
Um exército de milhares de integrantes com oito braços cada entrou em batalha no Mar Adriático, na Itália. Cientistas soltaram cerca de 130 mil filhotes de polvo-comum para tentar frear o avanço do caranguejo-azul, uma espécie invasora de crustáceo que vem devastando a fauna nativa e a pesca no país. Os polvos foram gerados em laboratório e estão no estágio paralarval, logo após a eclosão, com poucos milímetros de comprimento. A ideia dos biólogos é incentivar a alimentação dos moluscos, conhecidos por serem predadores implacáveis do crustáceo exótico.

O caranguejo-azul é uma iguaria muito valorizada nos Estados Unidos, mas outros países o veem como praga. A subespécie originária do Oceano Atlântico ocidental habita desde a costa leste do Canadá até o norte da Argentina. O animal teria chegado ao Mar Mediterrâneo através da água de lastro de navios mercantes, que servia para gerar maior estabilidade na navegação.
O animal marinho chegou no século passado, mas o estrago começou de fato há cerca de dez anos, quando a população disparou. Sem predadores naturais e favorecido pelo aquecimento das águas, o caranguejo-azul se multiplicou rapidamente, já que cada fêmea põe mais de 700 mil ovos no período reprodutivo. Possuindo garras afiadíssimas, o crustáceo abre conchas de mariscos e arruína o cultivo de moluscos.
A Universidade de Bolonha, no Centro-Norte da Itália, resolveu investir na contenção de danos através de uma resposta biológica. A instituição criou o Octo-Blu, projeto financiado em parceria com o Governo do Estado de Emilia-Romanha. Segundo a equipe responsável, sob condições ideais, um polvo adulto de um quilo devora até quatro caranguejos-azuis por dia. A iniciativa não buscou nenhum animal exótico para o controle do crustáceo, optando por reforçar a população do molusco nativo da região.
O projeto teve início em 2024 e contou com uma fase preliminar de laboratório dedicada a descobrir como criar os filhotes. As primeiras solturas aconteceram em 11 e 17 de junho deste ano e seguiram ao longo de agosto, na altura das cidades de Cesenatico e Riccione, região castigada pela proliferação do crustáceo invasor. Ademais, os pesquisadores ainda instalaram tocas artificiais para abrigar os cefalópodes recém-chegados.
Polvo é "casca grossa" e tem reprodução rápida
De acordo com a equipe do Octo-Blu, o polvo-comum foi escolhido por ser uma subespécie resistente e de reprodução veloz, com fêmeas capazes de gerar centenas de milhares de ovos. Outro fator que levou à eleição do molusco foi o fato de já existir naturalmente em toda a Itália, evitando novas inserções de animais invasores.
Novas levas de filhotes de polvo serão lançadas conforme a produção labotatorial dos moluscos, mas os resultados só aparecerão no longo prazo. A proposta do Octo-Blu não é exterminar o invasor, mas controlá-lo junto de outras estratégias, como iniciativas de pesca predatória.
Apesar das altas expectativas, há um fator habitacional que pode atrapalhar. Os caranguejos da Emilia-Romanha vivem em áreas quentes, rasas e arenosas, que não combinam com o habitat preferido do polvo, o que pode reduzir o encontro entre caçador e presa. Por isso, os pesquisadores já estudam alternativas, como o uso de enguias ou robalos na predação do crustáceo.
Na Itália, a proliferação do caranguejo-azul é tão grande que o Ministério da Agricultura e da Soberania Alimentar nomeou um "comissário extraordinário", Enrico Caterino, para enfrentar a situação. Mesmo assim, a espécie exótica continua a se multiplicar.