
Assassinatos de autoridades raramente começam no momento do disparo. Começam muito antes, quando alguém cruza uma linha que organizações criminosas não toleram: expor sua estrutura, nomear seus chefes, desmantelar sua hierarquia. No caso de Ruy Ferraz Fontes, essa travessia ocorreu ainda nos anos 2000, e a fação decidiu que a conta seria cobrada, não importando quanto tempo levasse.
A morte de Fontes, em 15 de setembro de 2025, não foi um ato isolado de violência. Foi a execução de um protocolo operacional sofisticado, construído especificamente para cumprir uma determinação que partiu do topo da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital). As investigações revelaram uma engrenagem projetada para manter distância absoluta entre quem ordena e quem mata.
Essa separação de responsabilidades não é acidental. É o fundamento de como organizações criminosas com hierarquia rígida conseguem funcionar sem que seus líderes no topo da pirâmide apareçam em qualquer evidência direta.
Quem é quem na execução
Embora o sistema tenha sido desenhado para garantir o anonimato dos mandantes e a impunidade dos executores, o trabalho conjunto da Polícia Civil e do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), do Ministério Público, mapeou as peças dessa engrenagem.
De acordo com a Polícia Civil e o Ministério Público de São Paulo, até agora foram identificados oito participantes diretos na teia criminosa que matou o ex-delegado-geral Fontes.
Marcos Augusto Rodrigues Cardoso, o Fiel

Marcos Augusto Rodrigues Cardoso, 36 anos e conhecido como Pan, Fiel ou Penélope Charmosa, atuava a partir do bairro do Grajaú, na zona sul de São Paulo, e possui ficha criminal com passagens por tráfico de drogas, porte ilegal de arma e receptação. Ele foi preso em 3 de novembro de 2025.
A acusação contra Fiel o coloca no topo da hierarquia operacional do grupo, atuando como recrutador e gestor da célula criminosa. Identificado como "Disciplina" do PCC na região do Grajaú, ele foi o responsável por escalar e autorizar a participação de Umberto Alberto Gomes, o Playboy, para a missão de assassinar o delegado. A investigação aponta que Fiel exercia poder de comando sobre os demais envolvidos, já que a maioria dos executores residia sob sua região de influência na capital.
Seu vínculo direto com o atentado foi confirmado por provas telemáticas extraídas dos dois celulares de Playboy apreendidos pela polícia após sua morte, no Paraná, em 30 de setembro de 2025. Seis dias após o crime, Playboy enviou uma mensagem a Fiel agradecendo pela "oportunidade" de ter sido escolhido para a execução de Fontes, evidenciando que a ordem partiu de Marcos. Além disso, diálogos interceptados mostram Fiel gerenciando a crise pós-crime, discutindo a destruição de um Renault Logan usado na fuga, isso para tentar eliminar digitais, e articulando planos para escapar para o Paraguai.
Ao ser preso em flagrante, Fiel portava uma arma de fogo com numeração suprimida. Em seu primeiro interrogatório policial, ele admitiu integrar o Primeiro Comando da Capital e exercer função de liderança, confissão que reforça a tese do Ministério Público e da Polícia Civil de que o assassinato foi uma missão institucional da facção.
Crimes atribuídos a Fiel
1 - Integração em organização criminosa armada (com agravante de comando)
2 - Homicídio qualificado tentado contra Samantha Gonçalves Carvalho, ferida a tiro durante o atentado contra Fontes
3 - Homicídio qualificado tentado contra Gustavo Henrique Gonçalves, ferido a tiro durante o atentado contra Fontes
4 - Homicídio qualificado consumado contra Fontes
Luiz Antonio Rodrigues de Miranda, o Gão

Luiz Antonio Rodrigues de Miranda, 43 anos e conhecido como Gão ou Vini, é apontado pela investigação como uma das peças centrais na execução direta do ex-delegado-geral Fontes. Diferente dos apoios logísticos que permaneceram nos bastidores, Gão foi à linha de frente. Com uma ficha criminal que inclui roubo, tráfico de drogas e porte de arma, ele é descrito como um criminoso experiente. Ele teve a prisão preventiva decretada pela Justiça, mas está foragido.
A acusação o coloca não apenas como atirador, mas como um operador tático que cuidou dos detalhes finais para garantir que o grupo estivesse pronto para o atentado contra Fontes.
Logística da morte e kit do crime
A investigação apurou que a preparação de Gão começou meses antes. Entre julho e agosto de 2025, foi ele o responsável por adquirir, via comércio eletrônico, as balaclavas (toucas ninja) pretas utilizadas pelo grupo para ocultar os rostos durante o ataque.
No dia do crime, 15 de setembro, Gão desceu a serra em direção à Praia Grande utilizando um transporte por aplicativo. Foi nesse trajeto que câmeras de segurança registraram a imagem que se tornaria uma das principais provas contra ele: Gão caminhando em direção ao imóvel de apoio na rua Mário Osvaldo da Silva, em Praia Grande, carregando um fuzil enrolado em um cobertor cor-de-rosa.
O resgate do arsenal
Após a execução, a frieza de Gão ficou evidente na coordenação da limpeza do rastro deixado. Ele escondeu o fuzil, munições e botas táticas na casa de Willian Silva Marques, antes de fugir para a capital, segundo a polícia.
No dia seguinte (16 de setembro), Gão acionou Dahesly Oliveira Pires para uma missão de resgate do armamento. Gão orientou a mulher por chamada de vídeo a entrar na casa, localizar o fuzil (ainda envolto no cobertor rosa) e transportá-lo de volta para São Paulo. Ele recuperou o armamento pessoalmente na casa dela na mesma noite, pagando pelo serviço com o perdão de uma dívida de R$ 5.000,00 e valores em dinheiro.
Crimes atribuídos a Gão:
1 - Integração em organização criminosa armada
2 - Homicídio qualificado tentado contra Samantha Gonçalves Carvalho, ferida a tiro durante o atentado contra Fontes
3 - Homicídio qualificado tentado contra Gustavo Henrique Gonçalves, ferido a tiro durante o atentado contra Fontes
4 - Homicídio qualificado consumado contra Ruy Ferraz Fontes (na condição de executor)
Felipe Avelino da Silva, o Mascherano

Felipe Avelino da Silva, 33 anos e conhecido como Mascherano, vivia no Jardim Calux, periferia de São Bernardo do Campo (ABC paulista), e já esteve envolvido em roubos e tráfico de drogas. Ele foi preso em 7 de novembro de 2025.
A acusação contra Mascherano o coloca como operador logístico na execução do plano. Em 25 de março de 2025, sob orientação de Umberto Alberto Gomes, o Playboy, Mascherano furtou um Jeep Renegade no bairro Cidade Dutra, na zona sul de São Paulo. Ele confessou durante interrogatório policial ter instalado placas falsas no veículo. Aproximadamente 45 dias antes do homicídio de Fontes, Mascherano levou o automóvel até Mongaguá, onde o escondeu em um imóvel localizado na rua Pentecof, que havia sido cedido por Cristiano Alves da Silva, o Cris Brown.
Posteriormente, Mascherano viajou diversas vezes à Baixada Santista para efetuar reconhecimento do local do crime, conforme demonstram os registros de sua linha telefônica em 3 e 13 de setembro de 2025, quando se conectou a estações rádio base (ERBs) na cidade de Praia Grande.
Sua mulher, Gabriela Santos Silva, informou à polícia que Felipe lhe confidenciou participação direta no crime, relatando que sua tarefa consistia em deixar um veículo em local específico para permitir a fuga dos executores. Gabriela reconheceu ter ouvido conversas entre seu marido e Luiz Antonio Rodrigues de Miranda, o Gão, com discussões sobre o planejado do crime e identificou que Umberto Alberto era frequentador da residência do casal.
A perícia também vinculou Mascherano ao Jeep Renegade: laudos papiloscópicos identificaram suas impressões digitais no interior do Jeep Renegade, que foi abandonado pelos criminosos logo após a execução de Fontes.
Crimes atribuídos a Mascherano
1 - Integração em organização criminosa armada
2 - Homicídio qualificado tentado contra Samantha Gonçalves Carvalho, ferida a tiro durante o atentado contra Fontes
3 - Homicídio qualificado tentado contra Gustavo Henrique Gonçalves, ferido a tiro durante o atentado contra Fontes
4 - Homicídio qualificado consumado contra Fontes
Paulo Henrique Caetano de Sales, o 13 ou PH

Paulo Henrique Caetano de Sales, 38 anos, chamado de 13 ou PH, morador do Jardim Shangrila, zona sul de São Paulo, diferenciava-se do restante da célula de atentado do PCC por um detalhe crucial: era "ficha limpa".
Sem antecedentes criminais, motorista do SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) e com registro de CAC (Colecionador, Atirador Desportivo e Caçador), PH possuía o perfil perfeito para operar abaixo do radar da polícia. Ele foi preso preventivamente durante as investigações.
A acusação contra PH o coloca como uma peça fundamental na logística e infraestrutura do atentado. Enquanto outros puxavam o gatilho, a função dele foi garantir que os assassinos tivessem onde se esconder e planejar a morte do ex-delegado-geral Fontes.
A base operacional em Praia Grande
Segundo o Ministério Público e a Polícia Civil, meses antes do crime, Paulo Henrique cedeu seu imóvel na rua Mário Osvaldo da Silva, em Praia Grande, para uso exclusivo da célula criminosa. O destinatário direto do imóvel foi Umberto Alberto, o Playboy, um dos líderes da execução.
A casa não serviu apenas de dormitório; funcionou como quartel general para o planejamento final e armazenamento do arsenal usado para fuzilar Fontes. A perícia confirmou essa ligação ao encontrar impressões digitais de Playboy no interior da casa de PH. Mais: no dia do crime (15 de setembro), o imóvel foi o ponto de partida dos veículos Renault Logan e do GM Montana utilizados na operação, e serviu de abrigo para Luiz Antonio, o Gão, que foi flagrado por câmeras chegando ao local carregando um fuzil enrolado em um cobertor rosa.
Fuga para o "sítio do gravata"
A participação de Paulo Henrique foi desmascarada por seu comportamento pós-crime e por provas telemáticas. Logo após a execução de Fontes, antes mesmo de seu nome surgir publicamente nas investigações, PH fugiu de sua casa em São Paulo para se esconder em uma área rural, identificada em mensagens como "sítio do gravata"(gravata é como os membros do PCC se referem aos seus advogados).
A quebra de sigilo de seu celular revelou diálogos comprometedores com sua mulher, Luciana Lima Silva, onde planejavam a ocultação de evidências e discutiam o andamento das investigações. Para tentar criar um álibi, PH alegou à polícia que estava trabalhando no SAMU no dia do crime ou visitando imóveis, mas a investigação provou que ele estava de licença médica e que sua presença na Baixada Santista coincidiu com a movimentação dos executores.
Crimes atribuídos a PH:
1 - Integração em organização criminosa armada
2 - Homicídio qualificado tentado contra Samantha Gonçalves Carvalho, ferida a tiro durante o atentado
3 - Homicídio qualificado tentado contra Gustavo Henrique Gonçalves, ferido a tiro durante o atentado
4 - Homicídio qualificado consumado contra Fontes (na condição de partícipe material/logístico)
Flávio Henrique Ferreira de Souza, o Beicinho ou Neno

Flávio Henrique Ferreira de Souza, 24 anos e conhecido como Beicinho ou Neno, morador da zona sul de São Paulo, é o membro mais jovem identificado na célula que executou o ex-delegado-geral Fontes, de acordo com a Polícia Civil e Ministério Público. Diferente de outros integrantes que atuaram apenas na logística prévia, a investigação aponta que Neno operou nas duas pontas do atentado: na preparação da infraestrutura e na linha de frente do ataque. Ele está foragido.
A acusação contra Neno o descreve como uma peça-chave para garantir a mobilidade e a rota de fuga do grupo. Sua função principal foi operacionalizar uma base segura no litoral sul para ocultar os veículos usados na emboscada.
A base de Mongaguá e o rastro no Jeep
De acordo com o Ministério Público e a Polícia Civil, a participação de Neno começou a se materializar dias antes do crime. Foi ele o responsável por receber as chaves de um imóvel na rua Pentecof, em Mongaguá, diretamente das mãos de Cris Brown. Essa entrega ocorreu em 11 de setembro de 2025, quatro dias antes da execução de Fontes.
A casa não foi usada para lazer, mas transformada em um esconderijo estratégico ("mocó") para o Jeep Renegade de placas clonadas que serviria como carro para a fuga final. A ligação de Neno com essa logística foi apontada cientificamente: peritos papiloscópicos encontraram suas impressões digitais dentro do Jeep Renegade, que foi abandonado pelos criminosos na rua Gilberto Lopes logo após o crime, por causa de de uma falha na abertura das portas.
Além da logística, a investigação o coloca na cena do crime. Neno é acusado de integrar o comboio da morte, estando a bordo de um dos veículos (a Hilux ou o Logan) que interceptaram o carro de Fontes. Após a execução, ele participou da fuga caótica que resultou no incêndio da Hilux e no abandono do armamento pesado. Sua fuga imediata e o desaparecimento após o crime são apontados pelos promotores como evidência de seu vínculo ativo com o PCC.
Crimes atribuídos a Neno:
1 - Integração em organização criminosa armada
2 - Homicídio qualificado tentado contra Samantha Gonçalves Carvalho, ferida a tiro durante o atentado contra Fontes
3 - Homicídio qualificado tentado contra Gustavo Henrique Gonçalves, ferido a tiro durante o atentado contra Fontes
4 - Homicídio qualificado consumado contra Ruy Ferraz Fontes (na condição de executor e apoio logístico)
Cristiano Alves da Silva, o Cris Brown

Cristiano Alves da Silva, 36 anos e chamada de Cris Brown, morador do Grajaú, na zona sul de São Paulo, apresentava-se como um empreendedor do ramo imobiliário, proprietário de imóveis de locação. No entanto, para o Ministério Público e Polícia Civil, essa fachada encobria um operador logístico fundamental para o PCC, com antecedentes criminais que incluem roubo à mão armada, furto e receptação. Ele está preso preventivamente.
A acusação detalha que a participação de Cris Brown foi ceder a infraestrutura necessária para esconder os rastros do crime antes mesmo que ele acontecesse. Foi ele quem garantiu o "porto seguro" para os veículos e para os executores no litoral.
A casa-cofre em Mongaguá
Segundo investigadores e promotores, Cris Brown cedeu seu imóvel em Mongaguá para uso exclusivo da célula criminosa. Embora tenha alegado à polícia que emprestou a casa apenas dias antes do crime, as investigações revelaram que o imóvel já servia de esconderijo para o Jeep Renegade usado na execução havia pelo menos 45 dias.
A entrega das chaves foi feita diretamente a Flávio Henrique Ferreira de Souza, outro envolvido, no dia 11 de setembro de 2025. A perícia no local foi devastadora para a defesa de Cris Brown: foram encontradas impressões digitais de Umberto Alberto, o Playboy, confirmando que um dos líderes da execução de Fontes frequentava a residência usada como base de operações.
Cris Brown e Playboy
Ao ser interrogado, Cris Brown tentou minimizar sua conexão com a facção, alegando conhecer Playboy apenas "de vista" no bairro. Essa versão caiu por terra quando a quebra de sigilo telefônico revelou intensa troca de mensagens e ligações entre os dois, tanto antes quanto depois do assassinato de Fontes.
Mais grave ainda: logo após prestar depoimento e ser liberado inicialmente, Cris Brown entrou em contato com Playboy para relatar o que a polícia havia perguntado. Playboy, por sua vez, repassou as informações para Fiel, evidenciando que Cris Brown atuava como um satélite leal à hierarquia da organização, reportando os passos da investigação em tempo real.
Crimes atribuídos a Cris Brown
1 - Integração em organização criminosa armada
2 - Homicídio qualificado tentado contra Samantha Gonçalves Carvalho, ferida a tiro durante o atentado
3 - Homicídio qualificado tentado contra Gustavo Henrique Gonçalves, ferido a tiro durante o atentado
4 - Homicídio qualificado consumado contra Fontes (na condição de partícipe material/logístico)
Willian Silva Marques, o "ficha limpa"

Willian Silva Marques, 36 anos, morador do bairro da Pedreira, na zona sul de São Paulo, destoa do perfil dos outros integrantes da célula de execução de Fontes. Sem antecedentes criminais e sem um apelido conhecido no mundo do crime, ele representa, segundo a investigação, a face civil que organizações criminosas utilizam para operar abaixo do radar da polícia. Sua prisão preventiva, em 21 de setembro de 2025, revelou que, por trás da fachada de cidadão comum, havia um operador logístico consciente e decisivo para o sucesso da empreitada.
A acusação contra Willian o coloca como o responsável por garantir uma base segura (casa-cofre) para o armazenamento do arsenal pesado e para o reagrupamento dos executores na Baixada Santista.
A entrega das chaves e o apagão das câmeras
A participação de Willian no atentado foi cirúrgica, segundo os investigadores. No dia 14 de setembro de 2025, véspera da execução de Fontes, ele entregou as chaves de seu imóvel localizado na Rua Campos do Jordão, em Praia Grande, diretamente para Gão, um dos atiradores da linha de frente da execução.
Para garantir a invisibilidade do grupo, Willian tomou uma medida que desmontou sua alegação de inocência: ele desligou remotamente as câmeras de segurança da residência durante o período crítico da operação. Em interrogatório, alegou que o fez para garantir a "privacidade" dos hóspedes, uma versão que a Polícia Civil classificou como insustentável.
O fuzil no cobertor rosa
A casa de Willian não serviu apenas de dormitório. Após a execução, foi para lá que Gão se dirigiu para ocultar as provas materiais do crime. O imóvel funcionou como depósito para o fuzil utilizado no ataque (aquele flagrado nas imagens envolto em um cobertor cor-de-rosa), além de carregadores, munições e botas táticas usadas pelos assassinos.
A consciência Willian sobre a gravidade do que ocorria em sua propriedade ficou evidente em seu comportamento familiar. No dia do crime (15 de setembro), Willian mostrou-se "extremamente nervoso" e confidenciou à sua mãe o temor de que as pessoas para quem cedera a casa estivessem envolvidas na morte do delegado, citando inclusive o estranhamento pelo desligamento das câmeras, ato que ele mesmo praticou. No dia seguinte, 16 de setembro, antes que a polícia batesse à porta, ele abandonou sua residência na capital e não retornou.
Crimes atribuídos a Willian:
1 - Integração em organização criminosa armada
2 - Homicídio qualificado tentado contra Samantha Gonçalves Carvalho, ferida a tiro durante o atentado
3 - Homicídio qualificado tentado contra Gustavo Henrique Gonçalves, ferido a tiro durante o atentado
4 - Homicídio qualificado consumado contra Fontes (na condição de partícipe material/logístico)
Dahesly Oliveira Pires, a busca pelo fuzil

Dahesly Oliveira Pires, 26 anos, moradora da Cidade Ademar, zona sul de São Paulo, desempenhou um papel que a investigação classifica como "limpeza de rastro".
Diferente dos executores diretos, sua entrada em cena ocorreu no dia seguinte ao crime, quando a organização criminosa PCC precisava recuperar o arsenal deixado para trás na Baixada Santista antes que a polícia o encontrasse.
A investiação aponta Dahesly como a responsável pela logística de resgate das armas utilizadas na execução de Fontes. Sua motivação, segundo o apurado, misturava necessidade financeira e a quitação de uma dívida antiga de R$ 5.000,00 que seu ex-marido possuía com Gão.
A missão via vídeo-chamada
Na manhã de 16 de setembro de 2025, dia seguinte ao atentado, Dahesly recebeu a missão de descer a serra. Contratou um motorista de aplicativo e dirigiu-se à casa-cofre de Willian Marques, na rua Campos do Jordão, em Praia Grande.
Para entrar no imóvel, utilizou chaves e senhas fornecidas remotamente por Gão. A operação de busca foi coordenada em tempo real: Dahesly realizou uma chamada de vídeo com Gão, que a orientou onde encontrar os itens escondidos pelos atiradores na noite anterior.
O kit do crime e o cobertor rosa
Seguindo as instruções, Dahesly localizou e recolheu um fuzil, que estava envolto em um cobertor cor-de-rosa, o mesmo cobertor que aparece em imagens de câmeras de segurança sendo carregado por Gão horas antes do crime. Além da arma de guerra, ela recolheu carregadores, munições e botas táticas, colocando tudo em uma bolsa preta.
Antes de deixar o local, Dahesly executou a segunda parte de sua missão: a destruição de provas. Sob ordens de Gão, ela recolheu equipamentos de gravação (DVR/câmeras) e produtos de limpeza da casa e os arremessou em um matagal vizinho, numa tentativa de apagar os registros digitais da estadia da célula do atentado naquela casa.
A prova no celular e o pagamento
A audácia da operação deixou rastros digitais. No celular de Dahesly, a perícia encontrou uma fotografia do fuzil tirada por ela mesma, exibindo a arma sobre a bolsa preta antes do transporte. Ela subiu a serra de volta a São Paulo em outro carro de aplicativo, carregando o arsenal no banco do passageiro.
Naquela mesma noite, Gão foi até a casa de Dahesly na capital para recuperar o material. Pelo serviço de risco, ela recebeu R$ 470,00 via PIX, R$ 1.030,00 em espécie e o perdão da dívida do ex-marido.
Denunciada à Justiça por porte ilegal de arma de uso restrito e favorecimento pessoal, Dahesly confessou sua participação. O Ministério Público, inicialmente, optou por não denunciá-la por integraro organização criminosa, entendendo que sua atuação foi pontual e posterior ao atentado contra Fontes, embora não descarte novas imputações criminais contra ela no futuro.
Gustavo e Samantha: vítimas das balas perdidas do PCC
Gustavo Henrique Gonçalves, 20 anos, vivia um momento de euforia no começo da noite de 15 de setembro de 2025: havia acabado de deixar a prisão, beneficiado por um alvará de soltura. A casa da família, na rua Primeiro de Janeiro, em Praia Grande, litoral de São Paulo, estava preparada para a festa. Parentes, amigos e vizinhos se aglomeravam na calçada para celebrar o retorno do jovem ao convívio familiar.
A comemoração, no entanto, foi interrompida pela passagem do comboio da morte do PCC. Enquanto Gustavo recebia os abraços de boas-vindas, a poucos metros dali, na avenida Roberto de Almeida Vinhas, o ex-delegado-geral Fontes era emboscado e perseguido. A rota de fuga desesperada de Fontes cruzou o caminho da festa de Gustavo.
O ataque foi avassalador. O veículo Toyota Hilux SW4 preto, ocupado pelos atiradores do PCC, perseguia o carro de Fontes em alta velocidade, disparando rajadas de fuzil.
Os tiros, destinados ao ex-policial, não distinguiram alvos e a cena de alegria pela liberdade de Gustavo se transformou em pânico. Testemunhas relataram que, inicialmente, confundiram o som dos tiros com fogos de artifício. Mas a realidade se impôs rapidamente quando o sangue começou a cair na calçada.
Gustavo, o homenageado da festa, foi atingido na perna por um dos disparos de fuzil. Sua tia, Samantha Gonçalves Carvalho, 33 anos, que estava ao seu lado celebrando, também foi ferida na perna. O tio de Gustavo, Nelson Carvalho, agiu rapidamente, colocou os dois em seu carro e partiu para o hospital, onde foram salvos.
Para o Ministério Público e a Polícia Civil, os ferimentos de Gustavo e de Samantha são a prova da indiferença do grupo criminoso com a vida. Ao dispararem armas de guerra em vias públicas e movimentadas, os executores de Fontes assumiram o risco de causar uma tragédia ainda maior do que a morte do alvo principal.