Os eventos ocorreram em 17 de junho, 1º de julho, 29 de agosto e 17 de dezembro de 2024.
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Os eventos ocorreram em 17 de junho, 1º de julho, 29 de agosto e 17 de dezembro de 2024.

O Ministério Público de São Paulo (MP-SP), por meio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), denunciou policiais civis suspeitos de cobrar propina para liberar cargas ilegais de celulares e outros eletrônicos apreendidas pela polícia. No documento analisado pela reportagem do iG, é possível acompanhar as negociações e entender como os policiais teriam agido. 

O que diz a denúncia

As investigações começaram a partir da prisão de Thiago Marcel Magnabosco, no dia 17 de dezembro de 2024. As informações foram obtidas a partir do aparelho celular do investigado. Thiago é acusado de ser o líder do grupo dedicado à introdução clandestina de aparelhos eletrônicos.

No aparelho de Thiago, foram encontradas quatro ocorrências entre junho e dezembro de 2024, nas quais teria ocorrido o pagamento para que  policiais civis do Estado de São Paulo não apreendessem cargas de aparelhos eletrônicos ou, ainda, realizassem apreensões menores ou simbólicas, com a restituição total ou parcial da carga ilícita.

Os eventos ocorreram em 17 de junho, 1º de julho, 29 de agosto e 17 de dezembro, todos seguindo o mesmo modo de atuação: cargas de aparelhos eletrônicos eram apreendidas, seguidas pela solicitação de altos valores indevidos para a posterior liberação das mercadorias e dos motoristas envolvidos. 

Em todas as ocasiões identificadas, os policiais civis teriam solicitado a Thiago valores correspondentes a 70% do total estimado das cargas. Somados, os valores pedidos e pagos nas quatro ocorrências chegam a R$ 2,35 milhões.

Primeira negociação

Conversas encontradas no celular de Thiago indicam uma negociação para a liberação de uma carga de mercadorias, em 17 de junho de 2024. Nos diálogos, ele tratou diretamente com um contato salvo como “Civil SP” sobre um possível “acerto”. 

Segundo a denúncia, o valor solicitado para liberar a carga seria estimado em cerca de R$ 400 mil.

Durante uma abordagem da Polícia Civil de São Paulo, o caminhão conduzido por Felipe Mario, conhecido como “Pakito”, foi interceptado enquanto transportava mercadorias ligadas a Thiago. Após a abordagem, Thiago iniciou as negociações com o “Civil SP” para tentar liberar a carga.

Após o pagamento, apenas uma parte dos produtos seria apreendida, em uma ação que, segundo a denúncia, daria aparência de legalidade à operação. A maior parte da carga seria devolvida no dia seguinte. 

Um dos envolvidos apontados nessa primeira negociação é Jonathan Renan Vieira, cujo contato estava salvo no celular de Thiago como “Trans Rio Tche”. As conversas indicam que Jonathan teria sido responsável por preparar a carga que seria transportada para São Paulo.

Ainda segundo a denúncia, Jonathan teria uma atuação mais ampla na distribuição e no transporte de mercadorias que chegavam a Londrina, no Paraná. Ele seria responsável por fazer a ligação entre o grupo liderado por Thiago e os motoristas encarregados de levar as cargas para outros Estados, principalmente São Paulo.

Após confirmar que a carga havia sido apreendida, Thiago perguntou a Jonathan onde estavam as mercadorias. Jonathan respondeu que parte dos produtos estava escondida dentro da carga principal.

Na sequência, Thiago afirmou que “isso aí já é alguém que passou fita”, em uma fala que, segundo a denúncia, i ndicaria uma suspeita de que alguém teria fornecido informações privilegiadas sobre a operação.

Nos diálogos, ele tratou diretamente com um contato salvo como “Civil SP” sobre um possível “acerto”.
Arquivo Investigação Criminal
Nos diálogos, ele tratou diretamente com um contato salvo como “Civil SP” sobre um possível “acerto”.






Ainda segundo as conversas, Thiago relatou que já estava conversando com o policial civil responsável pela abordagem. Segundo ele, assim que o pagamento fosse feito, as mercadorias, o caminhão e o motorista seriam liberados. 

Em troca, ainda de acordo com a denúncia, o policial faria a apreensão de aproximadamente dez aparelhos celulares, como forma de justificar oficialmente a abordagem.

Em todas as ocasiões identificadas, os policiais civis teriam solicitado a Thiago valores correspondentes a 70% do total estimado das cargas.
Arquivo Investigação Criminal
Em todas as ocasiões identificadas, os policiais civis teriam solicitado a Thiago valores correspondentes a 70% do total estimado das cargas.






O conteúdo das conversas indica que g rande parte das mercadorias foi devolvida a Thiago e que o valor combinado pelo “acerto” teria sido pago. 

Segunda negociação

A segunda ação de corrupção policial teria ocorrido em 1º de julho, 13 dias após a primeira. Na ocasião, outro caminhão ligado a Thiago foi abordado pela Polícia Civil de São Paulo.

Inicialmente, cerca de 250 aparelhos celulares teriam sido apreendidos. Segundo informações repassadas por Thiago, porém, a carga completa tinha mais de quatro mil aparelhos.

Nessa segunda negociação, as investigações apontam a participação do advogado Sidiclei da Costa Almeida, que teria atuado na intermediação das negociações.

Em conversa com o advogado, Thiago relatou que havia sofrido duas apreensões de cargas pela Polícia Civil em um intervalo de duas semanas. Segundo ele, na primeira ocorrência houve o pagamento de um “acerto” e, na segunda abordagem, teria sido novamente solicitado o equivalente a 70% do valor da carga.

As investigações identificaram ainda outros dois policiais civis que estariam envolvidos nessa ocorrência: Marcos Vinicius de Souza Melo e Vagner Ramalho.

Segundo a denúncia, em 11 de julho de 2024, Sidiclei voltou a entrar em contato com Thiago para cobrar seus honorários. Na ocasião, apresentou três valores que, somados, chegavam a R$ 115 mil. Um deles, segundo as investigações, faria referência direta ao pagamento do suposto “acerto” policial, misturando valores de honorários advocatícios com a quantia que seria destinada à propina.

Em 11 de julho de 2024, Sidiclei voltou a entrar em contato com Thiago para cobrar seus honorários.
Arquivo Investigação Criminal
Em 11 de julho de 2024, Sidiclei voltou a entrar em contato com Thiago para cobrar seus honorários.






Terceira negociação

No dia 29 de agosto, o caminhão conduzido por Fabiano de Oliveira foi abordado pela Polícia Civil e levado ao 1º Distrito Policial de Barueri, na Grande São Paulo.

As conversas indicam que teria sido solicitado um pagamento de R$ 700 mil para a liberação da carga. Parte do valor teria sido transferida por meio bancário e parte paga em espécie.

Entre as transferências, R$ 166,2 mil foram enviados para a empresa Riviera Soluções Tec Ltda. Outros R$ 35 mil foram transferidos para pessoas físicas: R$ 15 mil para Rogério Silva Rodrigues, R$ 10 mil para Iêda Gonçalves Rocha e R$ 10 mil para Mozair Celestriano dos Santos.

Segundo as investigações, a maior parte das transferências foi realizada para a conta da empresa. A denúncia aponta indícios de que a Riviera Soluções Tec Ltda. seria uma empresa de fachada. O negócio teria permanecido ativo por apenas um ano e contava com apenas um sócio, descrito nas investigações como uma pessoa de baixa renda e cadastrada em programa de assistência social.

O restante do suposto “acerto”, de quase R$ 500 m il, teria sido pago em espécie aos policiais.

Na madrugada de 1º de setembro de 2024, Sidiclei informou a Thiago que iria realizar o “resgate” das mercadorias. Ele chegou a enviar uma foto de parte do dinheiro que seria entregue aos policiais. Na imagem, segundo a denúncia, o valor aparece identificado como “caixinha da alegria”.

Na imagem, segundo a denúncia, o valor aparece identificado como “caixinha da alegria”.
Arquivo Investigação Criminal
Na imagem, segundo a denúncia, o valor aparece identificado como “caixinha da alegria”.






A restituição da carga teria sido realizada com escolta policial. Na manhã de 1º de setembro de 2024, Sidiclei informou que estava na Rodovia Castelo Branco, acompanhado por uma escolta da Polícia Civil, por temer uma abordagem da Polícia Rodoviária Federal.

Ele também enviou a Thiago uma fotografia do momento. Na imagem, é possível ver, à frente do veículo, uma viatura com características semelhantes às utilizadas pela Polícia Civil de São Paulo.

Os policiais teriam garantido, após o pagamento da suposta propina, que a carga chegasse a São Paulo escoltada
Arquivo Investigação Criminal
Os policiais teriam garantido, após o pagamento da suposta propina, que a carga chegasse a São Paulo escoltada






Além de não cumprirem seus deveres durante a abordagem, os policiais teriam garantido, após o pagamento da suposta propina, que a carga chegasse a São Paulo escoltada pela própria Polícia Civil. 

Segundo as investigações, os policiais Marcos Vinicius de Souza Melo e Vagner Ramalho estariam envolvidos no esquema. 

Durante as investigações, também foi identificado que o investigador de polícia Vagner de Lima estaria envolvido no caso. Ele realizou consultas sobre o caminhão antes de o veículo chegar a Barueri, nos horários de 13h16, 16h29 e 16h53. 

De acordo com a denúncia, as consultas indicam que Vagner de Lima não teria se limitado a verificar a situação do veículo. Ele estava utilizando sua credencial, de dentro da repartição, para acompanhar o deslocamento do caminhão por meio dos registros de leitores automáticos de placas.

O veículo monitorado era justamente o caminhão cuja carga teria sido objeto do “acerto” de R$ 700 mil.

Quarta negociação

No dia 17 de dezembro de 2024, Thiago Marcel foi preso em flagrante após a Polícia Civil de São Paulo apreender uma carga de aparelhos eletrônicos.

Horas antes da prisão, porém, ele teria participado de outra negociação com policiais. Segundo as investigações, um caminhão ligado a Thiago foi interceptado e, conforme os registros de localização, levado para a Delegacia de Polícia de Santo André, no grande ABC paulista. 

De acordo com o relato de Thiago, os policiais teriam solicitado R$ 550 mil como “acerto” para liberar a carga.

Por volta das 4h da madrugada, as negociações teriam sido concluídas. Após o pagamento, os policiais apreenderam apenas dez aparelhos para registrar formalmente a ocorrência, enquanto o restante da carga seria liberado.

Assim como no caso de 29 de agosto, não foi registrado boletim de ocorrência sobre a abordagem. Segundo a denúncia, a falta de registro reforça a suspeita de que a carga era devolvida após o pagamento da suposta propina, sem documentação oficial da ação dos policiais. 

Padrão de vida acima dos salários 

Ainda segundo a denúncia do Ministério Público, o policial Bruno Moreno Santos recebia salário mensal de R$ 7.729,53.

Uma pesquisa imobiliária realizada durante as investigações apontou diversas movimentações em datas próximas aos fatos apurados, principalmente a aquisição de imóveis em leilões. Entre os bens que chamaram a atenção estão três terrenos.

Um deles, localizado em um loteamento, em Barueri, na Grande São Paulo, que foi adquirido por R$ 141.471,77. Outro terreno, em Caieiras, na Região Metropolitana de São Paulo, que foi comprado por R$ 65 mil. Pouco tempo depois, o imóvel teria sido vendido por R$ 85 mil. O terceiro terreno fica em Sorocaba, interior de São Paulo, e foi adquirido por R$ 197 mil, meses após o episódio ocorrido em 17 de junho de 2024.

Já o policial José Adriano Pereira da Silva Nishi recebia salário mensal de R$ 6.326,61. Segundo a denúncia, ele figura como testemunha da ocorrência e teria participado das negociações com Thiago para a liberação indevida da carga, ao lado do policial Bruno Moreno Santos. Em relação ao patrimônio, José Adriano possui um Audi A3, enquanto a esposa possui um Hyundai Creta.

Marcos Vinicius de Souza Melo, por sua vez, recebia R$ 8.523,77 por mês. Segundo a denúncia, à época dos fatos ele estava no 2º Distrito Policial de Cotia e, a partir de 13 de agosto de 2024, passou a trabalhar no 1º Distrito Policial de Barueri. 

Além disso, Marcos integra o quadro societário de cinco empresas, que passaram por diversas alterações contratuais no segundo semestre de 2024, período dos fatos investigados. Ele também possui um Toyota Corolla, duas embarcações e imóveis em Barueri e no litoral norte de São Paulo.

A denúncia ainda aponta uma relação próxima entre Marcos e o policial Vagner Ramalho, incluindo o registro de um veículo ligado a Vagner no endereço de um imóvel de Marcos.

Por fim, o policial Vagner Ramalho recebia salário mensal de R$ 8.436,51 e possui um Volkswagen Amarok, atualmente registrado no endereço de Marcos. A esposa de Vagner também possuía dois imóveis. Um deles foi vendido em 6 de setembro de 2024, poucos dias após o episódio de 29 de agosto.

Para o Ministério Público, a evolução patrimonial dos investigados e a proximidade das movimentações financeiras e imobiliárias com os episódios de suposta corrupção indicam uma condição financeira incompatível com os salários recebidos.

Denúncia anônima 

Marcos Vinicius de Souza Melo e Vagner Ramalho já estavam sendo investigados quando, em outubro de 2024, a Corregedoria recebeu uma denúncia anônima sobre uma nova apreensão de celulares no 1º Distrito Policial de Barueri.

Segundo a denúncia, os policiais teriam apreendido uma carga de aparelhos, mas parte dos produtos não teria sido registrada oficialmente. Ainda de acordo com as informações recebidas pela Corregedoria, teria sido solicitado R$ 900 mil para devolver as mercadorias.

Durante uma diligência na delegacia, os agentes encontraram 49 celulares lacrados dentro de um saco de lixo em uma sala trancada. Outros seis aparelhos foram localizados sobre a mesa de Marcos Vinicius.

Na mesma sala, foram encontrados R$ 19.577 em dinheiro e duas armas de fogo pertencentes a terceiros. Marcos não estava no local durante a diligência.

Na sala utilizada por Vagner Ramalho, os agentes encontraram cerca de R$ 4 mil em dinheiro e três celulares. 

Segundo o Ministério Público, os objetos e valores encontrados reforçam as suspeitas de que Marcos e Vagner teriam continuado envolvidos em práticas criminosas durante o período investigado.

Justiça recebe denúncia do MP

O juiz Djalma Moreira Gomes Junior recebeu a denúncia apresentada pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP) contra os investigados no caso.

Na decisão, o juiz autorizou mandados de busca e apreensão em endereços ligados aos investigados, a quebra do sigilo telefônico e o bloqueio de bens.

A Justiça também determinou que corretoras de criptomoedas bloqueiem os ativos ligados aos investigados e, posteriormente, façam a venda pelo valor de mercado. Os envolvidos ficam proibidos de movimentar, transferir, sacar ou trocar as criptomoedas durante as investigações.

O juiz entendeu que havia elementos apresentados pelo Ministério Público que justificavam a prisão preventiva de Bruno Moreno dos Santos, José Adriano Pereira da Silva Nishi, Marcos Vinicius de Souza Melo, Vagner Ramalho, Sidiclei da Costa Almeida, Jonathan Renan Vieira e Thiago Marcel Magnabosco.

Além das buscas e das prisões preventivas, foram determinadas medidas cautelares contra Vagner de Lima, como o afastamento da função pública e a proibição de contato com os demais investigados e testemunhas.

Operação Merx

Após a decisão da Justiça, na última sexta-feira (28), o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e a Corregedoria da Polícia Civil realizaram a Operação Merx.

A operação teve como objetivo cumprir sete mandados de prisão preventiva. Até a publicação desta reportagem, três policiais civis haviam sido presos: José Adriano Nishi, Bruno dos Santos e Marcos Vinicius. Além dos policiais, também foram presos o advogado Sidiclei Almeida e o empresário do Paraná, Jonathan Vieira.

A operação teve como objetivo cumprir sete mandados de prisão preventiva.
Arquivo Investigação Criminal
A operação teve como objetivo cumprir sete mandados de prisão preventiva.






Foram cumpridos mandados de busca e apreensão em endereços nos estados de São Paulo, Paraná e Goiás, além de unidades policiais.

A Justiça também determinou o sequestro e o bloqueio de bens no valor total de até R$ 4 milhões.

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