Moradores criam adesivos para combater roubos na Vila Mariana

Iniciativa foi tomada após aumento no número de celulares subtraídos por ciclistas no bairro; câmeras de segurança integradas reforçam a estratégia

Adesivo feito por moradores da Vila Mariana alerta sobre a ocorrência de roubos de celulares por ciclistas.
Foto: Reprodução/Alartron - Rafael Rintzel/iG
Adesivo feito por moradores da Vila Mariana alerta sobre a ocorrência de roubos de celulares por ciclistas.

Um grupo de moradores da Vila Mariana, na Zona Sul de São Paulo, resolveu adotar uma estratégia diferente para reduzir o número de roubos de celulares no bairro. Por conta própria, residentes da região confeccionaram e espalharam adesivos alertando quem passa na rua para a ocorrência do crime. 


Os adesivos, que mostram uma pessoa sendo furtada por um criminoso em uma bicicleta, e a escrita “ Cuidado, furto com bicicleta ”, podem ser encontrados colados em frente à casa de moradores e locais estratégicos do bairro, avisando quem passa pela rua para tomar cuidado com seus aparelhos.

Adesivo alertando sobre roubo de celulares.
Foto: Rafael Rintzel/iG
Adesivo alertando sobre roubo de celulares.


O alerta, segundo moradores ouvidos pelo iG, serve para chamar a atenção de pedestres para a ocorrência de roubos de celulares na região, e também para chamar a atenção do poder público para a insegurança sentida pelos moradores do bairro.

“Na ausência do Estado, é importante ter as pessoas colaborando pelo bem-estar de todo mundo. Acho que é um movimento que já sinaliza essa importância da segurança e de se precaver de qualquer tipo de incidente, e qualquer ajuda é sempre bem-vinda para as pessoas estarem cientes do processo e também tomarem cuidado aonde estão chegando, principalmente para o pessoal que vem de fora.”
Aleks Santos, morador da Vila Mariana


Ocorrências

Dados da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) mostram que, comparando os meses de junho deste ano com 2025 , os casos de furtos em geral na Vila Mariana caíram de 222 para 203, uma redução de 8,6% .

Porém, apesar da redução, é possível notar uma diferença territorial nos Boletins de Ocorrência (B.O) registrados. Enquanto em 2025 uma em cada cinco ocorrências aconteceram nas estações de metrô, esse índice caiu para uma em cada 27 nesse ano .

Em 2026, entre os B.Os registrados na Vila Mariana, 93% aconteceram em via pública, 25,4% a mais do que em 2025, quando o índice foi de 67,6% . O crescimento demonstra uma maior atuação dos criminosos nas ruas, como relatado pelos moradores do bairro.

Foto: Reprodução/Alartron
Criminoso roubando celular da mão de pedestre na Vila Mariana.


No território da Vila Mariana, boletins policiais destacam a incidência de roubos na rua Domingos de Morais, com 72 B.Os registrados, e na rua Vergueiros, onde ocorreram 43 registros de crimes.

De acordo com nota da SSP enviada à reportagem, o enfrentamento aos roubos e furtos de celulares foi intensificado em todo o território da capital paulista por meio de ações integradas de inteligência, investigação e policiamento ostensivo.

O órgão aponta ainda que, durante o primeiro semestre deste ano, os roubos de celulares na capital paulista caíram 6,8% em comparação com o mesmo período de 2025. Os roubos e furtos em geral também apresentaram queda de 12,6% e 2,3%, respectivamente. No mesmo intervalo, mais de 23 mil criminosos foram presos ou apreendidos na cidade de São Paulo, e 1.426 armas foram retiradas de circulação.

Vizinhança solidária

Uma dessas estratégias de inteligência está diretamente ligada ao Programa Vizinhança Solidária (PVS), como explica Fábio Cotait, presidente do Conselho Comunitário de Segurança (Conseg), que responde pelo Conseg de maior área de São Paulo, incluindo parte da Vila Mariana.

Segundo ele, os grupos da Vizinhança Solidária atuam em pequenas regiões de moradores que se auxiliam na prevenção de crimes, além de fornecerem dados para as polícias Civil e Militar para investigarem as ocorrências, disponibilizando informações e imagens de câmeras de segurança.

“A Vila Mariana tem câmeras compartilhadas entre vizinhos e com a polícia. Caso tenha relato de crime, é possível vasculhar as imagens buscando o criminoso para a PM ter acesso às características, facilitando a localização. As câmeras também são acopladas dentro do programa municipal e do estadual Muralha Paulista. Na região em que moro, tem mais de 120 câmeras, que subsidiam imagens para os programas.”
Fábio Cotait, presidente do Conseg de parte da Vila Mariana.


Para Fábio, além de campanhas de cooperação entre vizinhos, como os adesivos alertando sobre roubos, é muito importante que, em qualquer ocorrência, a vítima registre um B.O . Segundo ele, mesmo que o boletim seja eletrônico, é  necessário para informar à polícia o que está acontecendo para saber que tipo de ação é mais necessária em cada região.

Ainda de acordo com o presidente do Conseg, outra orientação é que a pessoa nunca deve reagir, pois, como acontece na maioria das ocorrências de roubo, o criminoso costuma não estar sozinho , e a reação acaba aumentando o risco para a vítima.

Foto: Reprodução/Alartron
Grupo pego roubando celulares na Vila Mariana.


Segundo ele, a produção de adesivos de alerta é uma ação incentivada pela Polícia Militar e pelo Conseg como forma de também prevenir crimes, alertando moradores da Vila Mariana e de outros bairros sobre o risco naquela área. Para Fábio, o trabalho das polícias militar, civil e Guarda Municipal fica mais eficiente com a ajuda da população .

Roubos

O morador da Vila Mariana Mauro Sérgio contou à equipe de reportagem do iG que já  presenciou uma tentativa de assalto com farol fechado em um dos cruzamentos próximos à estação de metrô Ana Rosa.

Segundo ele, devido à proximidade com a Avenida Paulista, criminosos vão para as ruas do bairro em busca de vítimas.

“Acho uma das melhores regiões de São Paulo, mas a questão de segurança tem ficado um pouco a desejar (...) Você vê muito (policial) passando, mas acho que é muito esporádico pelo tamanho do bairro e pelo volume de trânsito que tem. Deveria ter mais.”
Mauro Sérgio, morador da Vila Mariana


Na visão de Mauro, a iniciativa de espalhar adesivos é boa, mas insuficiente para parar com os roubos de celulares.

Para ele, o problema só seria resolvido por meio de programas sociais de apoio a pessoas em estado de vulnerabilidade, desincentivando jovens a cometerem esse tipo de crime.

“No meu modo de ver, eu acho que deveria ter uma maneira de abordar o problema melhor. Acho que, se você tivesse uma maneira de acolher melhor quem não tem a condição de ter nada, para ele ter o mínimo, acho que talvez ele tivesse uma desenvoltura melhor e surtiria mais efeito. Demoraria mais, mas acho que seriam frutos por maior tempo.”
Mauro Sérgio, morador da Vila Mariana


De acordo com o morador, as principais vítimas dos roubos de celulares são pessoas de outros bairros da capital paulista ou da região metropolitana que vão até a Vila Mariana e não ficam atentas aos ciclistas.

Para essas pessoas, Mauro considera a presença de adesivos alertando sobre as ocorrências de grande ajuda .

Segurança colaborativa

Alex Moeckel, da empresa de segurança Alartron, que patrocinou a confecção de adesivos, contou que a iniciativa começou como uma forma de alerta para ser espalhada em locais estratégicos do bairro, devido a um aumento dos roubos de celulares por ciclistas, e reforçando a importância da atenção durante deslocamentos pelas ruas.


Conforme Alex, a iniciativa faz parte de um trabalho mais amplo de segurança colaborativa, que conta com um programa de câmeras integrado no bairro.

As imagens têm contribuído para identificar suspeitos e veículos envolvidos em ocorrências, permitindo que os registros sejam encaminhados às autoridades policiais para auxiliar em investigações.

Com a união entre os alertas e as câmeras compartilhadas espalhadas pela Vila Mariana, o objetivo é criar uma rede de prevenção e colaboração entre moradores, tecnologia e forças de segurança, tornando o bairro mais atento e preparado para enfrentar esse tipo de crime.