embaixador Cesário Melantonio Neto
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A perda do reconhecimento internacional, por parte do Brasil, como protagonista climático nos transformou em um pária ecológico. Nos últimos anos sujamos a nossa matriz energética com a devastação florestal e estamos a caminho do inevitável, uma grave crise hídrica.

O desafio de neutralizar as emissões de carbono brasileiras até 2050 vai demandar um conjunto de medidas para aumentar a participação de fontes não poluentes na matriz energética brasileira.

A criação de uma política ambiental e de gestão territorial que impeça o desflorestamento, adote a agricultura de baixo carbono e o uso maior de proteína vegetal, deveriam ser prioridades nacionais. É uma maneira de reverter a devastação da Amazônia e de nosso outros biomas.

As fontes intermitentes limpas podem eliminar todas as emissões de gases de efeito estufa do setor de energia elétrica, metade ou mais das emissões do setor de óleo e gás, e ainda criariam um forte instrumento de gestão territorial e ambiental, cuja inexistência é responsável atualmente por dois terços das emissões de carbono do Brasil.

O quadro geográfico poderia mudar bastante com concentração de parques eólicos e solares no Nordeste, que deverá se tornar uma região exportadora de energia para o Norte e o Sudeste. Tais investimentos são possíveis, e nos tornaríamos novamente um protagonista mundial e grande potência ecológica.

A exportação de tecnologias limpas, em toda a cadeia de produção energética, ou a fabricação de produtos de baixa intensidade de carbono, podem ser altamente lucrativas, mas é necessário reverter a limitação de verbas para pesquisas promovidas pelo governo federal.

Nesse caso, a economia brasileira vai se tornar mais forte, com mais nível de poupança e atrairá investimentos estrangeiros e internos com a geração de um maior número de empresas qualificadas.

Quanto à agricultura familiar, o Brasil poderia incentivar os pequenos produtores rurais com apoio técnico e financeiro, a reflorestar áreas desmatadas ou degradadas no bioma amazônico.

Exemplo desse gênero de atividade, com apoio de organização não-governamental, é o projeto de acelerador de agroflorestas e restauração da "The Nature Conservancy" com a Amazon, que incentivará o plantio de cultura agroflorestais nativas para promover a recuperação ambiental junto com a produção econômica de base agroecológica.

O cacau é um bom exemplo assim como o coco, a banana, o açaí e a mandioca entre os produtos.

No caso indígena, a administração federal insiste em ver como estorvo o desenvolvimento dos índios e julga que eles devem ser retirados de suas reservas.

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As ameaças graves do Planalto ao direito de existência dessas etnias e de minorias em geral no Brasil, produzem um dano enorme à nossa imagem internacional no exato momento da urgência ambiental.

Enquanto tentamos reduzir uma parte da sociedade civil, os estragos de tantas irracionalidades messiânicas estão em curso uma tentativa renovada de impor a barbárie contra a civilização no Brasil.

A transição energética para o baixo carbono aumentará a demanda para a exploração de recursos minerais, como é o caso de minerais usados nas baterias dos carros elétricos e dos telefones celulares.

O Brasil tem de estar preparado para explorar esses recursos de forma ecológica e sustentável, e com respeito às áreas protegidas, os direitos indígenas e o cuidado com a biodiversidade.

Entre 1985 e 2020 a área minerada nacional aumentou seis vezes, somando-se a atividade industrial e o garimpo legal e ilegal.

Com o mundo em emergência ambiental, o aquecimento global, milhões de espécies da fauna e da flora estão em perigo, a contaminação das águas e solos, a crise hídrica com a falta de energia elétrica e apagões, a insegurança alimentar e as desigualdades crescentes, o messias brasileiro usou a tática de nada perguntar, mas apenas afirmar para o seu grupo.

Esse escapismo e fuga da realidade está conduzindo o país para o abismo e grave crise institucional.

O senhor fascista desse grupo minoritário da sociedade brasileira busca manter o domínio nas relações exteriores e lucrar com a venda de armamentos para o financiamento da reeleição com a ajuda externa dos mesmos grupos de extrema direita de outras nações .

A triste situação que vivemos com a organização de atos antidemocráticos e contra o Estado de Direito tem por objetivo assegurar a atual hegemonia política desses neofascistas e manter ativo o seu projeto de ter influência na diplomacia brasileira.

Nesse contexto político, o Brasil marginaliza as discussões sobre a  emergência climática a poucas semanas da reunião da COP-26 em Glasgow.

Uma solução possível seria a maior participação de unidades da Federação no encontro para suprir o desinteresse do governo federal em uma ação coordenada de Diplomacia Federativa.

Os tempos sombrios a que me referi no último texto nos deixam apenas duas opções sobre a mesa: se resignar ou se indignar. Como disse Darcy Ribeiro, "eu não vou me resignar nunca".

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