquido e certo que o lado derrotado não aceitará a vitória do adversário. E, no final das contas, fará tudo o que estiver a seu alcance para dificultar as ações do próximo governo.Maturidade e serenidade
Divergência, como se sabe, é parte do processo político, mas há situações que exigem sensatez e que deveriam ser levadas em conta pelas lideranças.
Há limite para tudo — e já está mais do que claro que a polarização atual não produzirá, daqui por diante, resultados melhores do que produziu até agora. O Brasil está cheio de problemas, que terão que ser enfrentados pelo próximo governo, seja qual for o resultado das urnas. São problemas que não se resolvem com a troca de acusações que tem dominado o ambiente político nos últimos anos.O país, como é público e notório, passa por momento delicado — e o que não faltam são problemas a serem resolvidos. Há, para começo de conversa, uma crise institucional que terá que ser enfrentada com maturidade e serenidade — sob pena de tornar a situação ainda mais difícil do que já está.Há, também, problemas graves no campo da economia, que exigem soluções difíceis e não podem mais ser remendados ou enfrentados à base de reformas superficiais e de gambiarras, como têm sido nos últimos anos. É voz geral, por exemplo, que a situação fiscal do país chegou a um ponto insustentável — e a falta de medidas que promovam o equilíbrio urgente das contas públicas pode inviabilizar a administração federal.
A impressão que se tem é a de que os dois lados sabem o que precisa ser feito para consertar a situação. O que parece faltar, no entanto, é a disposição política para enfrentar as consequências de decisões que, embora necessárias e urgentes, tendem a produzir resistências e desgastes imediatos. Pelo bem do país, os políticos poderiam pelo menos aproveitar a campanha para o segundo turno para mostrar ao público os programas de governo e as propostas para solução desses problemas, que não foram mostradas até agora.