Daniel Munduruku é autor de mais de 70 livros e tornou-se recentemente o primeiro indígena a ocupar uma cadeira na Academia Paulista de Letras em seus 116 anos de história. Ele é doutor em Educação pela Universidade de São Paulo e pós-doutor em Linguística pela Universidade Federal de São Carlos.
Em entrevista ao Roda Viva desta segunda-feira (20), o escritor foi questionado sobre como deixou para trás a vergonha de ser identificado como indígena, passando a assumir sua identidade Munduruku e como esse sentimento de pertencimento influenciou sua literatura.
A escola não estava pronta nem preparada para receber a diferença que nós representávamos. Recebíamos muitos nãos, muitos apelidos, e um dos apelidos que recebi na escola era 'índio'. Eu não conhecia essa palavra, não era algo do meu repertório, conta Daniel Munduruku.
Peso do preconceito
Daniel explicou que pensava que estavam lhe chamando de passarinho, tatu, algo do tipo, e que não enxergava a palavra como algo perigoso ou pejorativo. Ele relatou que, ao longo do tempo, percebeu que muitas pessoas enxergavam os indígenas como seres selvagens, preguiçosos, traiçoeiros e sujos.
Chegou um momento em que ser chamado de índio era tão intenso que "eu já quis deixar de ser índio". Eu quis ser branco, nesse sentido. Quis que a minha experiência de índio ficasse de lado e eu passasse a ser considerado um homem branco, desabafa o professor
Novas possibilidades
O professor também contou sobre sua perspectiva o cenário atual e como se sente sendo o primeiro reprentante de povos indígenas na Academia de Letras.
É muito importante que os povos indígenas ocupem os espaços [Academia Paulista de Letras] que foram negados por todos nós durante toda a história do Brasil. Nós ficamos ausentes desses espaços não por vontade nossa, não por incompetência, mas por uma narração de uma história que nos excluiu, explica Daniel
O escritor afirmou que os espaços que precisam ser ocupados dizem respeito à plena inserção da comunidade indígena na sociedade.
Ocupar esses espaços, portanto, não apenas na Academia de Letras, faz com que a gente possa contribuir de uma forma muito mais qualificada para o Brasil conheça sua própria identidade, completou Munduruku
Ensino e representatividade
Munduruku relembrou como a Lei 11.645/2008 amplia o ensino nas escolas brasileiras na construção de educação mais inclusiva. A norma tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira e indígena nas instituições de ensino fundamental e médio, públicos e privados em todo o Brasil.
O Brasil, por muito tempo, deixou a história a ser contada a partir do ponto de vista do colonizador. A única versão que a gente tinha era a do colonizador. Portanto, eles contavam essa história de acordo com o seu prazer, explica o professor
Daniel Munduruku, afirma que apenas a lei não é o sufiente para mudar esse cenário, pois o país já tem um "racismo estrutural", que vem moldando a sociedade ao longo do tempo.
Claro que uma lei não resolve porque nós temos um racismo estrutural que vem delineando a nossa sociedade desde sempre. [...] A estrutura educacional é muito lenta, leva muito tempo para mudar, finaliza o escritor
Indígenas na política
O escritor também analisou o cenário político indígena no país e sobre a participação dessa comunidade de forma partidária e inclusiva.
A minha leitura do cenário político para os povos indígenas é muito positiva. Acho que os indígenas estão aprendendo a lidar com esse universo da política institucional, pontua Munduruku
O professor, afirma ainda que ver indígenas ocupando esses espaços tem se tornado um novo desafio.
Nós também lidamos com uma sociedade que é construída em cima de uma estrutura política manchada pelo anti-indigenismo. As pessoas que são eleitas, não indígenas, são, muitas vezes, anti-indígenas, assim como são anti-pobres, anti-negros. São contra todas as causas sociais e as causas das minorias, explica Daniel Munduruku