
Maria Cristina Kupfer, é titular sênior do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo e pioneira na articulação entre educação e psicanálise no Brasil. Ela apresenta uma visão técnica aliada a um olhar humanizado sobre o desenvolvimento infantil e os desafios da inclusão escolar.
A especialista também coordenou a criação do IRDI (Indicadores Clínicos de Riscos para o Desenvolvimento Infantil), desenvolvido em parceria com o Ministério da Saúde e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.
Em entrevista ao Roda Viva, desta segunda-feira (27), a psicanalista defendeu as diferentes abordagens para alunos com TEA (Transtorno do Espectro Autista) nas escolas.
“Não há uma melhor abordagem. Todas as abordagens possuem alcances e limites. As crianças são diferentes. Para algumas, a ABA (Análise do Comportamento Aplicada) funciona; para outras, é infernal. Existem muitas crianças, portanto precisamos de muitas abordagens”, afirma Maria Cristina.
Ensino especializado
Ao abordar as práticas na escola pública, a doutora ressaltou que a própria vivência escolar já tem efeito terapêutico, considerando o contato cotidiano e a convivência com outras crianças, por si só, geram impactos no desenvolvimento.
“A escola é o lugar social da criança. É definidor. O lugar social do adulto é o trabalho. Se ela não estiver lá, nem será criança. A escola proporciona identificações. Por meio da imitação, a criança passa a ter mais consciência de si”, justificou.
Desmistificando o autismo
Ao ser questionada pelo apresentador Ernesto Paglia o que é o autismo e se, em seu ponto de vista, a condição pode ser considerada uma doença.
Maria Cristina esclareceu que, de modo geral, os psicanalistas aceitam que haja questões neurobiológicas e do neurodesenvolvimento relacionadas ao Transtorno do Espectro Autista (TEA).
Para a grande maioria dos psicanalistas que trabalham com autismo, o que costumamos dizer é que o autismo é a expressão do encontro de um conjunto de fatores. Portanto, estou dizendo logo de cara que ele é multifatorial afirma Maria Cristina Kupfer.
“Tenho dito frequentemente que não. Gosto de afirmar que é um modo de ser o autismo, gosto de dizer que são modos de ser, justamente para tirar essa condição de uma visão fechada e restritiva que a perspectiva neurobiológica acaba produzindo”, apontou a doutora.
Kupfer esclareceu que o autismo não é uma doença, mas uma condição. O termo correto é Transtorno do Espectro Autista (TEA), definido como um quadro do neurodesenvolvimento, ou seja, uma forma diferente de funcionamento do cérebro, presente desde a infância e ao longo da vida.