Onde estudar arqueologia e como está o mercado de trabalho

Formação combina atividades de campo, laboratório e conhecimentos sobre patrimônio, enquanto licenciamento ambiental concentra grande parte das vagas

Sítio Morumbi
Foto: USP Imagens/Letícia Cristina Correa e Zanettini Arqueologia
Sítio Morumbi


Ao contrário da visão de que arqueólogos trabalham só com ruínas antigas, o campo oferece diferentes caminhos de formação e trabalho no Brasil, desde a atuação em obras e projetos de preservação até pesquisas em universidades, museus e órgãos públicos.

Ao iG, a arqueóloga e professora do Museu de Arqueologia e Etnologia - USP, Verônica Wesolowski, resume que a profissão está ligada ao estudo das diferentes formas de viver das  sociedades humanas a partir dos vestígios que elas deixaram. Esses vestígios podem ser objetos , alterações nas paisagens, desenhos e pinturas, materiais naturais usados ou modificados por pessoas, restos de alimentos, partes de construções e até materiais relacionados a corpos humanos, entre outros.

A arqueologia é uma ciência que a gente chama de indiciária. Ela trabalha com pequenos vestígios e não apenas com as coisas grandes
Arqueóloga e professora do MAE-USP, Verônica Wesolowski.


Segundo a professora, existem atualmente cursos de graduação em arqueologia em diferentes regiões do Brasil, principalmente em universidades federais. Há instituições nas regiões Norte, Nordeste, Sudeste e Sul, embora nem todos os estados tenham um curso específico na área.

Também existem formações relacionadas à área dentro de outros cursos, como antropologia, além de opções em instituições particulares. Verônica cita como exemplo o curso de arqueologia da Pontifícia Universidade Católica de Goiás.

Ponta de projétil identificada em pesquisas no Sítio Morumbi
Foto: USP Imagens/Arquivo Pessoal Paulo Zanettinni
Ponta de projétil identificada em pesquisas no Sítio Morumbi


Na pós-graduação, também há programas espalhados por diferentes regiões do país. Alguns oferecem mestrado, enquanto outros têm mestrado e doutorado.

Segundo Verônica, os programas de pós-graduação do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, e do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo estão entre os considerados de excelência, com nota seis pela Capes .

A formação muda de acordo com a universidade, não existindo um único currículo de arqueologia aplicado da mesma forma em todo o país. As universidades podem mudar parte do conteúdo às necessidades de cada região. Mesmo assim, alguns conhecimentos são comuns na formação dos futuros profissionais. Entre eles estão estudos sobre a arqueologia brasileira, técnicas de pesquisa em campo,  formas de analisar diferentes materiais em laboratório, educação patrimonial e legislação sobre a  proteção do patrimônio arqueológico e a atuação profissional.

A quantidade de atividades práticas pode variar entre as universidades, mas Verônica destaca que a formação inclui atividades práticas dentro das próprias disciplinas e também estágios.

Foto: USP Imagens/Letícia Cristina Correa e Zanettini Arqueologia
Sítio Morumbi em 2022


Como está o mercado de trabalho

Uma das principais áreas de trabalho para arqueólogos no Brasil é o licenciamento ambiental, segundo Wesolowski. Como o  patrimônio arqueológico é protegido pelo governo federal, obras que possam atingir esses locais precisam ser avaliadas antes e, em alguns casos, acompanhadas pelos profissionais.

Os arqueólogos entram previamente à descoberta. Na verdade, a legislação no Brasil determina que, previamente à intervenção, seja feita uma avaliação de potencial arqueológico.
Arqueóloga e professora do MAE-USP, Verônica Wesolowski.


Isso faz com que arqueólogos participem de projetos envolvendo diferentes tipos de obras, como construção de prédios, metrôs, estradas, aterros sanitários e condomínios.

As vagas estão principalmente em empresas de arqueologia ou em empresas que prestam serviços para projetos de licenciamento ambiental. Nesses casos, os profissionais podem trabalhar em projetos específicos relacionados a obras e outras intervenções no solo.

A contratação direta por empresas responsáveis por grandes empreendimentos, como mineradoras, ainda é menos comum. Segundo Verônica, esse tipo de contratação começa a aparecer, mas continua sendo mais raro.

Há ainda casos de prefeituras contratarem arqueólogos para atuarem em museus municipais, fundações de cultura e setores responsáveis pela  preservação do patrimônio histórico das cidades.

As universidades também são uma opção de carreira, principalmente para quem pretende trabalhar com pesquisa ou formar novos profissionais.


Mercado vai além de ruínas e sítios antigos

A arqueologia urbana é um exemplo da atuação com licenciamento ambiental. Mesmo cidades atuais ocupadas há muitos séculos podem esconder vestígios de diferentes momentos de sua história.

Quando pensamos em uma cidade grande, como São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre ou Belo Horizonte, que têm alguns séculos de existência, a gente pensa como uma área que não vai ter nada, e não é assim, porque existe uma história da própria construção dessa cidade que a gente conhece hoje, que não começou agora, que começa há muito tempo atrás.
Arqueóloga e professora do MAE-USP, Verônica Wesolowski.


Em São Paulo, pesquisas realizadas na região do Morumbi, na Zona Sul, acharam o sítio arqueológico mais antigo encontrado na cidade até o momento, com vestígios da presença humana de cerca de quatro mil anos. O sítio foi descoberto por acaso na década de 1960, quando o engenheiro Caspar Hans Luchsinger encontrou instrumentos de pedra lascada durante a abertura de loteamentos na região.  

Wesolowski descreve a metrópole como "uma cidade que se constrói sobre si mesma o tempo todo".

Foto: USP Imagens/Letícia Cristina Correa e Zanettini Arqueologia
Sítio Morumbi


Outro caso citado pela pesquisadora aconteceu na construção do Parque Augusta, também em São Paulo. O lugar ocupa uma área onde funcionava uma antiga escola para moças da sociedade paulistana. Durante as obras, foram encontrados vestígios arqueológicos da escola e também uma parte voltada ao atendimento de meninas de baixa renda, ligada ao projeto social da instituição.

A construção do parque foi acompanhada por trabalhos de arqueologia, que incluíram o resgate dos vestígios encontrados. Segundo Verônica, a pesquisa ajudou a entender melhor  como o espaço era usado no passado e mostrou aspectos da história da antiga escola que não estavam mais visíveis na superfície.

No Rio de Janeiro, o Cais do Valongo, hoje reconhecido como Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO, também é um exemplo de local que voltou ao conhecimento da população depois de intervenções de obras públicas acompanhadas por arqueólogos. O lugar foi uma das principais portas de entrada de africanos escravizados no Brasil entre cerca de 1775 e 1830 e hoje faz parte da chamada Pequena África, região que reúne outros espaços relacionados à história, à cultura e à presença da população negra no Rio de Janeiro.

Um sítio arqueológico não precisa ter grandes construções ou ruínas visíveis para ser identificado. Muitos locais têm o que os pesquisadores chamam de baixa visibilidade, quando os vestígios estão escondidos ou são difíceis de perceber sem uma investigação especializada.

Um local pode ser encontrado por alterações no solo, restos de alimentos, pedaços de cerâmica, estruturas de antigas moradias, fogueiras ou outros materiais modificados pela ação do homem.

Por isso, Verônica define a arqueologia como uma ciência que trabalha principalmente com pistas deixadas pelas pessoas.

Ela trabalha com pequenos vestígios e não apenas com as coisas grandes, como ruínas.
Arqueóloga e professora do MAE-USP, Verônica Wesolowski.


A partir desses materiais, os pesquisadores conseguem descobrir informações sobre as atividades feitas em certo local e entender como diferentes sociedades usavam os espaços.