Leniel com o seu filho Henry, que tinha quatro anos
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Leniel com o seu filho Henry, que tinha quatro anos

Um parecer do Hospital Barra D’Or, reafirma que Henry Borel Medeiros já chegou morto a unidade de saúde, na madrugada de 8 de março de 2021, quando foi levado pela mãe, a professora Monique Medeiros da Costa e Silva, e por seu ex-namorado, o médico e ex-vereador Jairo Souza Santos Júnior, o Jairinho. O documento, juntado ao processo em que o ex-casal é réu por torturas e homicídio do menino, no II Tribunal do Júri, rebate a argumentação da defesa do ex-parlamentar, que afirma que o menino chegou vivo ao local e sugere que a laceração hepática pode ter sido provocada durante procedimentos de reanimação no atendimento emergencial. 

De acordo com o parecer, assinado pelo médico Daniel Romero Muñoz e ao qual O GLOBO teve acesso, conforme a documentação médica analisada, Henry deu entrada no Barra D’Or às 03h50, “em parada cardiorrespiratória, apresentando trismo (rigidez de mandíbula), cianose central e periférica, palidez cutânea, extremidades frias e cianóticas, sem perfusão periférica e sem pulsos centrais e/ou periféricos”. 

O profissional descreve que as anotações médicas e de enfermagem fazem referência de manutenção das manobras de ressuscitação por 60 minutos, sem qualquer retorno da circulação espontânea durante todo o período em foi assistido, tendo sido declarado óbito e encaminhado o corpo para o Instituto Médico-Legal (IML). “As fichas de atendimento descrevem a presença de equimoses nos membros superiores, abdome e membros inferiores desde o início do atendimento, não restando nenhuma dúvida sobre a presença de tais lesões anteriormente à admissão hospitalar”, pontua.

Daniel Romero Muñoz ainda refuta o depoimento prestado pelo assistente técnico Sami El Jundi, contratado por Jairinho, no plenário do Tribunal de Justiça, em 1º de junho, quando o profissional apresentou uma radiografia de tórax realizada em Henry nas dependências do Barra D’Or e afirmou que o exame denotaria a “presença de vida durante o atendimento prestado naquela instituição de saúde”.

“Importante mencionar que, nas necrópsias de rotina, o ar represado na cavidade pleural (pneumotórax) se perde durante a abertura da cavidade torácica, a menos que se utilizem técnicas especiais de necropsia, tais como realizar o exame dentro d’água ou com o uso de espirômetro. As dificuldades em realizar estas técnicas especiais são utilizadas, inclusive, como justificativa para o uso de exames de imagem na sala de necropsia como método rotineiro. Deste modo, a menos que o IML realize tais procedimentos na sua rotina, o que não é o esperado no Brasil, no exame necroscópico não é, habitualmente, detectado o pneumotórax referido”, escreve o médico.

No documento, Daniel Romero Muñoz explica que a “realização de manobras de ressuscitação cardiopulmonar, ainda que tenha sido feita em indivíduo já sem vida, especialmente quando já existia dano pulmonar (como o verificado no exame necroscópico), pode determinar extravasamento do ar para o espaço pleural, visto que este é insuflado sob pressão positiva nas vias aéreas. Em crianças, nas quais as paredes alveolares são naturalmente mais frágeis, esta possibilidade assume maior importância, podendo haver rompimento desses alvéolos e consequente pneumotórax pelo barotrauma”.

“(…) a rigidez apresentada na região da mandíbula de Henry já significava a existência de sinais médico-legais de certeza de morte e, ainda que tenham sido realizadas as manobras de ressuscitação cardiopulmonar, não seria esperado que fossem eficazes. Ainda assim, no afã de tentar salvar a vida da criança, a equipe manteve os esforços na realização dos procedimentos recomendados em casos de parada cardiorrespiratória”, ressalta. “Apesar de não constar, no prontuário médico, a descrição de todas as medicações administradas, considerando a presença de sinais abióticos consecutivos de certeza de morte, não era plausível que houvesse alguma resposta à tentativa de terapia instituída”.

Na conclusão, Daniel Romero Muñoz afirma que, diante do exposto no parecer de 20 páginas, “não se pode falar em qualquer relação entre a morte de Henry, constatada no exame necroscópico como tendo sido causada por hemorragia decorrente de rotura hepática, e as condutas adotadas nas dependências do Hospital Barra D’Or, dado que já havia sinais evidentes de que a criança já se encontrava morta quando do seu atendimento”.

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