Vista do alto destaca o contorno da dolina cercada por vegetação;
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Vista do alto destaca o contorno da dolina cercada por vegetação;

O "lago" de águas azul-turquesa já chama atenção por si próprio. A poucos metros da borda, a transparência começa a dar lugar a uma cavidade profunda, comparada por quem já foi ao lugar como uma enorme sistena natural. Cercado pela vegetação do Cerrado, na zona rural de Niquelândia, no norte de Goiás, e com quase nada de margem para quem se aproxima, o local ganhou um nome curioso: "Lago sem Fundo".

O mistério também chegou ao publicitário Júlio César Alves Magalhães, criador do canal de viagens por Goiás Nos Mínimos Detalhes. Em busca de novos destinos para conhecer, ele viu referência ao Lago Azul.

“Aí, eu vi a notícia de que era um lago que não tinha fundo. Aí, eu falei: ‘Mas como que não tem fundo? Um lago que não tem fundo?’”, recorda.

Vista aérea mostra o Lago Azul em meio à vegetação e à paisagem rural de Niquelândia, no norte de Goiás
Arquivo pessoa: Júlio César
Vista aérea mostra o Lago Azul em meio à vegetação e à paisagem rural de Niquelândia, no norte de Goiás


A pergunta levou Júlio a procurar o amigo Reneval Vaz Pires, que trabalhava como guia turístico e atualmente é secretário municipal de Turismo de Niquelândia. A partir desse contato, os dois iniciaram uma série de visitas, testes e gravações para tentar decifrar a profundidade do lago.

Uma câmera e 600 metros de linha

Na primeira tentativa de enxergar o que havia abaixo da superfície, Júlio amarrou uma pequena câmera, uma lanterna e uma pedra a uma linha com aproximadamente 600 metros. O conjunto foi lançado próximo à margem, sem que o grupo avançasse para o centro da formação.

Júlio César Alves Magalhães segura a linha usada para descer câmera e lanterna na tentativa de localizar o fundo do Lago Azul
Arquivo Pessoal: Júlio César
Júlio César Alves Magalhães segura a linha usada para descer câmera e lanterna na tentativa de localizar o fundo do Lago Azul



Segundo o publicitário, toda a linha foi liberada, mas ele não conseguiu identificar com segurança se o equipamento havia tocado o fundo. A câmera foi recuperada com imagens escuras e de difícil interpretação, insuficientes para responder à pergunta que motivou a experiência.

Os vídeos publicados por Júlio despertaram a atenção de internautas e levaram o grupo a preparar uma segunda tentativa. Dessa vez, ele voltou ao Lago Azul com aproximadamente mil metros de linha.

Depois de uma longa descida, o equipamento parou de avançar. Júlio marcou o ponto alcançado com um nó e começou o recolhimento, acreditando ter encontrado alguma superfície sólida.

“Achei o fundo. Pelo menos aqui na beira, né?”, relata.

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Arquivo pessoal

Júlio César Alves Magalhães às margens do Lago Azul, dolina de Niquelândia cuja profundidade ainda não foi determinada


A conclusão durou pouco. Após cerca de 30 minutos puxando a linha, ela se rompeu. A câmera, a lanterna e o peso utilizado para levar o equipamento para baixo ficarão perdidos para sempre no fundo do lago. No cálculo de César, a linha chegou a aproximadamente 710 metros, mas não é possível deterinar com certeza a "fundura" do lugar.

Lago não, dolina

Embora seja chamado de lago, o corpo d´água, na verdade, é uma formação conhecida como dolina. Segundo o Serviço Geológico do Brasil, o termo designa depressões fechadas, geralmente circulares ou elípticas.

Algumas dolinas surgem lentamente pela dissolução das rochas. Outras são formadas quando a camada rochosa existente sobre uma cavidade subterrânea perde sustentação e desaba. Quando a depressão alcança o lençol freático ou recebe água, pode originar uma lagoa cárstica.

Reneval conta que o lago  teria se formado a partir do colapso de parte de uma antiga cavidade em terreno calcário. A área teria sido posteriormente ocupada pela água subterrânea.

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Divulgação

Reneval Vaz Pires, secretário municipal de Turismo de Niquelândia, fala sobre a formação geológica e o potencial turístico do Lago Azul


A parte visível na superfície, segundo o secretário, pode representar apenas uma pequena abertura de uma estrutura mais ampla.

“É como se fosse um funil de boca para baixo. Essa parte que a gente vê é a parte fininha do funil”, compara.

O desenho completo da dolina, porém, ainda depende de um levantamento técnico capaz de mapear as paredes, os desníveis e eventuais espaços submersos.

Um azul difícil de descrever

A aparência do Lago Azul também surpreende quem conhece ambientes submersos. O segundo-sargento do Corpo de Bombeiros Militar de Goiás Williams Valadares Costa Filho, que soma 16 anos na corporação e 14 de atuação como mergulhador, relata ter participado de duas atividades de qualificação no local.

Acostumado a mergulhos de busca e resgate em rios e lagos, Williams afirma que a dolina apresenta características diferentes de outros pontos utilizados nos treinamentos da corporação. A ausência de atividade mineradora no local foi uma das primeiras particularidades que chamaram sua atenção.

“O que mais intriga a gente é isso: lá não tinha atividade de mineração nem nada. O lago é praticamente natural”, conta.


Debaixo d’água, é a tonalidade que domina a memória do mergulhador. Williams descreve uma água translúcida, marcada por um azul que ele próprio tem dificuldade para definir.

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Arquivo pessoal

Williams Valadares é segundo sargento do Corpo de Bombeiros

“A água lá dá aquele tom de azul. Seria mais que um azul-turquesa. Sei nem que azul é aquilo”, relata. “A experiência, sim, é muito boa.”

O treinamento citado pelo sargento prepara os militares para procurar e retirar pessoas, embarcações, veículos e outros objetos submersos. A formação dura cerca de 60 dias e exige cuidados específicos por ocorrer em um ambiente que ele define como “totalmente atípico”.

Turismo em Niquelândia

A situação do Lago Azul expõe um dos desafios enfrentados por Niquelândia: o município reúne paisagens naturais, cachoeiras, grutas, serras e uma extensa área banhada pelo Lago de Serra da Mesa, mas boa parte desses lugares está localizada em propriedades particulares e ainda não possui estrutura para receber visitantes.

O turismo local é movimentado principalmente pela pesca no Lago de Serra da Mesa, pelas atividades náuticas e pelas celebrações religiosas, especialmente a Romaria de Nossa Senhora da Abadia do Muquém.

Em agosto, o município apresentou o Plano Municipal de Turismo 2025–2035, elaborado em parceria com o Sebrae Goiás e a Goiás Turismo. O documento reúne 104 ações relacionadas à gestão, infraestrutura, criação de experiências turísticas e promoção do destino.

Reneval afirma que a intenção é aproveitar o público já atraído pela pesca e pelo turismo religioso para apresentar outros pontos naturais, históricos e culturais de Niquelândia. No caso do Lago Azul, entretanto, qualquer abertura dependeria da concordância do proprietário e de investimentos em acesso controlado, proteção ambiental e segurança.




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